Germano Almeida faz regressar Prémio Camões a África

O mais importante prémio literário da língua portuguesa coube ao escritor cabo-verdiano Germano Almeida, dono de uma obra iniciada em 1982 e traduzida em vários países.

A obra do escritor Germano Almeida contrariou ontem o equilíbrio luso-brasileiro das últimas quatro edições do Prémio Camões. Afinal, desta vez, à 30.ª edição, o prato da balança voltou a pender para a língua portuguesa escrita nos países de África e a literatura de Cabo Verde reuniu o consenso de um júri cujos trabalhos foram assumidamente pacíficos e que desde o início estiveram em quase harmonia no que respeita ao eleito.

Mesmo assim, com a rotação habitual do prémio entre os três cantos da presença lusófona no mundo, ainda não foi desta que o quarto canto foi abençoado: Timor-Leste. O DN sabe que houve um sopro inicial a favor de uma hipótese para o timorense Luís Cardoso poder entrar no debate, mas este esfumou-se rapidamente. Também a literatura de São Tomé e Príncipe continua por mais uma edição sem nunca ter recebido este prémio.

O anúncio feito ontem pelo ministro da Cultura, Luís Filipe Castro Mendes, de ser um autor africano o vencedor não surpreendeu completamente, pois a rotatividade entre o triângulo habitual já estava a causar melindres. Desde 2013 que o prémio fugia àquelas literaturas e, depois de Mia Couto, o nome de Germano Almeida era um dos favoritos. Uma rotatividade que foi quebrada pela primeira vez em 1994, quando Jorge Amado venceu após Rachel de Queiroz, repetindo-se em 1995 e 1996 com Portugal, através de José Saramago e Eduardo Lourenço, até Pepetela repor a repartição mais consensual do Camões.

Leia AQUI a entrevista que Germano Almeida concedeu ao DN na altura do lançamento do livro Do Monte Cara Vê-se o Mundo

Quanto ao facto de Timor e São Tomé e Príncipe estarem arredados das decisões favoráveis do júri, o presidente do júri considera que no futuro será outra a situação. "Existe um grande escritor que mais cedo ou mais tarde será contemplado, mas como ainda é jovem tem tempo", ao referir o primeiro caso, quanto ao segundo acha que "não existe a imposição de ser um ou outro país".

Um filme evocou a lista de 29 premiados anteriores, podendo ouvir-se vozes já pouco reconhecíveis: Miguel Torga e Sophia de Mello Breyner, por exemplo. Ou a do poeta Eugénio de Andrade (2001), que chamava a atenção para o facto de a poesia ser a voz mais portuguesa. Também desfilaram governantes da época, Collor de Melo e Fernando Henrique Cardoso, ou Mário Soares e Jorge Sampaio.

Coube ao ministro português abrir a sessão e revelar o nome de Germano Almeida. Seguiu-se uma salva de palmas geral, com particular intensidade por parte de um outro ministro da Cultura, o de Cabo Verde, Abraão Vicente. Uma presença que Castro Mendes esclareceu ser uma "coincidência feliz que nada teve que ver com o facto", após o que expôs com sinceridade a sua alegria em relação ao vencedor: "É uma obra interessante e com uma grande originalidade na língua portuguesa devido ao auto-humor que contém." Acrescentou que o autor cabo-verdiano "sabe rir-se de si e do mundo e, nesse sentido, apresenta uma visão muito irónica, que sem ser violenta é crítica". Em poucas palavras resumiu a sua opinião sobre a ficção de Germano Almeida: "É um escritor muito divertido."

O presidente do júri, José Luís Jobim, leu a ata da reunião que consagrou Germano Almeida e explicou a razão da escolha: "Deliberou conceder por unanimidade o Prémio Camões ao autor cabo-verdiano Germano Almeida pela riqueza de uma obra onde se equilibram a memória, o testemunho e a imaginação; a inventividade narrativa alia-se ao virtuosismo da ironia no exercício da liberdade, de ética e de crítica, conjugando a experiência insular e da diáspora cabo-verdiana. A obra atinge uma universalidade exemplar no respeito à plasticidade da língua portuguesa." O presidente do júri também confirmou que o veredicto não foi difícil: "É um autor sedimentado, tem tempo de carreira, é reconhecido na comunidade de língua portuguesa e não apenas um autor representativo de Cabo Verde. Germano Almeida lida com questões universais a partir da própria experiência do quotidiano das ilhas. Por isso, não foi uma decisão problemática. Não publicando todos os anos, pode dizer-se que nem sempre quem publica muito é quem publica melhor e introduziu na literatura cabo-verdiana um tom menos solene e mais perto da vida das pessoas."

O percurso literário de Germano Almeida tem início na década de 1980 ao colaborar na revista Ponto & Vírgula, seguindo-se uma afirmação no seu país e posterior internacionalização da obra em vários países. Foi disso que deu conta o ministro Abraão Vicente: "É uma consagração justíssima de Germano Almeida, que tem um novo olhar sobre Cabo Verde e as pequenas coisas que acontecem no país. Se a Geração Claridosa introduziu certas nuances do crioulo na nossa literatura, ele vai mais além ao aprofundar um olhar sobre o microcosmos da sua ilha, introduzir o humor através do quotidiano do Mindelo e, principalmente, coloca-nos na nova narrativa contemporânea."

Germano Almeida nasceu na ilha da Boa Vista em 1945. Estudou Direito na Universidade de Lisboa e exerce advocacia na ilha de São Vicente. Além de ter sido eleito deputado pelo Movimento para a Democracia de Cabo Verde, esteve no cargo de procurador-geral da República. A sua obra é publicada em Portugal pela Editorial Caminho. O seu último livro intitula-se O Fiel Defunto e é deste ano, uma carreira que se inicia em 1982 com O dia das calças roladas.

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João Gobern

País com poetas

Há muito para elogiar nos que, sem perspectivas de lucro imediato, de retorno garantido, de negócio fácil, sabem aproveitar - e reciclar - o património acumulado noutras eras. Ora, numa fase em que a Poesia se reergue, muitas vezes por vias "alternativas", de esquecimentos e atropelos, merece inteiro destaque a iniciativa da editora Valentim de Carvalho, que decidiu regressar, em edições "revistas e aumentadas", ao seu magnífico espólio de gravações de poetas. Originalmente, na colecção publicada entre 1959 e 1975, o desafio era grande - cabia aos autores a responsabilidade de dizerem as suas próprias criações, acabando por personalizá-las ainda mais, injectando sangue próprio às palavras que já antes tinham posto ao nosso dispor.