O cantor que teve uma "amitié amoureuse" com Amália

Charles Aznavour atua no sábado no Meo Arena, em Lisboa

Charles Aznavour foi adotado por Édith Piaf, em cuja casa animadíssima viveu. A fadista portuguesa foi uma amizade imediata e duradoura.

Nasceu com o apelido "impronunciável" Aznavourian e abreviou-o tirando-lhe três letras. Também tirou um bocadinho do nariz, demasiado volumoso para um artista tão baixinho. Foi contemporâneo nos palcos de Maurice Chevalier e Charles Trenet, já consagrados quando ele começava, e de Yves Montand, Jacques Brel, Georges Brassens. Casado com Ulla há 50 anos, teve muitas outras mulheres antes de conhecê-la. Édith Piaf fez dele o seu protegido, com Amália teve uma amizade amorosa, com Liza Minnelli uma amizade enorme. E a irmã, Aïda, foi a grande cúmplice de toda a vida.

Aos 89 anos tinha perguntas sobre o futuro - "terei ainda durante muito tempo força para me aguentar em palco?". Publicou mais um livro de memórias e reflexões, Tant que battra mon coeur (Enquanto o meu coração bater). As hesitações não o tomaram por mais do que trinta linhas de texto: grandes projetos para o futuro, incluindo um musical na Broadway sobre Toulouse-Lautrec. Passados três anos, aqui está ele a chegar a Lisboa para um concerto no Meo Arena no próximo sábado. Na mala vêm mais de 60 anos de canções mundialmente conhecidas, de La Boème a Et Pourtant ou Hier Encore.

Em 1993, escreveu um livro de memórias, Le temps des avants, onde conta a vida desde as origens. Não foi simples: queria cantar e aconselharam-no a desistir, não tinha nem voz nem físico para subir a um palco. Também o desencorajaram de escrever e compor canções, achavam-no "primário".

A carreira foi arrancada a ferros, cigarra trabalhadora naqueles primeiros anos de pobreza. Esse caminho árduo era menos pesado do que o do pai que atravessou literalmente a pé o deserto entre Istambul e Damasco, um pobre arménio perseguido pelos curdos. Uma história de imigração como milhões de outras que hoje estão a acontecer, nas quais ele reconhece o passado familiar. Um genocídio que fez desaparecer 1,5 milhões de arménios e dispersou os sobreviventes pelo mundo. Em Istambul, Mischa Aznavourian e Knar Bagdassarian, embarcaram a custo num navio que uma norte-americana rica tinha pago para transportar arménios em fuga. Sairam em Salónica, onde nasceu Aïda, a primeira filha. Em Paris, esperaram um visto para seguirem para os Estados Unidos, mas quando chegou já eles se tinham afeiçoado à capital francesa, onde nasceu, a 22 de maio de 1924, um rapaz a que quiseram dar o nome "Shâhnourh", transformado em Charles pela parteira.

O povo arménio ficou sempre gravado na vida do cantor, que depois do grande terramoto de 7 de dezembro de 1988, criou a Association Aznavour pour l"Arménie.

Charles tinha uma família pequena mas excêntrica, incluindo um primo da mãe que era fakir e, como ele bon vivant. A mãe e o pai gostavam muito de teatro, cinema e música, eles próprios artistas amadores, e nisso gastavam tudo o que a mãe conseguia poupar, costureira pela noite dentro, a compensar a falta de jeito do marido para os negócios.

Aïda e Charles tiveram curta vida escolar, mas por sorte moraram perto de uma escola de artistas que organizava temporadas em zonas balneares. Enquanto a irmã se destacava na música, Charles fazia de tudo, não apenas para ganhar dinheiro mas sobretudo para estar naquele universo. Estreou-se em palco a dançar músicas tradicionais do Cáucaso no dia 21 de dezembro de 1933, há 83 anos.

Muita água passou pelas pontes do Sena até que, com Paris ocupada pelos alemães, Aznavour se juntou a Pierre Roche, numa dupla que criava canções para outros. Um dia, a apresentadora de um espetáculo devia anunciar apenas Pierre mas chamou por engano Charles. Foi um êxito tal que passaram a partilhar o palco.

O primeiro grande concerto a solo foi na sala Alhambra, em Paris. Depois de fracos aplausos à entrada, ele ficou siderado diante do total silêncio após a última canção. Foram alguns segundos até que a sala o aplaudiu longamente de pé.

Entretanto, já ele e Pierre tinham percorrido muitos países, reconhecidos com calor no Canadá francófono. E já Charles tinha sido acolhido por Édith Piaf que lhe ofereceu casa e proteção, sempre apaixonada por outros homens e sempre furiosa com as namoradas que ele arranjava.

E agora falemos de Amália. Charles conta que numa noite, chegou ao casino de Knokke-le-Zoute, a grande praia dos belgas, um pouco antes da sua hora de cantar e deparou com a fadista no palco. "Uma cantora de fado única, dotada de uma personalidade espantosa, muito diferente de Édith e tão próxima na forma de surpreender e acarinhar o público. Embora cantasse numa língua estrangeira que não compreendíamos, estávamos todos envolvidos no charme dela."

Depois o dono do casino convidou os dois para jantar e "houve magia". Amália voltou ao casino para ouvi-lo e jantaram num bistrot onde havia um piano: "cantámos grande parte da noite". No dia seguinte, Amália partia para um concerto no casino de Monte Carlo. "A separação foi difícil", mas para não nos perdermos de vista, pedi-lhe que fizesse a primeira parte do meu espetáculo no Palácio de Inverno em Lyon". Haviam de cantar juntos em Lisboa.

Amália pediu-lhe uma canção, ele escreveu Ai, morrer por ti, uma letra apaixonada que ela gravou num disco em francês. Ficaram amigos até à morte dela, em 1999. Semanas antes, jantaram juntos: "Falámos de tudo, de nada, de fados, do passado, da amitié amoureuse que partilhámos".

Liza Minnelli tem também um lugar especial na vida de Aznavour. Encantou-o quando ele assistiu a Um Violino no Telhado na Broadway. Comme ils disent ou, na versão em inglês que tanto ele como ela cantaram, What makes a man, foi a grande partilha dos dois, uma letra de choque editada em 1970, no pós maio 68: um hino à homossexualidade.

Aos 92 anos, ele anda pelo mundo a cantar. Como ele diz, Il faut savoir.

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