Criadores defendem Festival de Almada: "Não o vamos deixar morrer"

Companhia de Teatro de Almada recolhe depoimentos de figuras das artes que se manifestam perplexos perante o possível fim do festival que este ano terá a sua 35ª edição.

Os diretores dos teatros nacionais D. Maria II e São João, Tiago Rodrigues e Nuno Carinhas, o diretor da Companhia Nacional de Bailado, Paulo Ribeiro, o diretor do Teatro da Trindade, Diogo Infante, Jorge Silva Melo (Artistas Unidos), Carlos J. Pessoa (Teatro da Garagem), os programadores Miguel Abreu e Francisco Frazão, os encenadores Luís Miguel Cintra, António Pires e João Garcia Miguel, os atores Maria Rueff, João Reis e Pedro Lima, os escritores Nuno Júdice e Luísa Costa Gomes - estes são apenas alguns dos que manifestaram a sua preocupação perante o facto de o 35º Festival de Teatro de Almada poder estar em risco devido ao anunciado corte do apoio da DG-Artes à Companhia de Teatro de Almada.

A CTA concorreu ao Programa de Apoio Sustentado, na área de Teatro, tendo ficado entre as quatro entidades melhor classificadas, nos resultados provisórios, com um apoio global previsto de 1,248 milhões de euros, de 2018 a 2021, com valores anuais a atribuir entre os 289 mil e os 319 mil euros, para um montante global solicitado de quase 1,6 milhões de euros, repartidos por financiamentos anuais próximos de 400 mil euros.

Assim que soube destes resultados a companhia manifestou a sua surpresa perante o corte de 25% - ou seja, de 110 mil euros por ano - no apoio proposto pela DG-Artes, afirmando que este corte poderia mesmo pôr em causa a realização da 35º edição do festival previsto para julho.

Perante esta situação, a companhia, fundada por Joaquim Benite e atualmente dirigida por Rodrigo Francisco, preparou-se para contestar a avaliação do júri e o montante que lhe foi atribuído, entregando à DG-Artes vasta documentação, entre a qual uma série de depoimentos criadores, críticos de teatro, elementos de companhias e festivais estrangeiros, figuras políticas e outras "que manifestaram a sua estupefacção, indignação - e esperança que (...) o Festival de Teatro de Almada tenha o apoio que merece", explica a CTA em comunicado.

São esses depoimentos que agora são tornados públicos, no momento em que estreia a sua nova produção, Morte de um caixeiro viajante, de Arthur Miller, com encenação de Carlos Pimenta.

"Não é possível que o Festival de Almada não volte a acontecer", diz o bailarino e coreógrafo Paulo Ribeiro. Tiago Rodrigues, diretor do Teatro Nacional D. Maria II, considera-o "o maior e mais importante festival internacional de teatro do nosso país".

A atriz Maria Rueff diz que se trata de uma "janela aberta para o que de melhor se faz no mundo, no Teatro". E pede: "Que não seja agora, quando o mundo se abre para Portugal, que se feche a janela que sempre serviu todas as margens aos que não tiveram nem têm forma de combater o seu isolamento cultural."

Ao fim destes 34 anos, escreve o arquiteto Manuel Graça Dias, o Festival de Almada "criou públicos, viu nascer públicos, comoveu, alegrou perturbou públicos, que cresceram com ele nas duas margens do Tejo". E o encenador João Garcia Miguel explica que o festival "é já um acontecimento que marca a vida e o ritmo da cultura e da criação teatral em Portugal e na Europa". E crítica: "Portugal não se deve comportar deste modo para com os seus filhos e para com os seus patrimónios".

O encenador Jorge Silva Melo é mais emotivo: "Vi-o nascer, foi nele que nascemos, os Artistas Unidos, vi-o crescer, acompanhamo-nos. Não, não o vamos deixar definhar, não, não o vamos deixar morrer".

Este corte no apoio da DG-Artes é tanto mais incompreendido pela CTA quanto o júri do concurso considerou que a candidatura da CTA comprova os requisitos "em todas as qualidades de distinção", com um plano de atividades "vasto, diversificado", "claro e estruturado", no qual elogia, em particular, a realização do Festival de Almada, a circulação nacional e internacional da companhia, as atividades em diferentes áreas artísticas, o serviço educativo, o esforço no desenvolvimento de públicos e a existência de um "elevado número de contratos de trabalho", revelando "boas práticas de empregabilidade, um dos objetivos" do programa. Sobre o Festival, sublinha o júri "a programação bastante heterogénea", com a participação de companhias nacionais e internacionais e "grande coerência entre atividades principais" e as muitas atividades complementares, "que se desenrolam em diversos espaços de Almada e Lisboa".

Ler mais

Exclusivos

Premium

Ricardo Paes Mamede

Foi Centeno quem fez descer os juros?

Há dias a agência de notação Standard & Poor's (S&P) subiu o rating de Portugal, levando os juros sobre a dívida pública para os níveis mais baixos de sempre. No mesmo dia, o ministro das Finanças realçava o impacto que as melhorias do rating da República têm vindo a ter nas contas públicas nacionais. A reacção rápida de Centeno teve o propósito óbvio de associar a subida do rating e a descida dos juros às opções de finanças públicas do seu governo. Será justo fazê-lo?