Quando a paixão pela música (dos outros) se torna um modo de vida

Mais do que ter uma grande coleção de discos, move-os a paixão pela música. Descobrir novos (e velhos) sons e divulgá-los: em programas de rádio, nas pistas de dança, lojas e exposições.

Rui Ferreira tinha 16 anos quando a sua vida mudou: "Lá em casa só se ouvia Onda Média, até que a minha mãe comprou um rádio com FM. Comecei a ouvir o Som da Frente do António Sérgio e foi uma coisa brutal." Pouco depois, comprou o seu primeiro disco, Steve McQueen, dos Prefab Sprout (1985). "Era um grande disco pop e ainda é, ainda o ouço", conta. E nunca mais parou. Nem de comprar discos nem de ouvir música. Rui tem 49 anos. No ano passado deixou de ser enfermeiro, a sua profissão desde sempre, para abrir uma loja de discos, novos e usados, a Lucky Lux, em Coimbra, a sua cidade. E foi assim que a sua grande paixão se transformou (finalmente) no seu modo de pagar as contas.

Em miúdo, "não tinha muito dinheiro e os discos eram caros, custavam dois contos. Andava no liceu, a minha mãe dava-me dinheiro para ir ao bar e eu simplesmente não comia para poder no fim do mês comprar mais um disco", recorda. "Também nunca tive vícios. O meu único vício eram os discos." Em 1993 foi para a Rádio Universidade de Coimbra, a RUC. Nessa altura, já devia ter uns mil discos. Ele achava que eram muitos mas, claro, é tudo uma questão de perspetiva. Desde então a coleção não parou de crescer. "Tinha uma base de dados no computador. Cheguei aos três mil e tal. A partir daí já não dava. Se num dia uma pessoa arranja 50 discos novos torna-se difícil manter a base de dados atualizada", explica. Perdeu-lhes a conta mas serão "seguramente mais de 30 mil".

Rui não se considera um colecionador na medida em que não olha para os seus discos como um conjunto. Na verdade, mais do que colecionar discos ele gosta mesmo é de os ouvir. Gosta de música. Esse é o princípio de tudo. Em 1996 foi um dos fundadores da Lux Records, editora que tem no seu catálogo nomes como Belle Chase Hotel, Bunnyranch, Wraygunn, Sean Riley & the Slowriders, X-Wife. Também foi manager dos Belle Chase Hotel, o grupo de JP Simões. Continua a ter programas na RUC (o Cover de Bruxelas, em que só passa versões) e, além da loja, de vez em quando passa música em bares: "A única coisa que me falta na música é ser músico".

Entretanto, a sua casa foi ficando cada vez mais cheia de discos. Tem todos os formatos, incluindo cerca de sete mil discos de sete polegadas e milhares de CD mas confessa que prefere o vinil. "Tive o meu primeiro CD em 1990. Depois, as editoras portuguesas praticamente deixaram de editar vinil e toda a gente foi obrigada a comprar CD. Achava-se que o vinil ia acabar", recorda. Nessa época tinha um programa na rádio a que chamou Os últimos dias do vinil.

O critério é simples: "Compro os discos que gosto." Há alguns músicos especiais: "Os Psychedelic Furs é a única banda em que vou àquele cúmulo de ter a edição inglesa, a edição espanhola, a portuguesa. Dos Velvet Underground também tenho algumas coisas repetidas. Às vezes tenho o mesmo disco em vinil e CD, como acontece com o Beck." Mas não é obcecado, faz questão de frisar. "Gosto do objeto, do disco, mas o primeiro critério é sempre a música. Pode ser a edição mais linda do mundo mas se a música não me disser nada não vou comprar."

Compra em feiras e em lojas, sempre que viaja vem carregado de nova música, para si, para a rádio, para a loja. "Levo sempre pouca roupa para poder trazer muitos discos", conta. Numa das últimas viagens que fez, aos Estados Unidos, trouxe três malas cheias e teve que pagar o excesso de bagagem. Esta semana irá a Paris, ver o concerto de Nick Cave, e vai preparado para comprar mais.

O valor monetário de um disco não lhe interessa muito. Tem alguns discos que podem valer umas centenas de euros mas nenhum daqueles mesmo muito valiosos. "Pelo menos que eu saiba", diz. Um dos mais valiosos da sua coleção será um CD single dos Nirvana; Pennyroyal Tea. O single estava para sair quando Curt Cobain morreu em abril de 1994. "A edição foi cancelada só que do armazém da Alemanha já tinha saído um camião com discos. Eles tentaram recolhê-los mas alguns já tinham sido vendidos", conta. "Eu comprei-o numa loja em Coimbra no dia em que chegou. Custou-me 900 escudos. Esse disco é muito raro agora, deve valer entre 600 e mil euros." Mas esse, garante, nunca estará à venda na loja.

Cu-cu, há mais discos no Chiado

Em Lisboa também há uma loja de discos acabada de inaugurar. Chama-se Peek a Boo (que é aquela brincadeira que se faz com as crianças, "cu-cu") e fica no Espaço Chiado que deve ser o centro comercial no centro da cidade que tem mais lojas vazias e mais lojas de discos - além da Peek a Boo, existe a Discoleção, a Sound Club e a Carpet & Snares. Mas Rodrigo Alves sabe que a sua loja é diferente das outras: "A loja é o reflexo daquilo que gosto, só tenho aqui discos que eu gostaria de comprar."

Rodrigo Alves/ Trol2000 na sua loja, Peak a Boo

Ou seja, soul, funk, disco, dub house, música de fusão - mais orgânica do que eletrónica. Olhamos para as paredes. Estão lá Solomon Ilori, The Ahamad Jamar Trio, Henri Stone"s Miami Sound, Motown flies Jamaica. Discos de vinil, novos e usados, mas selecionados. Não entrem ali para vender lotes de discos antigos, ele não compra. Não vão ali à procura de discos velhinhos e que mal se conseguem ouvir, ele não tem. "Gostaria de ter uma secção de música portuguesa, mas tenho que pensar bem como vou fazer", explica, apontando para um disco dos anos 80 de Lena d"Água, como exemplo daquilo que lhe interessa.

A Peek a Boo é a mais recente aventura de Rodrigo, de 39 anos, que os frequentadores das pistas de dança conhecerão como o DJ Trol2000. O nome vem do tempo em que ele fazia graffitis, muito provavelmente na mesma altura em que ainda trabalhava como designer gráfico, pouco depois de deixar para trás as bandas de heavy metal de que foi vocalista e começar a descobrir novos sons. "Não pensava sequer ser DJ e até gozava um bocado com os DJ por causa dos martelinhos. Nunca tal me passou pela cabeça. Mas comecei a explorar outros sons, sempre me interessei por procurar novas sonoridades e descobrir novas bandas. E fui descobrindo algumas coisas de metal misturadas com a eletrónica e avancei por aí. É um processo que leva algum tempo. Tem a ver também com a maturidade e com abertura de mente."

Neste processo, foi colecionando discos e embora não saiba ao certo quantos tem hão de ser mais de quatro mil. Mas não se define como colecionador: "Tenho alguns discos, mas não tenho assim tantos, há quem tenha muito mais. Eu costumo dizer não compro os discos para os colecionar, compro aquilo que gosto, ou para ouvir ou para tocar." De preferência que dê para ambas as ocasiões. Entretanto, já se desfez de quase todos os CD que tinha: "Não acho que o CD seja colecionável, sequer." Não é um purista do vinil e também compra música digital, mas faz uma distinção: "Há música que é descartável e há música que fica para sempre" e, essa, é para ter em disco. Um dos espaços onde é comum encontrar Trol2000 é no Lounge, um clube no Cais do Sodré em Lisboa, onde por vezes partilha a cabine com Mário Valente. Se estamos à procura de um purista do vinil, ele é a pessoa com quem devemos falar.

A mania do vinil

Mário Valente lembra-se que o primeiro disco que comprou, juntando as mesadas que recebia da família, "foi o Thriller do Michael Jackson, poucos dias depois da estreia do "teledisco" (assim se dizia) na televisão. Deve ter custado por volta dos 300-400 escudos, que era o preço normal de um LP nessa altura, 1983." Desde então, sempre ouviu um pouco de tudo, explica, "dos nomes mais populares às coisas que descobria nos catálogos mais refundidos. Comprava os discos que conseguia, mas como o dinheiro não chegava para tudo, fazia muitas trocas de gravações em K7, muitas delas por correspondência com malta de interesses idênticos que nem conhecia pessoalmente e cujos endereços descobria nos classificados dos jornais de música."

Mário Valente no Lounge

O panorama durante a década de 80 era muito diferente do atual, lembra. "Para se ouvir um disco menos comum só havia duas opções: ou achar forma de comprá-lo ou conhecer alguém que o tivesse comprado. Se não, restava-nos ficar a olhar para as capas desses discos quando apareciam nas páginas das revistas de música e imaginar ao que soariam. E muitos discos não tinham distribuição nacional, o que dificultava ainda mais as coisas. Era preciso encomendá-los nas poucas lojas que existiam em Lisboa que trabalhavam com importação e esperar uma eternidade ou então mandar vir diretamente por correio de lojas estrangeiras que vendiam por catálogo."

Claro que na hora de escolher uma carreira, a música ainda não era uma opção. Estudou design gráfico e começou a trabalhar nessa área mas sem nunca deixar a sua paixão. Em 1994 deu os primeiros passos como DJ, tornou-se em 1999 programador e DJ residente do Lounge, neste momento tem um programa semanal na rádio Vodafone FM, o Salón Fuzz, e criou também uma editora, a Table Sports. Um dia ficou desempregado e pensou que talvez fosse capaz de viver só da música, que já tomava parte considerável do seu tempo. Ser DJ é, antes de mais, um ato de partilha: "Essa coisa de querer transmitir algo que é muito especial para nós, lançá-lo cá para fora e esperar que essa relação de amor seja recíproca, descobrir afinidades, sentirmo-nos próximos dos outros."

Pelo meio, tornou-se também um colecionador de discos. Compulsivo, compra música de variadíssimas eras, geografias e estilos. É um mundo "verdadeiramente infinito" e isso fascina-o. Quantos discos tem? "Serão alguns milhares, perto dos dez mil, talvez? Nunca me dei ao trabalho de contar, porque qualquer coleção está em constante mutação. Há sempre discos novos a entrar, da mesma forma que há outros que percebo que já não fazem sentido manter e ofereço, troco ou vendo para fazer espaço para que outro lhe possa tomar o lugar e assim vou queimando a gordura da minha coleção. O maior pesadelo do colecionador de vinil é a permanente falta de espaço..."

Mário admite que tem uma relação "absolutamente especial com o formato físico": "Sou um fetichista assumido. Não só de discos, mas de livros, de filmes em vários formatos. Gosto dos objetos, das suas formas, do design, do peso, das texturas, do cheiro dos materiais, do pó que acumulam. Tudo isso é insubstituível. Um disco, como um livro, é muito mais do que o que contém, torna-se uma memória, uma companhia." Nunca conseguiu habituar-se a ouvir música em formatos digitais, embora o faça por motivos profissionais, para ouvir e conhecer e escolher o que vai comprar. "Como DJ, já uso o formato digital em certos trabalhos por questões de conveniência - e porque o vinil pesa muito nas costas -, mas como colecionador que também sou, prefiro sempre levar os discos para os DJ sets. Senão que sentido fazia tê-los guardados em casa?"

Mário Valente não resiste a entrar numa loja de discos, uma feira ou loja de antiguidades. "Não tenho nenhuma lista de compras, até porque essa lista seria infinita, mas estou sempre a ser surpreendido com coisas que desconhecia e resolvo arriscar, especialmente se forem discos de outras épocas, baratos e em segunda mão." Mas não gosta de entrar no jogo de pagar grandes exorbitâncias por discos raros por isso tem poucos que sejam realmente valiosos, garante. Ainda assim, pode destacar um: "Um test pressing do álbum Free Pop, dos Pop Dell"Arte, oferecido pela banda. Provavelmente não será muito valioso, mas um test pressing é uma raridade imensa, e o valor sentimental neste caso é inestimável."

Uma coleção que será um museu

João Moreira dos Santos, em casa, com os seus discos e a grafonola

"Os discos salvaram-me a vida." Dita assim, a frase parece exagerada, mas João Moreira dos Santos, de 46 anos, trata de explicá-la: "Em 2011, com a crise, o país afundou-se completamente. E eu, que organizava festivais e conferências, trabalhava com o CCB, e de repente fico sem trabalho porque todo esse investimento na cultura colapsou. Tive assim um ano e meio, dois anos, muito tremidos. Em fevereiro de 2013 recebo um telefonema do João Almeida, diretor da Antena 2, que me diz: "Precisamos de uma pessoa que faça um programa de jazz mas tem de ter dois requisitos: tem de saber muito jazz e tem de ter discos." Era eu. O que me salvou foram os meus discos. Eu tenho milhares de discos que comprei ao longo dos anos. Não são muitos milhares, são quatro ou cinco mil, há quem tenha muito mais. Mas foi um investimento que fui fazendo ao longo dos anos e que me permitiu fazer o programa. O facto de ter discos foi a minha boia de salvação."

Antes de ser um fã de jazz, João Moreira dos Santos estava mais ligado ao heavy metal e chegou a ter uma banda na adolescência. Foi aos poucos que foi descobrindo o jazz de fusão, Jaco Pastorious, Chick Corea e Electric Band, Stanley Clarke, Tom Jobim, até chegar aos clássicos. Lembra-se de ver as transmissões do Cascais Jazz na RTP, com o qual descobriu músicos como John Abercombie e George Mraz, e também via o programa Som da Surpresa, de Paulo Gil. Entretanto entrou para o Hot Club para estudar contrabaixo. "E foi aí que comecei a perceber o que era isto."

Também percebeu que o seu futuro não seria numa carreira musical, mas antes na comunicação. "E foi o melhor que eu fiz porque eu teria sido um músico muito mediano, não me ia safar de certeza", comenta. Mas a paixão pela música manteve-se e rapidamente encontrou maneira de juntar as duas coisas: em 1994 começou a escrever sobre jazz para a comunicação social, produziu concertos, publicou livros, organizou exposições, tudo sobre jazz. Até à semana passada, teve patente na Biblioteca Nacional a exposição Txim, txim, txim, pó, pó, pó: 100 anos de Jazz em Portugal, praticamente só com material da sua coleção.

João não se lembra do primeiro disco de jazz que comprou, mas há de ter sido qualquer coisa entre Miles Davis e Bill Evans. Estava ainda no liceu e o mais provável é que tenha sido na loja Valentim de Carvalho do Centro Comercial de Alvalade. "Já fui obcecado. Não se consegue quatro mil discos sem uma dose de obsessão", admite. "Se descobria um músico de gostava, comprava tudo. De Miles Davis falta-me muito pouca coisa. Também de Charlie Parker, Ella Fitzgerald, Sarah Vaughn, Stan Getz." Depois, à medida que conhecia mais tornava-se mais seletivo. Tem muitos CD, que considera a forma mais prática de ouvir - "Não sou nada purista do vinil", mas, neste momento, só compra discos antigos, sobretudo 78 rotações, que são os discos anteriores ao vinil, com dez polegadas. "Ouço-os perfeitamente, tenho uma grafonola e dou à corda. O LP normal não me dá gozo, está muito banalizado."

Entre as preciosidades da sua coleção estão os mais antigos discos portugueses de jazz. "Achava-se que tinha começado tudo com o Rão Kyao em 1976 mas eu descobri que havia um disco de 57 e andei à vontade uns dez anos à procura dele. É o Domingos Vilaça, um clarinetista. Encontrei-o este ano. Um mês antes de abrir a exposição, entro num alfarrabista e está lá o primeiro disco de jazz português. Eles não sabiam o que estavam a vender. Aquilo é um disco que vale à vontade 200 euros e eu comprei por 10 euros. É um EP, tamanho single, com quatro músicas. Ninguém o conhecia."

Além dos discos que compra e daqueles que lhe oferecem para passar no programa de rádio, o Jazz a 2, João Moreira dos Santos tem recebido também várias doações, de pessoas que têm discos (e retratos, cartazes, bilhetes, de tudo um pouco) e não sabem o que lhes fazer. "A minha garagem é um museu", diz, a brincar mas com uma pontinha de verdade: o colecionador está em "avançadas negociações" com a Câmara Municipal de Cascais para fazer um "pequeno museu do jazz em Portugal". "A ideia é acolher o acervo de Duarte Mendonça (mais de 15 mil discos e milhares de revistas, filmes, etc.), que foi produtor do Estoril Jazz, Cascais Jazz, etc., e também outros acervos que me foram sendo oferecidos, bem como a minha coleção. Se isto avançar, e tudo leva a crer que sim, vamos ter um projeto muito bom e eu vou conseguir finalmente ter a garagem de volta."

Da Quântica para a passerelle

Falta de espaço para guardar discos não é problema que atormente Inês Coutinho, de 33 anos. Violet é uma das mais conhecidas DJ portuguesas, aqui e no estrangeiro, mas a sua coleção de discos resume-se a uma vintena de discos de vinil e umas prateleiras com CD, que comprou logo no início da carreira. Agora já só usa suporte digital. Em vez de ir a lojas, compra música na internet. Em vez de andar carregada com malas cheias de discos, leva uma USB. Em vez de estantes cheias de discos, tem um computador cheio de ficheiros. Em vez de pratos, usa um deck digital e o processo de mistura é bastante semelhante. "O suporte não muda nada", explica. "A música é um sítio imaterial, a parte importante dessa expressão vai ser sempre imaterial."

Inês Coutinho/ Violet é DJ mas não tem discos. Usa o formato digital.

"Nunca tive essa vontade de ter uma coleção de discos. Tenho a minha coleção no computador." Usa um programa chamado "Record Box", um software grátis da Pioneer, para organizar os ficheiros em pastas. "Posso fazer várias playlists, organizar as músicas por géneros, por vibes, por uma paleta enorme de cores com que arrumo as músicas." As vantagens são muitas: "Compro muita música que nunca saiu em vinil, se calhar metade dos meus sets são músicas que ainda nem foram prensadas, ou de amigos que fazem promos e me oferecem e se eu gostar toco. Essa é a grande vantagem de incorporar o digital. Tenho mais de 13 horas de música só em promos novas que, se não fosse o digital, nunca poderia tocar." Tem milhares de ficheiros, horas e horas de música. "E outra vantagem é que posso levar muita música, tenho sempre a coleção quase toda completa comigo."

Inês cresceu a ouvir música, sempre de diferentes géneros. Do punk rock à música de dança, do reggae à soul e ao funk. Estudou gestão mas nunca trabalhou nesta área. "Não gostei nada do curso e quando acabei senti que precisava de uma escapatória e fui para fora tentar adicionar uma nova dimensão à minha vida", conta. Foi para Brighton, teve aulas de canto, fez outros cursos ligados às artes, conheceu muitas pessoas inspiradoras, ouviu música nova. "Só lá estive um ano mas foi crucial." Tinha 21 anos e estava a começar de novo.

No regresso a Lisboa, criou, com Maria (Honey) as A.M.O.R., um projeto de hip hop e eletrónica onde se apresentou pela primeira vez como compositora e performer. Trabalhou na loja de discos Flur, escreveu para a revista Op. e começou a trabalhar como DJ. Haveria de voltar ao Reino Unido, onde viveu durante quatro anos com o seu companheiro de vida e de trabalho, o também DJ Photonz (Marco Rodrigues), e foi a partir de Londres que se afirmou no mundo da música, quer como DJ quer também com a sua música - a sua primeira malha em nome próprio é de 2010.

Desde o ano passado novamente em Portugal, Inês e Marco são os fundadores e grandes impulsionadores da Rádio Quântica, uma rádio online que é uma plataforma de liberdade para músicos e outros agentes culturais que não têm espaço nos meios convencionais. Em todo este trabalho há um lado de ativismo, assume, pela visibilidade e pela igualdade das mulheres mas também de outras minorias. Essa é uma preocupação visível naquilo que escreve e canta, seja com as A.M.O.R. ou em em nome próprio, seja na editora que acabou de criar (a Naiv), nos workshops que dá gratuitamente a outras mulheres, como forma de empowerment, ou na base de dados com todas as DJ portuguesas que está a preparar.

Ultimamente, Violet tem sido mais falada por fazer a música para os desfiles da Versace. Tudo começou em 2015, quando Donatella Versace ouviu um tema que ela fez para assinalar o Dia da Mulher: uma versão de Transition, dos Underground Resistance, com a colaboração de outras mulheres da música. Desde então, a portuguesa já trabalhou em três desfiles da marca, o último dos quais na semana passada.

Tem sido uma experiência "fascinante", mas que não ofusca os seus planos para o futuro: "Fazer as coisas o mais "eu" possível, fazer as coisas exatamente como eu quero e refletir-me no meu output artístico."

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