O editor José da Cruz Santos considera que "só há duas maneiras de fazer poesia: inventa-se uma linguagem ou diz-se o mesmo de forma mais perfeita". Por essa razão, considera que "na última década nada surgiu de importante" neste género literário e não lhe falta experiência para o poder afirmar, afinal anda na edição há quase 60 anos. Uma data que merece uma antecipação da celebração que se oferece a si próprio com uma superedição de dois volumes que somam mais de 1200 páginas, intitulados Os Mais Belos Poemas Portugueses Escolhidos por Vinte e Cinco Poetas. Para trás ficam mais de 360 livros de poesia que editou, o que lhe dá o estatuto de mais obras publicadas sob sua responsabilidade, tanto assim que desta vez fez questão de "pôr o melhor"..Não foi fácil chegar ao fim desta aventura poética em dois volumes, mesmo que achasse que poderiam existir mais dois ou três para registar o melhor que os poetas portugueses produziram ao longo da nossa história da literatura, mas o objetivo era fazer "a melhor antologia de poesia portuguesa já publicada". Justifica: "É a primeira vez na minha vida que digo isto e são 60 anos de edição com várias coisas que considero interessantes..." O primeiro livro que idealizou data de 1958: "Era um livro de Alfredo Margarido, Poema para Uma Bailarina Negra, com desenhos de António Areal.".Os dois volumes de Os Mais Belos Poemas Portugueses é o mais recente projeto que finalizou: "Queria concretizá-lo para comemorar os 50 anos da [editora] Inova mas acabou por deslizar e coincidir com os 60 anos de editor que faço para o ano." Não foi fácil levar até ao fim este projeto, daí que diga: "Vários dos que participam já morreram, porque o processo arrastou-se durante muito tempo.".Vamos à história destes dois livros, segundo o relato do editor José da Cruz Santos: "Nasce de querer fazer um álbum com as 25 obras-primas da poesia e 25 da pintura. Pedi a 25 poetas que escolhessem os 25 melhores poemas e a igual número de pintores as mais importantes da sua área. Quando começaram a chegar as respostas dos poetas, dei-me conta de que alguns poemas extraordinários não iam entrar porque não tinham votação necessária. Então publiquei esse livro, mas ganhei vontade de editar todos os outros poemas que considerava fundamentais.".Era o caso, diz, do poema de Camilo Pessanha, "Floriram por Engano as Rosas Bravas". Houve ainda um percalço na escolha desses poemas: "O 25.º era do Herberto Helder, mas ele não autorizou. Ficou em sua substituição "Sextina", de Bernardim Ribeiro, sobre o qual Vasco Graça Moura até disse que os leitores não ficaram a perder por ser excecional.".Foi então que José da Cruz Santos decidiu avançar para o passo seguinte: "Pedi a esses 25 poetas que escolhessem cada um os melhores 25 poemas na sua opinião e é desta segunda fase que surgem estes dois volumes, que só não somam 625 poemas porque havia repetições, mas mesmo assim totaliza 404 poemas." As duas centenas de repetições, explica, "devem-se à existência de poemas que são incontroversos e todos votaram neles". Em seguida, foi o tempo necessário para organizar a edição, obter autorizações de publicação e, alerta, "como tenho uma editora pequena, foi preciso arranjar fundos para fazer uma edição tão cara". Assim, só agora chegou o tempo de a editar: "Calhou quando estou a despedir-me da atividade editorial. Mas tinha de ser eu a fazer esta edição dadas as circunstâncias em que nasceu.".O único lamento que tem perante estes dois volumes é o facto de muitos dos poetas que colaboraram já terem morrido. Ou a ausência de António Ramos Rosa entre os que fizeram as escolhas por razão que não recorda, bem como da inexistência de um poema de Veiga Leitão, o "nome mais importante da poesia da resistência"..Também existem faltas deliberadas, como a de revelar quem escolheu quem: "Não o quis fazer para evitar criar problemas. Por exemplo, Egito Gonçalves (1920--2001) só tem um poema e teria ficado zangado ao ver que os amigos pouco tinham indicado dele. Outro seria o Eugénio de Andrade, ao ver que alguns amigos não o escolheram, mesmo que seja dos mais bem representados.".Lançados estes dois volumes, Cruz Santos já está na reta final para editar a antologia no ano em que cumprirá 60 de edição. Trata-se de um álbum que reúne o melhor da pintura por José-Augusto França e da poesia por Eduardo Lourenço: "O primeiro escolhe 21 artistas e o segundo 21 poemas." Esse será um volume polémico, pois Lourenço elege apenas 12 poetas: "Se não escolheu outros foi porque achou que era assim mesmo e não pareceu preocupado com os que deixou de fora. Curiosamente, inclui Teixeira de Pascoaes e faz um texto admirável de introdução.".Outros livros de poesia.Um fim de ano com muita poesia, reedições que já faziam falta e grandes antologias de poetas portugueses fundamentais do século XX..É difícil escolher um entre os muitos livros de poesia que foram editados após a rentrée literária, pois não faltam antologias e inéditos de muita importância. Duas coletâneas destacam-se no caso das antologias - sem esquecer a de Alexandre O"Neill, Poesias Completas & Dispersos (de abril): as de Mário Cesariny e de Eugénio de Andrade. Mais de 1400 páginas de duas obras fundamentais na poesia portuguesa do século XX, apesar de tão diversas na sua irreverência ou quase ortodoxia..Quanto a inéditos, o ano foi razoável - 2016 teve mais lançamentos - e as gerações menos antigas tiveram oportunidade de apresentar a sua produção. É o caso de Daniel Jonas, que volta ao soneto num livro indispensável, considerado "desconcertante e surpreendente"..No que respeita a outras antologias, o destaque vai para Nada Tem já Encanto, de Rui Knopfli, uma série de poemas escolhidos que já faziam falta. De forma mais abrangente, surgiram outras antologias que abordam poesia em muito desconhecida dos leitores. É o caso da Antologia de Poesia Erótica Brasileira, que reúne exemplos do que se faz naquele país, mesmo que a vulgaridade impere por algumas vezes. Coletânea que faz lembrar a Antologia de Poesia Erótica de Bocage, numa edição coordenada por Fernando Pinto do Amaral, volume já necessário. Outra seleção muito importante é a reedição de Poemas Escolhidos de W.B. Yeats, tal como a de John Doone, Poemas. Outra antologia que marca o fim de ano é a coordenada por José Mário Silva, intitulada Os Cem Melhores Poemas Portugueses dos Últimos Cem Anos, que tem o benefício de incluir vários nomes das novas gerações. Já a fechar o ano, surgem O Nome dos Poemas, uma coleção de 53 retratos poéticos de figuras públicas de autoria de Soledade Martinho Costa, e Êxodo, de Susana Martins, que questiona o leitor de modo poético sobre o presente.