Jardim botânico do Palácio de Queluz distinguido com prémio Europa Nostra

Os vencedores do Grande Prémio e do Prémio Escolha do Público serão em Berlim, no dia 22 de junho

O projeto de reabilitação do jardim botânico do Palácio Nacional de Queluz, no concelho de Sintra, foi distinguido na edição deste ano do Prémio da União Europeia para o Património Cultural/Europa Nostra, anunciou hoje a organização.

Segundo um comunicado da Comissão Europeia e da Europa Nostra, a principal organização europeia do património, "os 29 vencedores de 17 países foram reconhecidos pelas suas realizações notáveis nos domínios da conservação, investigação, serviço dedicado e educação, formação e sensibilização".

De entre um total de 160 candidaturas, apresentadas por organizações e particulares de mais de 31 países europeus, foi ainda premiado um projeto num país que não integra o Programa Europa Criativa, pela conservação da Escola Grega Zografyon, em Istambul, na Turquia.

Entre as distinções estão "a reabilitação de uma igreja bizantina na Grécia - com os seus frescos únicos dos séculos VIII e IX -, que foi tornada possível graças a uma cooperação proveitosa entre organizações da Grécia e da Suíça", e "o desenvolvimento de um novo método de conservação das casas históricas da Europa", resultado da parceria entre cinco instituições de França, Itália e Polónia.

O júri premiou a conservação do sanatório do Dr. Barner, em Braunlage/Harz, e das vinhas reais de Winzerberg, em Potsdam-Sanssouci (Alemanha), da Casa de Missão de Poul Egede, na Gronelândia (Dinamarca) e os mosaicos da basílica no Mosteiro de Santa Catarina, Sinai (Egito-Grécia-Itália).

A fachada do Colégio San Ildefonso, em Alcalá de Henares (Espanha), os esboços de Espanha de Sorolla, em Valência (Espanha), a igreja bizantina de Hagia Kyriaki (Grécia), a rotunda de São Venceslau, Praga (República Checa), a fortaleza de Bac (Sérvia) e o pavilhão do Príncipe Milos no Bukovicka Spa (Sérvia) foram outras das distinções.

Os prémios de investigação foram para a tecnologia de digitalização automática e 3D da "CultLab3D" (Alemanha), o protocolo europeu em conservação preventiva EPICO, coordenado em Versalhes (França), o têxtil da Geórgia e a pesquisa e catalogação da coleção de Arte do Estado (Sérvia).

Pelo serviço dedicado ao património foram distinguidos Stéphane Bern (França) e Tone Sinding Steinsvik (Noruega), bem como organizações com atividades relacionadas com as maravilhas naturais da Bulgária, os proprietários de água de Argual e Tazacorte, nas Canárias (Espanha) e a associação Hendrick de Keyser (Holanda).

Na educação, formação e sensibilização distinguiram-se a iniciativa "Ief Postino: Bélgica e Itália conectadas por letras" (Bélgica), o Museu Alka de Sinj (Croácia), a Casa Plecnik, do reputado arquiteto de Liubliana (Eslovénia) ou o programa educacional "Cultura Leap" (Finlândia).

Os programas de Educação e Formação para Conservadores, do Instituto Nacional do Património Cultural (França), e de Património 'Minecraft' do GeoFort (Holanda) também foram reconhecidos pelo júri, assim como as campanhas "Monumentos Abertos" (Itália) e "Levantar da Destruição", coordenada em Roma.

"Os vencedores dos prémios são a prova viva de que o património cultural é muito mais do que a memória do passado -- constitui uma chave para a compreensão do nosso presente e um recurso para o nosso futuro", afirmou o cantor de ópera Plácido Domingo, presidente da Europa Nostra, citado no comunicado.

No Centro de Congressos de Berlim, a 22 de junho, serão anunciados os sete galardoados com o Grande Prémio, que recebem 10 mil euros cada, bem como o Prémio Escolha do Público.

"O património cultural, em todas as suas diferentes formas, é um dos bens mais preciosos da Europa. Cria pontes entre as pessoas e as comunidades, assim como entre o passado e o futuro. É fundamental para a nossa identidade enquanto europeus e tem um papel vital no desenvolvimento económico e social", salientou Tibor Navracsics, comissário europeu para a Educação, Cultura, Juventude e Desporto.

O jardim botânico do Palácio Nacional de Queluz, cuja origem remonta a cerca de 1770, foi destruído por cheias em 1983 e, após um projeto de investigação lançado em 2012, pela sociedade Parques de Sintra-Monte da Lua (PSML), reabriu depois de mais de quatro anos de trabalhos e 815 mil euros de investimento, com a reconstituição da sua coleção botânica e das estufas.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Henrique Burnay

O momento Trump de Macron

Há uns bons anos atrás, durante uns dias, a quem pesquisasse, no Yahoo ou Google, já não me lembro, por "great French military victories" era sugerido se não quereria antes dizer "great French military defeats". A brincadeira de algum hacker com sentido de ironia histórica foi mais ou menos repetida há dias, só que desta vez pelo presidente dos Estados Unidos, depois de Macron ter dito a frase mais grave que podia dizer sobre a defesa europeia. Ao contrário do hacker de há uns anos, porém, nem o presidente francês nem Donald Trump parecem ter querido fazer humor ou, mais grave, percebido a História e o presente.

Premium

Ruy Castro

Um Vinicius que você não conheceu

Foi em dezembro de 1967 ou janeiro de 1968. Toquei a campainha da casa na Gávea, bairro delicioso do Rio, onde morava Vinicius de Moraes. Vinicius, você sabe: o poeta, o compositor, o letrista, o showman, o diplomata, o boémio, o apaixonado, o homem do mundo. Ia entrevistá-lo para a Manchete, revista em que eu trabalhava. Um empregado me conduziu à sala e mandou esperar. De repente, passaram por mim, vindas lá de dentro, duas estagiárias de jornal ou, talvez, estudantes de jornalismo - lindas de morrer, usando perturbadoras minissaias (era a moda na época), sobraçando livros ou um caderno de anotações, rindo muito, e foram embora. E só então Vinicius apareceu e me disse olá. Vestia a sua tradicional camisa preta, existencialista, de malha, arregaçada nos cotovelos, a calça cor de gelo, os sapatos sem meias - e cheirava a talco ou sabonete, como se tivesse acabado de sair do banho.

Premium

Maria do Rosário Pedreira

Dispensar o real

A minha mãe levou muito a sério aquele slogan dos anos 1970 que há quem atribua a Alexandre O'Neill - "Há sempre um Portugal desconhecido que espera por si" - e todos os domingos nos metia no carro para conhecermos o país, visitando igrejas, monumentos, jardins e museus e brindando-nos no final com um lanche em que provávamos a doçaria típica da região (cavacas nas Caldas, pastéis em Tentúgal). Conheci Santarém muito antes de ser a "Capital do Gótico" e a Capela dos Ossos foi o meu primeiro filme de terror.

Premium

Adriano Moreira

Entre a arrogância e o risco

Quando foi assinada a paz, pondo fim à guerra de 1914-1918, consta que um general do Estado-Maior Alemão terá dito que não se tratava de um tratado de paz mas sim de um armistício para 20 anos. Dito ou criado pelo comentarismo que rodeia sempre acontecimentos desta natureza, o facto é que 20 anos depois tivemos a guerra de 1939-1945. O infeliz Stefan Zweig, que pareceu antever a crise de que o Brasil parece decidido a ensaiar um remédio mal explicado para aquela em que se encontra, escreveu no seu diário, em 3 de setembro de 1939, que a nova guerra seria "mil vezes pior do que em 1914".

Premium

António Araújo

Virgínia, a primeira jornalista portuguesa

Estranha-se o seu esquecimento. É que ela foi, sem tirar nem pôr, a primeira jornalista portuguesa, a primeira mulher que exerceu a profissão de repórter nos moldes que hoje conhecemos. Tem o seu nome nas ruas de algumas localidades (em Lisboa, no bairro de Caselas), mas, segundo sei, não é sequer recordada pela toponímia da sua terra natal, Elvas, onde veio ao mundo às cinco da madrugada do dia 28 de Dezembro de 1882. Seu pai era oficial de Cavalaria, sua mãe doméstica (e também natural de Elvas), seus irmãos militares de fortes convicções republicanas; um deles, Carlos Alberto, chegou a estar na Rotunda em Outubro de 1910 e a combater as tropas de Couceiro por bandas de Trás-os-Montes.

Premium

Marisa Matias

É ouro, senhores

Chegar à União Europeia não é igual para toda a gente, já se sabe. Em vários países da União Europeia - treze mais em concreto - ter dinheiro é condição de porta aberta. Já se o assunto for fugir à morte ou procurar trabalho, a conversa é bem diferente. O caso a que me refiro é o dos vistos gold. Portugal integra a lista de países com práticas mais questionáveis a este respeito. Não sou eu quem o diz, os dados vêm do Consórcio Global Anticorrupção e da Transparency International.

Premium

Germano Almeida

Parlamentares

A notícia segundo a qual dois deputados nacionais ultrapassaram a fase dos insultos verbais e entraram em desforço físico junto ou dentro do edifício do Parlamento correu as ilhas e também pelo menos a parte da diáspora onde chegam as nossas emissões, porque não só a Rádio Nacional proporcionou ao facto abundante cobertura, como também a televisão lhe dedicou largos 22 minutos de tempo de antena, ouvindo não só os contendores como também as eventuais testemunhas da lide, e por fim um jurista, que, de código em punho, esmiuçou a diferença entre uma briga e uma agressão pura e simples, para concluir que no caso em apreço mais parecia ter havido uma agressão de um deputado a outro, na medida em que tudo levava a crer ter havido um único murro. Porém, tão bem aplicado e com tanta ciência, que não houve mais nada a fazer senão conduzir o espancado ao hospital para os devidos curativos. E para comprovar a veracidade do incidente mostrou, junto a uma parede, uma mancha de sangue que por sinal mais fazia lembrar o local onde uma galinha poderia ter sido decapitada.

Premium

Viriato Soromenho Marques

Desta vez Trump tem razão

A construção de uma Europa unida como espaço de paz, liberdade, justiça e prosperidade sustentável foi o maior projeto político da geração a que pertenço. É impossível não confessar a imensa tristeza que me invade ao observar mês após mês, ano após ano, como se caminha para aquele grau de exaustão e fadiga que faz pressentir a dissolução final. O que une, hoje, a Europa é a mais elementar pulsão de vida, o instinto de autossobrevivência. Não dos seus governantes, mas dos seus mais humildes cidadãos. O tumultuoso Brexit mostra bem como é difícil, mesmo para um grande país com soberania monetária, descoser as malhas urdidas ao longo de tantas décadas. Agora imagine-se a tragédia que seria o colapso da união monetária para os 19 países que dela participam. A zona euro sofreria um empobrecimento e uma destruição de riqueza exponenciais, como se uma guerra invisível, sem mortos nem ruínas, nos tivesse atingido. Estamos nisto há dez anos. Os atos políticos levados a cabo desde 2008, nada mudaram na gravidade dos problemas, apenas adiaram o desfecho previsível. Existe uma alternativa minimalista ao colapso. Implicaria uma negociação realista baseada nos interesses materiais concretos dos Estados, como aqueles casais que coabitam, mesmo depois do divórcio, para nenhum deles ter de ir morar na rua. A prioridade seria uma mudança das regras absurdas do tratado orçamental, que transformam, por exemplo, os 2,8% da derrapagem orçamental francesa prevista para 2019 numa coisa esplêndida, e os 2,4% solicitados pelo governo de Roma num pecado mortal! Contudo, os mesmos patéticos dirigentes políticos dos grandes países europeus que economizaram nos atos potencialmente redentores do projeto europeu, não nos poupam à sua retórica. A evocação do primeiro centenário do fim da I Guerra Mundial ultrapassou os limites do aceitável.