Espectadores apresentam nova temporada do D. Maria II

Alzira achava que o Teatro Nacional não era para ela. Mas estava enganada explicou o seu diretor artístico, Tiago Rodrigues. Apresentação da temporada foi democrática, e feita por espectadores.

Alzira mora há 50 anos na rua Augusta, ali mesmo, na Baixa de Lisboa, e nunca tinha entrado no Teatro Nacional D. Maria II, no Rossio. "Achava que era muito chique para mim. Que não era para pessoas como eu." Até hoje. Passou a tarde no teatro, visitou os camarins e subiu ao palco para dizer que gostou e quer voltar para ver espetáculos. Ela foi um dos 35 espectadores que esteve hoje no palco da Sala Garrett, com o microfone na mão, a apresentar a programação da próxima temporada. Como ela, Luísa, que é mãe da Cirila Bousset, uma das atrizes de Teatro, o espetáculo com texto e encenação de Pascal Rambert que se vai estrear a 15 de setembro. Delfina, rececionista do teatro, que gostou tanto de ver Tropa Fandanga que agora não hesita em aconselhar o próximo espetáculo que os Praga irão ali apresentar, Worst Of, com estreia a 1 de novembro. Ou Paulo, o pai de trigémeos que espera conseguir ver C'es la Vie, o espetáculo que o francês Mohamed El Khatib fez sobre a experiência da perda de um filho e que chegará ao Rossio a 28 de novembro.

Convidar os espectadores para apresentarem a próxima temporada foi a maneira que Tiago Rodrigues, diretor artístico do Teatro Nacional D. Maria II, encontrou para dizer que quer fazer um teatro "para todos os géneros e não para um género de pessoas. Para todos e para todas", porque "o serviço público de cultura é, acima de tudo, o esforço de tornar o acesso à criação artística cada vez mais democrático, plural e inclusivo".

A reposição de alguns espetáculos que tiveram grande sucesso na temporada anterior - como Sopro, de Tiago Rodrigues, e Montanha Russa, de Miguel Fragata e Inês Barahona - marca estes primeiros meses da temporada. Daquilo que foi anunciado, podemos dizer que até março haverá oito novas criações no Teatro Nacional D. Maria II, entre as quais uma nova produção de À Espera de Godot, de Beckett, por David Pereira Bastos, e de Frei Luís de Sousa, de Almeida Garrett, por Miguel Loureiro.

A programação já está toda disponível no site do teatro. Há mais espetáculos e algumas surpresas guardadas para a programação de abril a julho de 2019.

Mais novidades:

Primeira vez: é um projeto coordenado por Ana Pereira e Nádia Sales Grade que, ao longo da temporada e em colaboração com várias instituições, irá trazer ao teatro cerca de 400 pessoas que nunca ali tinham entrado. A primeira foi Alzira.

Kcena: depois de Viseu, São Salvador da Bahia (no Brasil) e Mindelo (em Cabo Verde), este será o quarto Kcena, um grupo de teatro juvenil que no Teatro Nacional D. Maria II será coordenado por Raquel André e Teresa Sobral. Os jovens dos 14 aos 18 anos que queiram participar devem ficar atento ao site do teatro pois a qualquer momento poderão ser anunciadas as inscrições. Depois de uma oficina alargada em setembro, 20 dos participantes serão selecionados para o Kcena e, no final da temporada, apresentarão o seu espetáculo.

Assinaturas: As assinaturas contemplam três modalidades - cinco, dez e 20 espetáculos - e têm um custo de 40, 70 e 120 euros, respetivamente, anunciou Cláudia Belchior, espectadora e presidente do conselho de administração do teatro. As assinaturas podem começar a ser adquiridas a partir de agora para os espetáculos da nova temporada.

Mais cedo: ao sábado, os espetáculos passam a começar às 19:00, na Sala Garrett, e, na sala Estúdio, às 19:30, por se tratar do horário que "melhor serve o público".

A temporada arranca, como habitualmente, com o fim-de-semana de Entrada Livre, a 15 e 16 de setembro, com uma série de espetáculos e outras atividades com entrada gratuita.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Henrique Burnay

O momento Trump de Macron

Há uns bons anos atrás, durante uns dias, a quem pesquisasse, no Yahoo ou Google, já não me lembro, por "great French military victories" era sugerido se não quereria antes dizer "great French military defeats". A brincadeira de algum hacker com sentido de ironia histórica foi mais ou menos repetida há dias, só que desta vez pelo presidente dos Estados Unidos, depois de Macron ter dito a frase mais grave que podia dizer sobre a defesa europeia. Ao contrário do hacker de há uns anos, porém, nem o presidente francês nem Donald Trump parecem ter querido fazer humor ou, mais grave, percebido a História e o presente.

Premium

Ruy Castro

Um Vinicius que você não conheceu

Foi em dezembro de 1967 ou janeiro de 1968. Toquei a campainha da casa na Gávea, bairro delicioso do Rio, onde morava Vinicius de Moraes. Vinicius, você sabe: o poeta, o compositor, o letrista, o showman, o diplomata, o boémio, o apaixonado, o homem do mundo. Ia entrevistá-lo para a Manchete, revista em que eu trabalhava. Um empregado me conduziu à sala e mandou esperar. De repente, passaram por mim, vindas lá de dentro, duas estagiárias de jornal ou, talvez, estudantes de jornalismo - lindas de morrer, usando perturbadoras minissaias (era a moda na época), sobraçando livros ou um caderno de anotações, rindo muito, e foram embora. E só então Vinicius apareceu e me disse olá. Vestia a sua tradicional camisa preta, existencialista, de malha, arregaçada nos cotovelos, a calça cor de gelo, os sapatos sem meias - e cheirava a talco ou sabonete, como se tivesse acabado de sair do banho.

Premium

Maria do Rosário Pedreira

Dispensar o real

A minha mãe levou muito a sério aquele slogan dos anos 1970 que há quem atribua a Alexandre O'Neill - "Há sempre um Portugal desconhecido que espera por si" - e todos os domingos nos metia no carro para conhecermos o país, visitando igrejas, monumentos, jardins e museus e brindando-nos no final com um lanche em que provávamos a doçaria típica da região (cavacas nas Caldas, pastéis em Tentúgal). Conheci Santarém muito antes de ser a "Capital do Gótico" e a Capela dos Ossos foi o meu primeiro filme de terror.

Premium

Adriano Moreira

Entre a arrogância e o risco

Quando foi assinada a paz, pondo fim à guerra de 1914-1918, consta que um general do Estado-Maior Alemão terá dito que não se tratava de um tratado de paz mas sim de um armistício para 20 anos. Dito ou criado pelo comentarismo que rodeia sempre acontecimentos desta natureza, o facto é que 20 anos depois tivemos a guerra de 1939-1945. O infeliz Stefan Zweig, que pareceu antever a crise de que o Brasil parece decidido a ensaiar um remédio mal explicado para aquela em que se encontra, escreveu no seu diário, em 3 de setembro de 1939, que a nova guerra seria "mil vezes pior do que em 1914".

Premium

António Araújo

Virgínia, a primeira jornalista portuguesa

Estranha-se o seu esquecimento. É que ela foi, sem tirar nem pôr, a primeira jornalista portuguesa, a primeira mulher que exerceu a profissão de repórter nos moldes que hoje conhecemos. Tem o seu nome nas ruas de algumas localidades (em Lisboa, no bairro de Caselas), mas, segundo sei, não é sequer recordada pela toponímia da sua terra natal, Elvas, onde veio ao mundo às cinco da madrugada do dia 28 de Dezembro de 1882. Seu pai era oficial de Cavalaria, sua mãe doméstica (e também natural de Elvas), seus irmãos militares de fortes convicções republicanas; um deles, Carlos Alberto, chegou a estar na Rotunda em Outubro de 1910 e a combater as tropas de Couceiro por bandas de Trás-os-Montes.

Premium

Marisa Matias

É ouro, senhores

Chegar à União Europeia não é igual para toda a gente, já se sabe. Em vários países da União Europeia - treze mais em concreto - ter dinheiro é condição de porta aberta. Já se o assunto for fugir à morte ou procurar trabalho, a conversa é bem diferente. O caso a que me refiro é o dos vistos gold. Portugal integra a lista de países com práticas mais questionáveis a este respeito. Não sou eu quem o diz, os dados vêm do Consórcio Global Anticorrupção e da Transparency International.

Premium

Germano Almeida

Parlamentares

A notícia segundo a qual dois deputados nacionais ultrapassaram a fase dos insultos verbais e entraram em desforço físico junto ou dentro do edifício do Parlamento correu as ilhas e também pelo menos a parte da diáspora onde chegam as nossas emissões, porque não só a Rádio Nacional proporcionou ao facto abundante cobertura, como também a televisão lhe dedicou largos 22 minutos de tempo de antena, ouvindo não só os contendores como também as eventuais testemunhas da lide, e por fim um jurista, que, de código em punho, esmiuçou a diferença entre uma briga e uma agressão pura e simples, para concluir que no caso em apreço mais parecia ter havido uma agressão de um deputado a outro, na medida em que tudo levava a crer ter havido um único murro. Porém, tão bem aplicado e com tanta ciência, que não houve mais nada a fazer senão conduzir o espancado ao hospital para os devidos curativos. E para comprovar a veracidade do incidente mostrou, junto a uma parede, uma mancha de sangue que por sinal mais fazia lembrar o local onde uma galinha poderia ter sido decapitada.

Premium

Viriato Soromenho Marques

Desta vez Trump tem razão

A construção de uma Europa unida como espaço de paz, liberdade, justiça e prosperidade sustentável foi o maior projeto político da geração a que pertenço. É impossível não confessar a imensa tristeza que me invade ao observar mês após mês, ano após ano, como se caminha para aquele grau de exaustão e fadiga que faz pressentir a dissolução final. O que une, hoje, a Europa é a mais elementar pulsão de vida, o instinto de autossobrevivência. Não dos seus governantes, mas dos seus mais humildes cidadãos. O tumultuoso Brexit mostra bem como é difícil, mesmo para um grande país com soberania monetária, descoser as malhas urdidas ao longo de tantas décadas. Agora imagine-se a tragédia que seria o colapso da união monetária para os 19 países que dela participam. A zona euro sofreria um empobrecimento e uma destruição de riqueza exponenciais, como se uma guerra invisível, sem mortos nem ruínas, nos tivesse atingido. Estamos nisto há dez anos. Os atos políticos levados a cabo desde 2008, nada mudaram na gravidade dos problemas, apenas adiaram o desfecho previsível. Existe uma alternativa minimalista ao colapso. Implicaria uma negociação realista baseada nos interesses materiais concretos dos Estados, como aqueles casais que coabitam, mesmo depois do divórcio, para nenhum deles ter de ir morar na rua. A prioridade seria uma mudança das regras absurdas do tratado orçamental, que transformam, por exemplo, os 2,8% da derrapagem orçamental francesa prevista para 2019 numa coisa esplêndida, e os 2,4% solicitados pelo governo de Roma num pecado mortal! Contudo, os mesmos patéticos dirigentes políticos dos grandes países europeus que economizaram nos atos potencialmente redentores do projeto europeu, não nos poupam à sua retórica. A evocação do primeiro centenário do fim da I Guerra Mundial ultrapassou os limites do aceitável.