Os sonhos do mundo todo estão no palco do Teatro da Trindade

Espetáculo Todo o Mundo é um Palco, encenado por Beatriz Batarda e Marco Martins, junta 19 intérpretes com diferentes origens e idiomas numa homenagem ao teatro e à cidade

Haitham Khatib tem 46 anos, é sírio e veio para Lisboa há mais de um ano. "Não tenho filhos, não tenho mulher, não tenho trabalho, não tenho nada." Agora é apenas um papel, um número, mas antes era criador. Fazia teatro de sombras. Quando entrou neste projeto, Haitham procurava "criar algo muito belo" que o fizesse esquecer todas as coisas horríveis que viveu. A guerra, o medo, as mortes, a fuga. Haitham conta a sua história em sírio, isolado na frente do palco, enquanto o ator Miguel Borges vai traduzindo as suas palavras para português. Até que, progressivamente, a tradução passa a ser uma conversa, porque há coisas que não precisam de tradução para que sejam entendidas, e há palavras que têm de ser ditas.

Haitham é um dos 19 intérpretes de Todo o Mundo é um Palco, o espetáculo com que o Teatro da Trindade assinala os seus 150 anos. A partir do convite da então diretora do Trindade, Inês de Medeiros, os encenadores Beatriz Batarda e Marco Martins (do coletivo Arena Ensemble), com a colaboração do coreógrafo Victor Hugo Pontes, trabalharam sobre a ideia de este ser um teatro no centro da cidade. "Achámos que talvez fosse mais pertinente olhar para o presente e para o futuro em vez de olhar para o passado num tom museológico, nostálgico, uma vez que este é um teatro vivo", explica Beatriz Batarda. Começaram a olhar à volta, para o público, a "outra metade" que faz o teatro, e decidiram trazer o público da plateia para o palco.

Foi assim, pelas ruas de Lisboa, que desafiaram 180 pessoas a fazer um casting em vídeo e, dessas, escolheram 25 para participar em ações de formação de música, movimento e teatro. "A nossa ideia era, no final, convidar dez para integrar o elenco e para se juntarem aos atores Carolina Amaral e Miguel Borges e ao bailarino Romeu Runa. Mas, quando chegámos ao final da formação, não conseguimos partir o grupo. Foram três meses de trabalho muito honesto, muito intenso, amoroso, com uma troca muito genuína de experiências de vida, houve uma entrega muito grande por parte de toda a gente. Demos uma grande volta ao projeto (e ao orçamento) e propusemos que integrassem todos o elenco."

Neste processo aconteceu uma surpresa e uma certeza. A certeza foi que, desde muito cedo, se percebeu que seria interessante basear o trabalho na biografia e nas histórias dos participantes. A surpresa foi ver que este grupo de "lisboetas" era, afinal, muito pouco lisboeta. "Tínhamos selecionado outras pessoas nascidas em Lisboa mas acabaram por desistir", explica Beatriz Batarda. Talvez pelo facto de o projeto exigir uma disponibilidade grande ao longo de mais de seis meses, acabaram por ficar pessoas com empregos mais flexíveis ou vidas menos estruturadas. Com algum desenraizamento. Provando que, como disse Shakespeare e como diz o título do espetáculo, Todo o Mundo é um Palco, o grupo inclui pessoas nascidas em Portugal mas também na Alemanha, em França, em São Tomé, no Brasil, na Argélia, no Bangladesh, noutros locais. A multiplicidade de línguas, de culturas, de experiências exigiu mecanismos de tradução que possibilitassem o trabalho e que acabaram por passar para o palco. "No início, todo o espetáculo é traduzido, gradualmente vai sendo interpretado, até chegar à apropriação que no fundo é o caminho que o teatro faz a vida das pessoas e da história da humanidade, tornando-a um objeto artístico", explica Beatriz Batarda.

Cada um conta a sua história. Laure Cohen-Solal, de 45 anos, é francesa mas foi em Londres que conheceu o namorado português com quem se mudou para Lisboa há um ano. Bruno Massy, de 60 anos, veio de França para Portugal há 28 anos sem planos. Aline Camargo, de 32 anos, veio do Brasil com o marido, Dewis Caldas, há três anos para fazerem juntos um documentário sobre o cavaquinho e entretanto foram ficando e até já tiveram uma filha. Malena tinha 5 meses quando foi com os pais à audição e irá completar 1 ano de vida depois de se fechar o pano. Nestes meses, aprendeu a sentar-se sozinha e a gatinhar, passou por todos os colos, ouviu línguas muito diferentes. Esteve em todo os ensaios, está muitas vezes no palco, outras vezes fica a dormir na sua caminha. Aline sabia que esta seria uma oportunidade para conhecer muitas pessoas, mas o seu verdadeiro sonho era ficar "90 segundos sozinha em palco". E repete: "Sozinha."

Cada um trouxe o seu sonho. Mick Mengucci, o "gigante" italiano, de 48 anos, veio para Portugal há 21 anos para terminar os estudos em Engenharia de Minas e entretanto começou a dedicar-se à música. "O meu sonho é que a música salve o planeta", diz. "Pode parecer um pouco naïf mas acredito que tudo pode ser melhorado com a música, incluindo estes bichinhos que são os seres humanos." Safira Robens, de 23 anos, a enérgica alemã filha de mãe portuguesa de Angola, gosta de cantar fado e de dançar flamenco. Miguel Borges, português, de 51 anos, só deseja "aprender a ficar parado". Mas também há sonhos mais irrealizáveis. Como o do santomense Pascoal Silva, de 51 anos, que chegou a Lisboa há 44 anos de barco. Hoje em dia é músico mas ganha "o pão" na construção civil. Sonha "viver a vida toda".

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