20 anos depois ainda somos estas mulheres?

A série norte-americana "O Sexo e a Cidade" estreou a 6 de junho de 1998. Nunca tínhamos visto as mulheres assim. E isso fez alguma diferença? O que aprendemos com Carrie e as amigas?

Era uma vez. Eram estas as primeiras palavras de Carrie Bradshaw no primeiro episódio de Sexo e a Cidade que foi para o ar nos Estados Unidos a 6 de junho de 1998. Como num conto de fadas. Mas a ilusão terminava logo ao fim de dois minutos. Desenganem-se as cinderelas dos tempos modernos. "Benvindos ao fim da inocência." Não há nenhum Cupido a cuidar de nós, nem príncipe encantado pronto a aparecer, no seu cavalo branco. "Há milhares de mulheres assim na cidade. Viajam, pagam impostos, gastam quatro mil dólares num par de sandálias e estão sozinhas. Porque há tantas mulheres fantásticas solteiras e não há assim tantos homens solteiros fantásticos?", pergunta Carrie. E é aqui que tudo começa.

Há vinte anos ficámos a conhecer Carrie (interpretada pela atriz Sarah Jessica Parker), Charlotte (Kristin Davis), Miranda (Cynthia Nixon) e Samantha (Kim Catrall), as quatro mulheres que saíram do romance de Candace Bushnell para a série de televisão produzida pela HBO e assinada por Darren Star. No total, houve seis temporadas - a série durou até fevereiro de 2004 e depois ainda deu origem a dois filmes. Sexo e a Cidade ganhou sete prémios Emmy (em 54 nomeações) e oito Globos de Ouro (dos 24 para que estava nomeada). Mas mais importantes do que os números são as marcas deixou naqueles (sobretudo naquelas) que acompanharam todas as temporadas.

Apesar de ser uma série com 20 anos, os temas abordados são absolutamente transversais, percorrem países e gerações e, de forma geral, continuam a fazer sentido em 2018", diz a blogger Ana Garcia Martins, conhecida como A Pipoca Mais Doce, que admite que esta é seguramente a série que já viu mais vezes. "Acho que foi uma série absolutamente disruptiva para a época, quebrou uma data de paradigmas e mostrou que as mulheres também podem falar, de forma desempoeirada, de sexo e relações." Ali temos três mulheres na casa dos 30 anos e uma que já está nos 40 e que falam de todos os assuntos que as mulheres normalmente falam com as amigas mas que até aí estavam ausentes do entretenimento televisivo. Das vantagens e desvantagens de ser solteira às posições preferidas no sexo, de depilação à vontade de ter filhos e à infertilidade, de vibradores e do cancro na mama, do envelhecimento e da falta que um homem faz (ou não faz).

Liberdade para falar de sexo

Já a escritora Rita Ferro nunca se sentiu "arrebatada" por O Sexo e a Cidade: "Tinha uma coisa que também vejo nas novelas brasileiras, e que, ainda que corresponda a um certo chavão do comportamento feminino, me incomoda: viver-se em torno da ideia de "caçar um homem" e tornar-se isso o centro de certas vidas. Seja para sexo, seja para casamento. A ideia embaraça-me, como mulher. É como se achassem que, sozinhas, nada valem." A parte boa, diz, "é que ridicularizavam com humor alguns comportamentos masculinos, sem deixarem de se criticar também, ou seja, com alguma equidade."

No entanto, admite que "à personagem Samantha, sexy e voluptuosa, temos a agradecer ter conseguido que uma série marcadamente feminina fosse vista por milhões de homens em todo o mundo, e, à pala disso, obrigá-los a perceber a psicologia feminina e da profunda alteração do paradigma comportamental da mulher, no que ao amor diz respeito". E continua: "E ajudaram a despenalizar o sexo feminino sem amor, a par do dos homens, e a liberdade individual das mulheres nesta área específica do sexo. Resta saber se isso é uma grande vitória para mulheres ou para homens, no sentido espiritual. Sempre tive dúvidas."

Quem não tem dúvidas nenhumas sobre isto é a escritora Patrícia Muller: "Foi a série mais importante para mim. Eu tinha 21 anos e foi uma revolução absoluta. Os tempos eram outros e, apesar de não ser uma série tão feminista quanto parece, foi um avanço gigante na maneira como as mulheres falavam de si próprias".

"Há um lado assumidamente light, fútil e de apelo ao consumismo, mas há também as histórias de quatro mulheres com problemas, experiências ou ambições comuns a tantas outras mulheres", diz Ana Garcia Martins. "Quem nunca se sentiu como a Charlotte, quando achava que nunca conseguiria encontrar um amor para a vida toda ou quando se viu a braços com um problema de infertilidade? Quem nunca se sentiu como a Miranda, obrigada a escolher entre a família ou a carreira? Quem nunca se sentiu como a Carrie quando, de repente, percebe que não tem dinheiro para comprar uma casa sozinha? E quantas Samanthas não há por aí, fartas de serem olhadas de lado por preferirem colecionar parceiros sexuais a ter uma vida emocional estável? É óbvio que são personagens, que são estereotipadas, mas todas elas acabam por nos tocar de alguma maneira. Penso que grande parte do sucesso da série passa por aí: podemos amar uma personagem e odiar outra, mas há sempre um sentimento de empatia com uma delas."

Patrícia Muller, autora de Madre Paula, concorda: "Se por um lado, há um certo romantismo - a Carrie e a Charlote andam à procura do homem perfeito - nem a Samantha nem nem a Miranda o fazem." Além disso, sublinha, "há todo um contexto de liberdade de ações das mulheres, uma emancipação em relação ao sexo mas também profissional. Elas eram ambiciosas e passaram a ideia do "eu posso". Eu tenho dinheiro e por isso posso fazer o que quiser. Essa ideia de uma mulher ter liberdade paradizer e fazer o que quer não era ainda tão aceite como agora e inspirou muitas mulheres."

Brunches em Manhattan

O escritor Hugo Gonçalves tinha 25 anos e vivia em Nova Iorque quando Sexo e a Cidade se tornou a série do momento. "Trabalhava no bar de um restaurante e fartei-me de fazer Cosmopolitans", conta. A bebida à base de Triple Sec, Vodca, sumo de lima e sumo de arando era uma das preferidas de Carrie e suas amigas. "Acho que a série mostrava bem um lado da cidade, muito estilizado, da Nova Iorque pós-Giulianni, onde já se sentia o início da gentrificação, com as festas, as inaugurações, os desfiles de moda, os bares e restaurantes. E retrata a cena do dating de Nova Iorque, que existe mesmo."

Esse lado aspiracional é também identificado por Ana Garcia martins: "Pôs-nos a sonhar com aquele grupo de amigas que vive no centro do mundo, que tem as roupas mais giras e que toma brunches nos melhores restaurantes de Nova Iorque nos seus sapatos Manolo Blahnik." Porque, obviamente, sublinha Patrícia Muller, "há um lado muito realista dos problemas das melhores mas é tudo embrulhado num guarda-roupa e num cenário fantástico. É uma fantasia visual brutal. O Sexo e a Cidade não arrisca ser feio."

Passaram 20 anos passaram desde que vimos O Sexo e a Cidade. Aquelas mulheres ainda dizem alguma coisa a esta nova geração? Patrícia Muller não hesita na resposta: muita coisa mudou mas a essência do que é ser mulher e dos problemas que enfrenta é a mesma. E meio a brincar lembra como ainda hoje usamos expressões que apareceram ali (uma das mais famosas é "he"s not that into you"). Ana Garcia Martins também pensa que sim, " a diferença que os temas debatidos na série se tornaram mais comuns e já não são discutidos de forma velada".

Ana exemplifica: "No meu grupo de amigas fala-se de forma descomplexada de sexo e relações, partilham-se dúvidas, experiências ou inquietações sem qualquer problema. E tanto pode ser no WhatsApp como a jantar num restaurante, sem medo que alguém possa ouvir ou fazer algum tipo de julgamento. Acho que devemos boa parte dessa liberdade ao Sexo e a Cidade." E conclui: "As miúdas mais novas já têm muito desse caminho percorrido, por isso é tudo mais fácil e descomplicado e talvez já não se revejam tanto na série. Ainda assim. Vou fazer questão de ver O Sexo e a Cidade com a minha filha daqui a uns anos."

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