"É estranho o escritor ser uma pop star neste país com tão poucos leitores"

Foi o Prémio Leya que mais emocionou os leitores ao saber-se que era um engenheiro no desemprego que decidira ser escritor. O romance, traduzido em várias línguas, até em chinês e árabe, é um dos grandes sucessos na literatura nacional. Está de regresso com um novo livro.

Até os dois filhos o pressionaram para publicar rapidamente o segundo romance, mas João Ricardo Pedro recusou alterar o ritmo de escrita em função do leitor. Coisa estranha num país onde são editados 15 mil livros por ano, sobre o que diz: "Enquanto escrevo penso que 90 e tal por cento dos livros publicados em Portugal são muito maus, o que me faz escrever sem pressa para evitar estar no meio de tanta porcaria." Também era habitual João Ricardo Pedro ouvir "quando publicares o segundo livro já ninguém se lembra de ti", mas isso não o preocupou porque "nem sabia se haveria outro livro".

Contrariamente à maioria dos autores, não tem problema em confessar que lê o que se escreve sobre o seu trabalho: "Não sou daqueles que dizem estar a marimbar-se para a crítica, a mim até a estrangeira interessa. Quero saber o que pensam." O que não aprecia é que o entrevistem sem terem lido o romance: "Não sou prima-dona, mas não gosto que façam perguntas sobre algo que desconhecem."

Após ter sido a primeira grande revelação do Prémio Leya e vendido mais exemplares do que todos os restantes autores galardoados, chega a hora de entregar o seu novo livro aos leitores. A grande pergunta em causa é: o que vale o sucessor de O Teu Rosto Será o Último?

Intitula-se Um Postal de Detroit e tem como ponto de partida uma história quase esquecida, mesmo que tenha marcado tantos leitores como a criança que o escritor era em 1985: o pior acidente ferroviário em Portugal, no qual dois comboios chocaram de frente em Alcafache. Num deles, o Sud Express, está a protagonista do romance, Marta, uma jovem em fuga da família. A partir desse início de tirar a respiração, o romance sai da estação e vai veloz até ao fim, sempre em capítulos fora dos carris, que surpreendem por fazerem lembrar a cadência veloz de narrativa a que habituara no primeiro livro.

Avise-se já que os dois livros são diferentes. O autor explica: "Não escrevi um livro a pensar nas pessoas que tinham comprado e gostado do primeiro livro." É verdade, tanto assim que se percebe que João Ricardo Pedro escolhe um caminho muito próprio para a sua carreira e que o livro não é mesmo mais do que aquilo que pretendia fazer.

Da conversa com o autor depreende-se que escreve muitas páginas para depois as reduzir a bastante menos. Só deste modo é que se entende que cada parágrafo contenha mil ideias, que se debatem umas com as outras de forma pacífica e fascinante para o leitor; ou que cada capítulo acrescente sempre profundidade à narrativa.

Se houvesse que escolher, existem três partes que demonstram bem como o escritor poderá tornar-se um caso sério na literatura nacional: o policialesco A Anatomia dos Estorninhos; o erótico Novembro, e o desportivo O Golo de Peixe e o Pé Direito de Balakov. Diga-se que é difícil destacar um entre estes capítulos devido à deriva com nexo que só este autor parece ser capaz de fazer hoje em dia.

Mesmo que o recorte das personagens nem sempre vá até mais não poder - nem é preciso -, ou que a diversidade de situações seja um cenário delirante que cativa, este Postal de Detroit é do melhor que o ano literário terá para dar. A única nota menos positiva é a ausência de um capítulo final que amarrasse toda a narrativa numa explicação a que o leitor tinha direito.

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