Han Kang. "Vale a pena escrever em nome dos valores"

Fala, quase sempre em voz baixa, de livros que se lhe "impõem" e prefere referir os "valores" e não em "causas". Já a Poesia é algo que "acontece", tal como as canções. Premiada, defende a privacidade e a disciplina. E até separa as escritas - a manual e a de computador

Em menos de um ano, chegaram a Portugal dois livros com a sua assinatura. Primeiro A Vegetariana, história terrível de uma mulher que altera todas as vidas à sua volta só porque decide deixar de comer carne. Agora, Atos Humanos, relato ficcionado mas muito real, montado a partir dos acontecimentos ocorridos no massacre de Gwangju, em que mais de 150 pessoas foram indiscriminadamente mortas pelo exército, ao serviço da ditadura militar e no espaço de dez dias. Han Kang, a autora, começa por se afirmar "cansada" de Seul, da sua dimensão de dez milhões de habitantes e da falta de qualidade do ar que se respira. No fim, despede-se com dois beijinhos "portuguese style" (sic). Pelo meio, confirma as (melhores) expectativas, quanto à lucidez e à ética.

Quem ler A Vegetariana e Atos Humanos pode ficar com a sensação de que quis escrever o primeiro e sentiu necessidade de escrever o segundo. Esta ideia faz sentido?

No segundo caso, sim. Absolutamente. No primeiro, honestamente, não tenho a certeza de ter querido escrevê-lo assim. Mas foi-se impondo como, de resto, me acontece quase sempre. Nunca começo um livro sabendo como vai acabar e já houve casos em que o próprio curso da história me surpreendia... Mas há, de facto, uma diferença radical entre ambos: A Vegetariana é uma história criada por mim, com personagens da minha inteira responsabilidade, postos ao serviço de algo que quis dizer para sublinhar um valor...

Deixe-me arriscar: o livre arbítrio...

Em certa medida... Mas eu prefiro falar em dignidade. Mesmo quando parece mais radical, mais obstinada, a protagonista está, afinal, a defender como pode a sua dignidade, posta em causa por todos os que a rodeiam, do marido à família, sem esquecer os próprios médicos que a "tratam"...

Quando o li, pensei naquele conceito do "efeito borboleta" - uma mulher decide deixar de comer carne e, de repente, tudo entra em mudança e, depois, em colapso...

Precisamente. Claro que há uma componente simbólica nessa construção: a facilidade com que uma decisão simples, quase banal, afeta tudo e todos, desencadeando uma espiral de violência, física e psicológica, quase de tortura, de sucessivos atentados à dignidade de alguém que, por filosofia, por opção, quis seguir um caminho próprio e diferente e se viu, de imediato, no centro de um vulcão de intolerância. Lá está: essa escalada foi-se multiplicando à medida que eu ia escrevendo, não foi premeditada. Tal como a linguagem, muito dura, reconheço, não era um elemento essencial no plano inicial...

A protagonista só podia ser uma mulher, concorda?

Claro (sorrisos)! Mesmo não concordando com aquilo a que muita gente chama "a escrita feminina", há desdobramentos da violência que só conseguem ser minimamente verosímeis e eficazes se o alvo a atingir for uma mulher. Não é algo que me deixe feliz, mas acaba por ser uma realidade.

Já em Atos Humanos, cruza-se com uma violência bem distinta, aquela em que um qualquer cidadão pode aparecer no lugar do alvo...

Exato. Aquilo que ainda me assusta e me abala passa por isso e pela circunstância de um poder que se quer afirmar - ou perpetuar -, chegar a um ponto de insanidade em que julga justificado o ato de matar indiscriminadamente, chegando a disparar sobre jovens e crianças, miúdos de escola, como se se tratasse de perigosos conspiradores. Ou seja, há vários graus para a crueldade, para a demência organizada, para aquele absurdo horrível que é assassinar assim, ao mesmo tempo metódica e anarquicamente. O maior dos absurdos está na circunstância de, mesmo ficcionando, nos encontrarmos diante de algo que aconteceu realmente, que não é uma fantasia literária...

Todo o livro é muito cru, muito gráfico, muito explícito...

Mas poderia ser de outra maneira, depois do que aconteceu? Quando me debrucei sobre aqueles acontecimentos - com que já tinha contactado quando era criança, porque a minha família deixara de viver em Gwangju poucos meses antes do massacre e porque o assunto, mesmo em surdina, foi comentado em minha casa pelos adultos -, não tinha a menor intenção de escrever um livro. Fui fazendo a pesquisa sem pressas e o processo demorou cerca de cinco anos. Antes de iniciar a escrita, eu já tinha pesadelos, só com a reconstituição do ocorrido, só com os relatos que ia juntando... Havia dias em que não conseguia evitar as lágrimas, porventura mais de incompreensão do que de revolta. De resto, ainda hoje tenho sonhos maus com aquelas pessoas e com aquela situação; felizmente para mim, tendem a ser menos gráficos... Mas talvez seja algo que vá viver comigo por muito mais tempo, não sei... De qualquer forma, nunca encarei este livro como um exorcismo, mas mais como um ato de justiça, como um contributo para a memória, porque entendo que há episódios que, quanto mais lembrados, menos suscetíveis são de se repetir. E, antes que me pergunte, o valor em causa neste caso foi o mais elementar de todos: o direito à vida, brutalmente atropelado naqueles dias.

Há sempre um valor dominante em cada um dos seus livros?

Penso que sim. Ou então há uma coexistência de vários valores... Embora não seja uma defensora militante do papel de "missionário" para o escritor, acredito que, sobretudo nos nossos dias, em que as ideias circulam mais rápida e mais intensamente do que nunca, o que vale a pena é escrever em nome dos valores.

Em Atos Humanos, optou por ter diferentes narradores em cada capítulo, o que acaba por corresponder a diferentes perspetivas sobre os acontecimentos...

Aí está uma solução que também não foi exaustivamente planeada antes de o livro começar a ganhar forma. Em determinado momento, pareceu-me interessante aproveitar diferentes olhares sobre os mesmos acontecimentos. Isso permite um desdobramento das perspetivas, até porque chego ao ponto de entregar a narrativa de um dos capítulos a alguém que já morreu e que está, dessa forma, legitimado a contar o que lhe sucedeu e acaba por ganhar direito à liberdade de contar também aquilo que viu... depois de morto. Poderá parecer uma ousadia, um exagero, mas perante uma tragédia desta dimensão, acaba por ser um método auxiliar precioso e que os leitores percebem a aceitam. Optei, também, por não me cingir à época do massacre e por estender aquilo que se passou pelo tempo fora, chamando à narração pessoas que se vão vendo envolvidas com os acontecimentos anos depois dos acontecimentos e em circunstâncias que parecem menos óbvias. O motivo é simples: aquilo que ocorreu não se esgota no desastre daqueles mortos. Pelo contrário: deixa sequelas nos amigos, nas famílias, nos vizinhos, até naqueles que vão conhecendo as proporções da tragédia. E o tempo não resolve tudo, não pode - nem deve - apagar lembranças tão fortes. Se quiser, há ainda uma técnica suplementar que utilizei em Atos Humanos: o facto de os narradores se dirigirem a um "tu", que começa por ser um protagonista da história mas que, mediante a insistência, acaba por ser o próprio leitor. Quis interpelá-lo diretamente, pô-lo diante de um espelho...

Não lhe facilitou a vida, portanto... Sendo este livro como é, que reações causou no seu país?

Aí está uma das boas surpresas que tive. Francamente, estava à espera de que o livro fosse comodamente ignorado, com um ou outro ataque por parte das pessoas mais à direita. Não foi nada disso que acabou por acontecer: o livro foi escrutinado, debatido, apoiado, aplaudido por parte de muita gente. Confesso, ainda assim, que os meus maiores motivos de orgulho vieram dos recados de agradecimento de familiares e amigos das vítimas, algumas das quais me comoveram, ao dizerem-me que, depois do livro, os mortos poderiam finalmente descansar em paz. Claro que há uma emotividade muito grande nisto, algum exagero, mas para quem escreveu - e sofreu a escrever, como lhe disse - torna-se compensador, reconfortante.

Falemos de boas surpresas - a vitória no Man Booker International Prize, no ano passado. Como é que a sua vida mudou depois disso?

Sem esse prémio, o mais provável é que não estivéssemos aqui a conversar (sorrisos)... Durante algum tempo, mudou tudo. Muitas viagens, muitas entrevistas, muitas solicitações, o reconhecimento na rua, em Seul... Claro que é extraordinária a possibilidade de ser traduzida e publicada em muitos países, e estou muito grata por isso, mas há um preço alto a pagar, no que toca à alteração das rotinas, à quebra de uma disciplina que me é absolutamente indispensável para poder trabalhar em condições, como gosto...

Essa reação faz lembrar a da inglesa Doris Lessing que, embora satisfeita com o Nobel, se queixou amargamente de que o seu tempo útil de escrita iria ficar muito reduzido...

Sou levada a simpatizar com essa ideia (sorrisos) e a concordar com ela. Cada escritor terá uma forma pessoal de se relacionar com o seu trabalho. No meu caso, eu preciso muito da minha privacidade, da minha solidão, das minhas horas para dedicar ao que faço. Felizmente, passada a febre inicial, as coisas voltaram à normalidade e eu consegui recuperar o meu método e, até certo ponto, o conforto do meu cantinho. A juntar a isso, acresce a noção de que me expresso melhor através do que escrevo do que fazendo uso das entrevistas, em que acabo a repetir-me...

Aqui, poderíamos finalmente discordar, mas adiante... Escreve todos os dias?

De certa forma, sim... Posso não escrever de raiz diariamente, mas todos os dias revejo, emendo, acrescento e, sempre que possível, escrevo. Não terá a ver com insegurança, mas preciso desse regime para não perder a mão, para manter uma cadência que, não podendo ser uniforme, pelo menos procura não dar espaço a falhanços e a vazios.

Sei que, em dada altura, por causa de uma tendinite, passou a escrever à mão. Ainda o faz?

Não (risos)! Quer dizer, sim, mas está tudo muito bem compartimentado. Quando trabalho nos livros, utilizo o computador. A escrita manual fica reservada para a Poesia, que nunca sei quando é que me acontece, e para algo que insisto em manter, mesmo quando a prudência da idade recomendaria o contrário - os meus diários, pessoais e intransmissíveis...

Para terminar, vamos ao futuro. Para quando um próximo álbum de canções [Han Kang gravou e publicou um CD, com composições próprias, em 2007]?

Não sei (risos)... Não deverá ser em breve, porque só tenho duas canções novas. Mas, eventualmente, acabará por acontecer. Nem que seja para não perder tempo quando enfrentar a próxima tendinite...

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