"Fernão Mendes Pinto foi um super-herói"

O realizador fala do seu mais recente trabalho, um novo mergulho num clássico da literatura portuguesa.

Há aqui um conceito nesta sua adaptação de Peregrinação, de Fernão Mendes Pinto, de propositadamente haver uma fragmentação, não é assim?

Sim, quis fazer um filme fragmentado, mas que tivesse uma coerência, que fosse, ao mesmo tempo, fluido. Gosto do que o Godard dizia, pôr tudo num filme, mas tem de haver coerência. A fotografia, a sujidade que vemos... são coerentes. Mesmo as canções fazem parte da mesma narrativa. Depois tive sorte com uma ideia do Aquilino Ribeiro de criar um heterónimo com o António Faria, que era um gajo que existiu mesmo. O Fernão Mendes Pinta conhecia-o e ficou fácil criar o mal nele, sobretudo na segunda parte, quando se torna mau. O Fernão narra-o através dele, ficando de fora. Isso foi o que o Aquilino me ensinou para o cinema e é maravilhoso.

Através dos músicos Daniel Bernardes e Luís Bragança Gil o João pensou literalmente numa ideia de adaptação do disco de Fausto, Por Este Rio Acima...

Pois, o disco do Fausto é um tratado da música portuguesa! O problema para nós é que ele fez aquilo para a época, os anos 1980, ou seja, brincou com as chulas, os viras, os fados, etc. Então, o Daniel e o Luís, que são bons compositores, transformaram as canções para polifonias de forma a que um coro pudesse interpretar os temas a cappella. Mas a ideia deste coro não era para criticar, é algo com fins narrativos.

Para fazer avançar a narrativa...

Sim, exato! Isto é um tratado do modo de contar.

Sei que este filme no começo era para ter um orçamento maior, sobretudo para se poder filmar cenas com os atores no Oriente. Teria ficado outro filme?

Sim, seria um outro filme, teria ficado com japoneses, chineses, etc., embora eu tenha conseguido arranjá-los aqui! Mas, sabe, eu gosto deste filme!

Não deixa de ser um épico em pequena escala...

É um épico, um épico! Este Fernão, tal como o Thor, também é um super-herói! Mesmo que seja modesto, português. E este homem morreu na miséria...Escreveu o nosso primeiro best-seller e foi traduzido para muitas línguas, mais do que o Camões!

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