Persistir, resistir e acreditar no seu trabalho criativo

Como criadora ou intérprete, Maurícia | Neves usa as ferramentas da performance, da dança, do teatro e do canto lírico para afirmar uma visão guiada pela determinação.

O nome artístico dela é todo um programa de vida: Maurícia | Neves (Maurícia Barreira Neves), artista plural com trabalho apresentado desde 2009 e uma história de tenacidade para contar. Dos múltiplos talentos que tem, a capacidade de trabalho é dos que cimentam tudo, a de acreditar na sua própria qualidade é das que a puxam para o futuro.

"Se és um criador, tens de acreditar, principalmente se és um criador emergente. Quando acreditei que podia, pude mesmo." Nasceu em 1989, em Portimão, cantou no coro da igreja, estudou Ação Social, aos 18 anos trocou o Sul por Lisboa. "Não tinha formação clássica e ainda por cima tinha dislexia corporal. Só à terceira tentativa entrei na escola do Chapitô e aconteceu-me o mesmo na Escola Superior de Dança." Persistir, resistir, é algo que faz com regularidade. Emagreceu 12 quilos para entrar na escola de circo, fez o curso intensivo de atores ao mesmo tempo que cursava dança, e ainda teve aulas privadas de canto lírico. "Nos dois cursos levei muita tareia", conta, juntando uma gargalhada. "Na Escola Superior de Dança diziam-me, no primeiro ano, que o que eu fazia não era dança. No segundo ano, todos foram ao palco menos eu. No terceiro, tive a melhor nota a Criação."

Resistam-lhe e ela regressa com mais força. "Tenho muita vontade. E sou de fazer, de concretizar." Quando, integrada no projeto de Jonas&Lander, participou na PT13 - Plataforma Portuguesa de Artes Performativas (acontecimento bienal que reúne o mais incisivo da criação nacional no Espaço do Tempo, em Montemor-o-Novo), lembra-se de ter prometido a si própria "trabalhar para atingir a qualidade destes espetáculos e apresentar o meu trabalho aqui". Quatro anos depois estava numa residência de criação no Espaço do Tempo com António Torres e Bárbara Carlos, a porem de pé We are NOT so pretentious, reflexão hiperfísica e barroca sobre o catolicismo, a pornografia e o fitness. A peça fez parte do programa paralelo da PT17, desenhado para mostrar criadores emergentes ou em novos caminhos aos programadores convidados.

"Tenho tendência a pensar o espetáculo no seu todo, crio de forma plástica, penso em quadros que dizem coisas. Tem que ver com a minha natureza e, claro, com a minha formação. Tenho ferramentas de muitos sítios, da performance, do teatro, da dança, e posso usar o corpo e a voz em palco, além da cabeça claro. Sou uma organizadora de ideias, gosto de criar dentro de uma área social e política", resume.

Vê a criação como necessidade absoluta, a precisar de chão estável para se desenvolver. "Sou fã da sustentabilidade artística, da troca. Fiz curadoria artística numa mercearia em São Bento, por exemplo: organizava exposições e concertos e recebia em géneros alimentares." Cita João dos Santos Martins, Lander Patrick ou Jonas Lopes para explicar que "há uma geração que tem muita força e se entusiasma entre si, que cria condições para trabalhar - partilhando meios, claro, mas também conhecimento, reflexão".

E algumas condições decisivas: "Eu nunca tive financiamento para criar mas tive apoios de estruturas financiadas como a Eira, o alkantara, o Espaço do Tempo, o Teatro de Portimão - que fazem esse serviço com os criadores emergentes, os que estão a experimentar, a falhar. Mas é sempre uma luta. Adorava saber como é fazer uma criação com financiamento. Até para perceber quais são as minhas limitações criativas - até agora são sempre as limitações financeiras que me fazem parar."

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