Selos: de prova de pagamento a objeto de culto

Pense num selo como uma camisola: passa por uma montra, vê um de que gosta e não resiste. Compra-o, mas não tem cartas para enviar. Comprou-o porque é bonito. É para isso que se trabalha nos CTT, para que os selos, condenados pelo "e-mail" e outras modernices, continuem a fazer a nossa história. Todos os anos há cerca de 30 emissões filatélicas, pensadas para agradar a gregos e a troianos

Entramos na sala de reservas do Museu das Comunicações como quem entra num cofre-forte. Portas blindadas, casacos e malas à porta. Lá dentro, três milhões de peças, a memória filatélica nacional feita de selos, mas não só. Há sobrescritos, originais de artistas portugueses, as provas ou a caixa de ferramentas de um gravador. Este é um mundo riquíssimo, que se revela como se fossem bonecas russas: há gavetas que se abrem e levam a muitas histórias.

Raul Moreira é um dos que fazem as gavetas contar histórias. Diretor de filatelia dos CTT há mais de três décadas, respira selos - e boa disposição. "O selo quando foi inventado era para ser um recibo. Antes de se inventar o selo, quem pagava o transporte das mensagens não era quem emitia, era quem recebia. Ora isto era extremamente penoso para a rentabilidade das empresas operadoras. Imagine que o cavalo já estava cansado, o carteiro já tinha cavalgado, depois chegava lá, aquilo era uma injunção da autoridade tributária, a pessoa dizia "isto não deve ser para mim", e não pagava. Portanto, o selo nasceu como um bilhete de comboio. Nós compramos primeiro o bilhete e depois entramos no comboio. O selo é isso: o recibo que atesta antecipadamente o transporte de uma mensagem através de uma rede que se convencionou chamar a rede dos correios ou a rede postal."

Recibos de luxo. Alguns foram feitos por artistas como Almada Negreiros, Vieira da Silva ou Maluda, entre muitos outros. Raul Moreira vai lendo uma lista, que providencialmente tirou do bolso para não se esquecer de nenhum ("e as famílias não se zangarem"). Estamos parados junto do magnífico Desfado, de Almada, num corredor da Fundação Portuguesa das Comunicações (onde está instalado o museu). "Eles produziam obras que nós comprávamos e pagávamos. Quando eu digo eles, são todos os grandes artistas portugueses do princípio do século XX. Almada, tenho todos... às vezes tenho medo de me esquecer... José Luís Tinoco, Cândido Costa Pinto, Maluda, Lima de Freitas, Vieira da Silva, José Augusto França..."

"Sabe o que é? Na altura tirávamos dez milhões, era o meio de comunicação por excelência...", interrompe Luís Andrade, presidente do conselho executivo da Fundação Portuguesa das Comunicações. "Quatro milhões por dia", junta Raul. "Imagine o que era... todos estes homens [e mulheres] seguiam pelo mundo fora, os selos eram verdadeiros museus ambulantes", remata Luís Andrade. "Museu portátil", diria depois Raul, quando tira da cartola mais uma história: "O selo era o maior múltiplo de arte do mundo. Um desenho da Maluda, que depois dava origem a 30 ou 40 serigrafias, mas que era vetorizado como material colecionável em 500 mil objetos. Esse selo chegava à Alemanha e lá ninguém sabia quem era a Maluda, mas para os colecionadores que se sentiam fascinados pelos quiosques que ela tinha desenhado em selo o interesse foi de tal modo grande que ela foi convidada a expor na Alemanha. Ela acabou por se tornar uma pintora conhecida por causa dos selos."

Moderníssimos recibos, poderia acrescentar Fátima Santos Marques, diretora das reservas, que não se cansa de nos mostrar os desenhos que ao longo dos anos deram origem a selos, enfatizando o "modernismo" do design de Jaime Martins Barata, um dos primeiros diretores gráficos da casa. "O célebre selo do cavalinho que todos nós temos. Todos com mais de 60 anos", aponta. "O cavaleiro medieval", murmura Raul. Referem-se a D. Dinis, de 1953. Temos menos de 60 anos e a memória devolve-nos essa reminiscência, talvez numa carta antiga, do tempo em que todas as cartas tinham selos. Do tempo em que circulavam seladas por dia 300 mil cartas ou objetos postais. Hoje são 12 mil.

Os números aponta-os Raul Moreira enquanto fazemos esta viagem que nos há de fazer chegar ao Rei D. Carlos, com escala no Star Wars. Mas para já registe-se a data do primeiro selo português: 1 de julho de 1853. O pequeno retângulo ostentava a efígie da rainha D. Maria II e inspirava-se no pioneiro modelo pré-pago inglês, lançado 13 anos antes. O selo de cem réis desta emissão é o mais valioso da filatelia portuguesa - da autoria de Francisco Borja Freire. Há um ano, foi vendido um novo por sete mil euros, conta o colecionador Rui Matos Alves. Este advogado de 44 anos tornou-se filatelista depois de se ter interessado por uma caixa de lata que a avó lhe deixou, onde descobriu o mundo. São pessoas como ele que alimentam a nova vida dos selos.

Star Wars em selos

"Costumo comparar o marketing da filatelia com o marketing das canetas de tinta permanente. Isto é, toda a gente usa computadores e processadores de texto para escrever, mas nunca se venderam tantas canetas de tinta permanente. Se calhar não servem é para escrever, servem para mostrar nas reuniões. O que eu tento fazer é que a filatelia se aloje no nicho de mercado específico e mais ligado a determinados vetores que não têm que ver com a utilização prática do selo. O selo ainda tem a sua utilização prática, mas o que tentamos puxar hoje é por outro tipo de atração, a atração pelas coisas bonitas, pela estética, pela cultura, e por termos assuntos que dizem alguma coisa às pessoas", diz o diretor de filatelia dos CTT.

E aí surgem os selos pensados para assinalar efemérides e entra o Star Wars. A 25 de agosto de 2017, os CTT fizeram uma emissão pensada para assinalar os 40 anos da saga e atrair novos públicos para a filatelia. Com sucesso. "Foi uma emissão muito engraçada. Além de fazermos os selos normais, fizemos uma folha A3 numerada com a emissão toda e da qual só fizemos 5000 exemplares. Os pedidos ultrapassaram, mas não conseguimos satisfazer as pessoas porque toda a gente queria comprar a folha numerada com a data do seu nascimento. Não dá, não é? Os primeiros ainda tiveram sorte, os últimos não. Tivemos uma enorme notoriedade, especialmente na internet", diz Raul Moreira.

Esta mudança na finalidade do selo postal marcou também uma nova estratégia nas emissões filatélicas: "No fim dos anos 1980 chegámos a fazer nove, dez, 12 emissões por ano, o que era considerado já um exagero, e hoje fazemos 28, em alguns anos 30", conta. "O sentido desta atividade é criar um sentido de empatia cada vez maior entre nós e o nosso mercado. O problema é que não temos um mercado, temos muitos. Temos o mercado dos antigos, que continuam a colecionar da forma clássica, temos o mercado dos miúdos, das pessoas mais novas, a quem a filatelia diz pouco mas se calhar compraram o selo do Star Wars, e temos o mercado das pessoas que de um ponto de vista mais corporativo aderem a determinadas emissões de selos. Por exemplo, quando comemoramos os 75 anos da Ordem dos Arquitetos, quando comemoramos os 130 anos da primeira escola de enfermagem do país, estamos a fazer aqui um apelo que é corporativo", explica.

O selo tornou-se um objeto de desejo. "O futuro da atividade filatélica vai ser desenvolver um nicho de mercado mais adequado a determinado tipo de particularidades, como seja: uma pessoa passa por uma estação de correios, por uma loja como se diz hoje, vê na montra uma emissão que lhe agrada e compra. Compra como um objeto, não lhe pode passar pela cabeça usar depois numa carta - quer dizer, pode, mas aquela compra é uma compra que se faz por impulso. Portanto, o nosso objetivo é tratar a filatelia como se trata um conjunto de objetos que se expõem numa montra e as pessoas compram porque gostam."

Talvez alguns dos selos dos 300 anos da Biblioteca Joanina, de Coimbra, postos à venda a 28 de setembro, tenham feito parar transeuntes em frente à montra dos CTT. Foi o designer gráfico José Brandão quem tratou de pôr esta imponente aniversariante dentro de dois retângulos de papel. É um desafio que se renova desde 1978. A B2 Design é um dos ateliês que trabalham com os CTT. "Dada a minha vetusta idade, penso que muitas vezes a direção da filatelia me escolhe porque são áreas sobre as quais já me debrucei", brinca. Sentado na outra ponta da mesa no ateliê da Av. Infante Santo, em Lisboa, Francisco Galamba, diretor de arte dos CTT, ri-se. "José Brandão é uma referência." Junta à vénia ao mestre a certeza de que a escolha do ateliê "é essencial", porque "o selo perdura". Uma responsabilidade atemporal e uma "história de arte recente" que se escreve, ano após ano, nas coleções dos correios - premiadas a nível internacional.

José Brandão, 73 anos, calcula que já terá feito "umas 40 coleções e uns 200 selos". A carreira deste designer gráfico abrange outras áreas, dos livros aos cartazes, passando pelas capas de discos de vinil (como Por Este Rio Acima, de Fausto, ou Coro dos Tribunais, de José Afonso). Fazer um selo obedece às regras de um qualquer projeto de design, com um desafio extra: a escala. "O que é que tem um selo? É uma superfície muito pequena, é uma miniatura que tem de ser suficientemente expressiva para conseguir transmitir uma mensagem rapidamente." Brandão segue o raciocínio como se desse uma aula: "Na questão da conceção do selo, a nossa principal preocupação obedece a dois princípios básicos: sermos capazes de encontrar uma imagem suficientemente eficaz para que seja percetível pelas pessoas em geral e por um público não prevenido; e, por outro lado, temos de responder com rigor científico a isso."

Como colocou a Biblioteca Joanina dentro de minúsculos retângulos, de 80 por 30,6 milímetros? Foi um processo de seleção. "Para chegar a dois selos é preciso fazer muitos selos porque nós vamos interiorizando esta matéria, vamos conhecendo as coisas, vamos fazendo recortes, vamos experimentando", conta. No caso da Biblioteca Joanina, havia imagens gastas que importava não repetir, até porque, em todos os trabalhos, procura dar um novo olhar às pessoas. As fotografias, enviadas em dezenas de ficheiros pelos CTT, foram sendo sucessivamente selecionadas e eliminadas. "Uma das coisas muito bonitas da biblioteca é que quando a gente chega tem uma sucessão de arcos. Essa imagem foi uma daquelas para onde olhámos, mas era a banalidade das banalidades, tivemos de pôr de lado", conta. A equipa começou, aos poucos, a traçar um caminho: "Começámos a focar-nos num elemento de arquitetura e num elemento bibliográfico. Todo o processo decorre sempre num diálogo com a direção de arte dos CTT", conta, enquanto mostra os selos que nunca o serão. Muitos outros ficaram do outro lado da cortina. "Há sempre uma parte de intimidade que não é revelada", diz Brandão, humor fino e traço expressivo.

Enchente de forais

O ateliê B2 recebe as encomendas de emissões filatélicas com dois meses de antecedência. Mas as emissões estão decididas a um ano de distância. Todos podem enviar ideias para selos. "Os Correios durante um determinado período, que vai até ao fim de março de cada ano, recebem um conjunto de propostas de todas as entidades públicas e privadas para emissões de selos, e nós convidamos para que essas propostas sejam feitas. Recebemos por ano uns milhares, 1200 a 1300 propostas das quais só podemos escolher 25. Portanto, é um processo de afunilamento que é um pouco complicado e que nos levou a fazer o apelo, há uns anos, a um conselho científico, que nos assessora na escolha dos selos", explica Raul Moreira. O Conselho Filatélico reúne-se duas vezes por ano e ajuda a chegar à lista final de emissões anuais.

Muitos privados fazem propostas que têm que ver com as suas terras. "Em 2000 tivemos uma inflação..." - Raul ri-se. "Em Portugal os forais são antigos, até anteriores à nacionalidade, mas houve uma determinada altura em que o rei D. Manuel I decidiu renovar os forais todos e nessa época de 1500, mais ou menos, todas as vilas e cidades do país que tinham o foral antigo passaram a ter o foral novo. Em 2000, estavam a fazer os 500 anos, tivemos uma inflação de pedidos para comemorar os 500 anos do foral. Agora dizemos na brincadeira que nós forais só fazemos a partir dos 800 anos", conta o diretor de filatelia, revelando que todos os anos chegam propostas para selos sobre Amália e Eusébio.

Arqueologia filatélica

Rui Matos Alves faz parte do grupo que não se interessa por estes selos. É colecionador de selos antigos. A semente foi lançada pela avó, que lhe deixou uma caixa de lata onde juntava os selos das cartas que o irmão, homem de muitas viagens, enviava. "Tinha selos da Noruega, de Chipre, da Grécia. Nessa altura, para uma criança, era um mundo à parte, um mundo que não existia." Lembra-se de um conjunto de selos com fatos tradicionais de Chipre - "depois vim a saber que aquilo não valia nada". Rui, hoje advogado, tinha então 7 anos e começava a conhecer o mundo em pequenos pedaços de papel carimbado. "Todo o selo tem uma história por trás e naquela história podia-se conhecer a cultura de um país, não havia internet..." O seu pai regou a semente: "Eu fiquei com aquela caixinha. Depois, o meu pai, que também recebia cartas e encomendas, ia-me dando os selos e comecei a juntar, e foi daí que nasceu este bichinho de colecionar."

Quando começou, tinha como objetivo ter todos os selos portugueses desde 1853 até à época (então 2001). Até que um dia conheceu o presidente da Federação Portuguesa de Filatelia, que lhe disse que se queria competir, esse não era o caminho. "Colecionava como toda a gente, de forma tradicional, comprava os primeiros selos, tentava ter todos os selos portugueses. Estava quase a conseguir esse objetivo quando alguém me diz que não é esse o caminho!" O seu interlocutor explicou-lhe então quais as várias "famílias" da filatelia e falou-lhe da filatelia tradicional, que é o estudo de uma determinada emissão filatélica. Rui Matos Alves não sabia o que isso era, mas hoje tem concretizada a coleção do rei D. Carlos, com que vai a competição e já conseguiu 85 pontos (o máximo é 100), o que significa ouro em filatelês. Este estudo de uma emissão filatélica faz que se junte aos selos virgens as várias provas, cartas circuladas e postais. Uma vez que a emissão do rei D. Carlos circulou entre 1895 e 1910, Rui teve de fazer uma espécie de arqueologia filatélica. "Ao início foi complicado porque estamos a falar de selos com cento e tal anos", admite. Mas rapidamente conheceu "os sítios certos" (vulgo comerciantes nacionais e internacionais) e mergulhou no mundo dos leilões.

O selo do rei D. Carlos foi feito por Eugène Mouchon. Antes de fazer o selo, o artista gráfico francês fez estudos e apresentou as provas à Casa da Moeda. Rui Matos Alves conseguiu algumas das primeiras provas, de 1883/1884. Todas as peças estão legendadas em inglês, porque a coleção está preparada para concursos internacionais. Algumas dizem "The only one known": são raridades, peças únicas, cujo valor prefere não divulgar. Nem o da coleção, que se distribui em 16 quadros (folhas A4) e dois dossiês: "Alguns milhares de euros."

Também os CTT - empresa privatizada em 2014, atualmente a enfrentar um processo de restruturação - passaram a interessar-se pelas coleções e, em outubro, compraram, por um valor também não divulgado ("centenas de milhares de euros"), uma rara coleção de selos D. Luís aos herdeiros do colecionador Castanheira da Silveira. Esteve exposta no Museu das Comunicações e é considerada a melhor coleção de selos de D. Luís do mundo. A empresa pretende continuar a juntar à memória filatélica nacional estes exemplares únicos, com o estudo detalhado das emissões.

Os dossiês de Rui Matos Alves, dedicados a um outro rei, D. Carlos, têm objetos curiosos que exigem um olhar atento. Como as provas em que o valor facial surge fora do sítio - "estavam a tentar acertar aqui no meio", aponta. "As provas são muito mais raras do que o selo em si. Selos houve muitos, provas não", acentua. Depois há casos engraçados (e únicos), como o da carta enviada por J.W. Burmester para a mulher de Carl Renz, de Waiblingen, na Alemanha (chama-se carta circulada, neste mundo). O sobrescrito mistura selos da monarquia com os da República. "Esta é a única carta conhecida em que existem os selos do rei D. Carlos circulados no período da República junto com os do rei D. Manuel II, com uma sobrecarga a dizer República. A pessoa que os enviava estava sujeita a ir presa. "Ou era alguém que estava contra o regime ou alguém que deliberadamente enviou a um colecionador", alvitra.

O advogado colecionador também tem a prova de que quando D. Carlos foi assassinado, a 1 de fevereiro de 1908, já estava em estudo uma nova emissão. O selo não chegaria a circular, mas foi apresentado um estudo, que Rui Matos Alves conseguiu juntar à coleção. "Isto são documentos históricos."

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