Surfistas e pescadores dançam na piscina

A piscina de Aljezur é o palco para "Mar Adentro", espetáculo com mais de 50 pessoas que integra a programação do projeto Lavrar o Mar, dirigido por Madalena Victorino e Giacomo Scalisi.

O ensaio começa assim que termina a hidroginástica. O grupo dos mais velhos nem sai do tanque que é para não arrefecer. "Vamos dar um grande abraço. Como uma cobra do mar, como é que se chama?", pergunta Madalena Victorino. "Uma moreia", responde alguém. "Ou uma enguia", diz outro. "Não, não, a enguia é do rio, a moreia é que é do mar." Uma moreia será. Cruzam-se braços e faz-se uma enorme corrente humana em movimento dentro de água. São mais de 20 pessoas dentro do tanque, homens e mulheres, novos e velhos, com fatos de banho e fatos de neoprene, e quando se põem a bater com as mãos na água, ritmadamente, em perfeita sincronia, formam uma tempestade incrível. A água transborda do tanque, o barulho é ensurdecedor.

Será assim, como uma tempestade, o espetáculo Mar Adentro, que Madalena Victorino e Remi Gallet estão a criar na piscina municipal de Aljezur, em conjunto com a comunidade. Esta será a grande produção deste ano do Lavrar o Mar, o projeto que pelo segundo ano traz uma programação artística internacional e diversificada aos concelhos de Aljezur e Monchique. A direção artística é de Giacomo Scalisi e Madalena Victorino, que agora se dividem entre o Festival Todos, em Lisboa (setembro) e o Lavrar o Mar e outros projetos na Costa Vicentina (de outubro a junho).

A ideia de Mar Adentro é falar da relação com o mar - que é sítio de vida e de divertimento, mas também é local de tragédias. E as imagens evocadas tanto podem vir dos filmes (como Ama-san, de Cláudia Varejão), de obras de arte (como A Balsa de Medusa, de Géricault) ou das notícias sobre os refugiados que vêm de África. Antes de mais, Madalena procurou pessoas que tivessem qualquer relação com o mar. Apareceram nadadores-salvadores, surfistas, uma nadadora em mar aberto, pescadores, mariscadores, pessoas que simplesmente gostam de água. Ela gostaria de ter 60 a 70 intérpretes. Há um núcleo duro, de cerca de 20, com quem estão a trabalhar quase profissionalmente, embora eles sejam todos amadores. Mas depois há um grupo de idosos, outro grupo com grávidas, mães e filhos, há um grupo de surfistas, há o coro...

A primeira condição para realizar este espetáculo é esta: o espaço é quem mais ordena. Existe uma série de regras de utilização da piscina que condicionam a criação, desde os horários para os ensaios ao facto de todos terem de usar touca, de não se poder usar qualquer material que se desfaça ou eventualmente suje a água ou até de os próprios espectadores terem de calçar uns chinelos para ali entrar. Madalena prefere olhar para estas regras como um desafio, mais do que limitações. "Estamos a transformar um espaço tão frio e agreste num outro espaço", diz. E a procurar soluções. Para os enormes problemas de acústica, por exemplo. Para a iluminação. Para a "proximidade exagerada" do público que vai ficar ali na beira da piscina. Para o frio que os atores vão sentir se ficarem muito tempo dentro de água. Para o cansaço, expectável, uma vez que os intérpretes têm de se movimentar dentro de água, muitas vezes batendo os pés para não afundar. "Não há artifícios." Estará tudo à mostra. A ideia é que todos mergulhem. Por isso, Madalena e Remi imaginam formas de ocupar os vestiários onde o público se irá equipar como se fosse nadar.

Como fazer uma "salada-mista"

Quando era nova, Maria Fernandes fazia vestidos de noiva em Lisboa. Depois a vida deu muitas voltas e, há seis anos, acabou por voltar à sua terra, Aljezur. E foi, entre as idas à piscina para fazer hidroginástica e as atividades do Entrelaçar (projeto da autarquia de ocupação dos tempos livres para a terceira idade), que tomou o conhecimento do Mar Adentro. "Não sei nadar mas gosto de dançar, vou aos bailes todos", conta, no final de mais um ensaio. Ali está ela, aos 80 anos, de fato de banho, a dançar dentro do tanque, de mão dada com mais vinte pessoas, a deixar-se levar pelas palavras de Madalena Victorino. No tanque mais pequeno todos têm pé mas mesmo assim há quem precise de ajuda para manter o equilíbrio ou para se movimentar. "É um convívio muito bonito, há aqui novos e velhos", diz Maria. Celestina e Maria de Lurdes, de 59 e 58 anos, vão acenando com a cabeça para concordar. "É bom experimentar coisas novas", diz a primeira.

"Gostamos de juntar pessoas diferentes, de fazer uma salada mista", explica Madalena. Ao fim de pouco mais de meia hora este grupo mais idoso dirige-se para os balneários. Os restantes mergulham na piscina olímpica. Agora é a doer. Dançar dentro de água, ensaiar coreografias que nos recordam os exercícios de natação sincronizada, treinar mergulhos em dominó, tentar manter a precisão da posição das mãos ao mesmo tempo que se está a bater os pés. António Amaral tem 45 anos e é músico, professor de surf e homeopata, entre outras coisas. Veio de Lisboa há seis anos. Ana Rute tem 36 anos e é bailarina, professora de dança, música, agricultora, construtora civil e o que mais tiver de ser, desde que há quatro anos deixou o Porto com o marido, Tiago. Sofia Mentzinger tem 52 anos e há 14 que veio da Alemanha. Tem um monte e um negócio de trecking com burros. Mas aqui, na piscina, são todos alcatrazes em voo picado em direção à água. Ou tubarões. Ou golfinhos. Ou pescadores que puxam as suas redes. Ou náufragos.

Todos eles participaram no ano passado no Rastilho, uma das criações comunitárias do Lavrar o Mar, e quiseram voltar. "Tem sido uma experiência fantástica, nunca tinha feito nada assim", diz António. "É uma alegria. Saímos daqui com uma sensação de bem estar", conta Sofia. Isso e ainda os amigos que fizeram e a oportunidade de estar a fazer algo criativo é o que mais gostam no projeto. "E o resto da programação também é boa, de nível internacional", acrescenta Sofia.

Trabalhar sempre que possível com as pessoas da terra é uma das regras do Lavrar o Mar. "Para deixar raízes, para que algo disto possa continuar mesmo que nós não estejamos cá", diz Madalena Victorino. Por exemplo, com João Mariano que é fotógrafo e editor de vídeo e tem também um gabinete de design, o 1000 Olhos, que fica mesmo do outro lado da rua. É ele que cuida da imagem do projeto. Ou Ana Baleia, a figurinista que mora em São Luís, Odemira, e que já trabalhou com o São Luiz ou com o Chapitô e agora está a imaginar os fatos-de-banho, roupões e toucas que hão de levar os integrantes do Mar Adentro. Ou Diogo Vilhena, o realizador do documentário Mar de Sines, filho de um mariscador, que faz os vídeos para este espetáculo aquático.

O coro também vai à piscina

À tarde, enquanto decorrem os ensaios na piscina, na sala de ensaios de banda filarmónica, nos Bombeiros de Aljezur, Remi Gallet ensaia com o Coro Internacional de Aljezur, que existe desde 2000 e reúne 25 cantores, dos quais só dois são portugueses. A espanhola Carmen Juncadella é a maestrina que prepara o coro para as as diversas apresentações públicas, sobretudo com repertório clássico. Muito diferente dos temas que Remi trouxe para o coro interpretar no Mar Adentro. "A ideia é que, numa cena, eles entrem, com fatos de banho e roupões, e fiquem em volta do tanque a cantar", explica Remi, que está a compor a música original do espetáculo, inspirado pelos sons relacionados com o mar, como a ondulação e as sirenes.

Remi Gallet também é da terra. O músico francês mudou-se para Aljezur com a mulher portuguesa há dez anos, num momento em que queria mudar de vida. Aqui teve dois filhos e já foi agricultor, trabalhou nas obras, tocou em bares. "Estava a começar a desesperar. Se não fosse o Lavrar o Mar provavelmente já me teria ido embora", diz. Depois de no ano passado ter participado no projeto Rastilho, Remi integra agora a equipa base do Lavrar o Mar. Uma equipa pequena, explica Madalena: "Como não temos um orçamento muito grande, existe esta premissa de que todos temos que fazer várias coisas. Eu, o Giacomo e o Remi somos híbridos. Tanto damos uma contribuição artística como varremos o chão. Seria impossível ter artistas a trabalhar aqui durante três meses. Por isso, se queremos criar, e não só trazer espetáculos a esta região, fazemo-los nós e maioritariamente com as pessoas que cá estão."

Com financiamento assegurado por mais dois anos, através do programa 365 Algarve e também com financiamento da União Europeia, através do Cresc Algarve 2020, assim como dos municípios de Aljezur e Monchique, o Lavrar o Mar começou o ano com um circo (sempre esgotado). E continua a partir de março e até junho, com espetáculos quase todos os fins-de-semana. "Deixámos de ter a ideia de festival, percebemos que o público não estava disponível para uma programação tão intensa em duas semanas, e decidimos espalhá-la", explica Giacomo Scalisi. A aprendizagem é permanente. "Viver aqui faz toda diferença. Estamos ligados a este ritmo da natureza, sentir o mar, a terra, as diferentes comunidades que aqui vivem. Não é só programar, é mergulhar na população."

Programa:

Viajantes Solitários
1,2 e 3 março, antiga serração, Monchique
7, 8, 9 março, EMA - Espaço Multiusos Aljezur
Em que pensam os camionistas durante todos os quilómetros que percorrem? Esse foi o ponto de partida para este espetáculo do Teatro do Vestido, com texto e direção de Joana Craveiro e interpretação de Estêvão Antunes e Simon Frankel.
Maiores de 12 anos.
Bilhetes: 7 euros.

As Noites das Facas Longas
15,16 e 17 março, Lameira, Monchique
22, 23 e 24 março, Marmelete
Teatro itinerante das destilarias de medronho da região. Espetáculo com direção artística de Giacomo Scalisi a partir de textos de Afonso Cruz e Sandro William Junqueira.
Maiores de 18 anos.
Bilhetes: 10 euros (inclui refeição ligeira e provas várias de medronho).

Mar Adentro
29, 39 e 31 março e 1 abril, piscina de Aljezur
5, 6, 7 e 8 abril, piscina de Monchique
Teatro aquático de Madalena Victorino e Remi Gallet com um grande grupo de convidados.
Maiores de 12 anos.
Bilhetes: 12 euros.

Bestias
24, 25, 27 e 28 abril, campo de futebol dos Malhadais, Odeceixe
Um circo contemporâneo com animais. Para nos pôr a pensar na relação entre o homem e o animal. Pela Cie. Baro D"Evel, de França.
Maiores de 6 anos.
Bilhetes: 5 euros (até aos 12 anos) e 12 euros (público em geral)

Cantina
19, 29, 21 e 22 de maio, antiga serração, Monchique
Teatro culinário da companhia belga Laika, a partir de Santa Joana dos Matadouros, de Brecht.
Maiores de 12 anos.
Bilhetes: 10 euros (inclui refeição).

Credo
26 maios, em Monte Clérigo, Aljezur
Concerto-oratória com textos de José Tolentino de Mendonça e direção artística e musical de Mário Tronceo.
Maiores de 12 anos.
Bilhetes: 5 euros.

Clowns
31 maio e 1 junho, antiga serração, Monchique
2 e 3 junho (local a anunciar) Aljezur
Espetáculo de Giacomo Scalisi com Enano, Leo Lobo e Thorsten Grütjen.
Maiores de 12 anos.
Bilhetes: 7 euros.

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