Há uma portuguesa à espera de subir ao palco em Lazarus

Alexandra da Silva, 25 anos, esteve quase a abandonar o sonho de atuar em palcos profissionais. Agora integra o elenco que apresenta, na Europa, a última criação de David Bowie

A peça musical Lazarus, de David Bowie e Enda Walsh - um dos eventos mais aguardados do calendário teatral londrino desta temporada, inclui no seu elenco a portuguesa Alexandra da Silva. A estreia oficial de Lazarus está marcada para o próximo dia 8 de novembro no Kings Cross Theatre, em Londres. Alexandra, de 25 anos, é a atriz suplente de quatro dos papéis femininos, incluindo o da protagonista. "Este é o maior projeto em que alguma vez trabalhei. É simplesmente fantástico e incrível fazer parte da peça de Bowie", diz.

Ser atriz suplente de quatro papéis significa, sobretudo, que Alexandra trabalha mais do que qualquer outro ator. "Tenho de decorar imensos diálogos, aprender as harmonias e as canções, fazer os ensaios. Além disso tenho de ser muito organizada, estou sempre a tirar notas e a fazer esquemas porque tenho de estar pronta para entrar [na peça] a qualquer altura", explicou ao DN Alexandra da Silva.

Filha de portugueses com raízes em Cascais, Funchal e São Vicente (Madeira), Alexandra estudou na academia de teatro, cinema, rádio e televisão ALRA, de Londres. Nos últimos quatro anos, depois de acabar o curso, trabalhou em "pequenos papéis em filmes e teatro, alguns concertos, anúncios, nada de especial". Em março chegou mesmo a pensar abandonar a carreira. "O meu agente abriu falência e fiquei sem saber o que fazer. Quase desisti", conta. A recomendação de um amigo, no entanto, abriu-lhe as portas de outra agência e novas perspetivas de trabalho.

"Tive imensas audições para coisas diferentes e o convite para Lazarus depois de um processo de seleção muito difícil." Trabalhar neste musical, aliás, tem um sabor especial. Em janeiro, Alexandra publicou um tuíte onde lamentava a morte de Bowie e citava um verso de Space Oddity (1969), um dos temas mais famosos do cantor. Alguns meses mais tarde receberia a confirmação de que fazia parte do elenco oficial de Lazarus, uma das últimas criações do génio David Bowie. "Em miúda ouvia imenso a música dele no carro com a minha mãe. Sempre achei que ele era brilhante e um cantor fascinante com tantos estilos e personalidades diferentes", diz.

A atriz não sabe ainda quando irá subir ao palco do Kings Cross Theatre. O espetáculo já teve algumas antestreias com público e estará em cena durante 13 semanas, pelo menos. É muito provável que seja chamada a saltar do banco para integrar a equipa principal numa dos quatro papéis que tem estudados. "Tenho aprendido imenso e a experiência tem sido fantástica. O elenco está cheio de gente maravilhosa e cheia de talento", conta ela numa conversa... em inglês. "Eu sei, sinto que sou uma fraude, digo que sou portuguesa e depois não falo a língua", diz Alexandra, entre gargalhadas.

O musical Lazarus teve a estreia mundial em dezembro passado no Theatre Workshop de Nova Iorque e permaneceu em cena durante seis semanas, sempre com lotações esgotadas. David Bowie subiu ao palco na noite de estreia, a 7 de dezembro de 2015, para agradecer os aplausos ao lado dos atores e restante equipa. Foi a última aparição dele em público (Bowie morreu no dia 10 de janeiro de 2016).

A produção londrina de Lazarus é praticamente igual à de Nova Iorque e compreende, inclusive, três das principais estrelas do elenco nova-iorquino: Michael Esper, a adolescente Sophia Anne Caruso e o sublime Michael C. Hall - um ator mais conhecido pelo papel de homicida psicopata na série televisiva Dexter -, cuja voz e timbre lembram de forma impressionante David Bowie.

Bowie associou-se ao dramaturgo irlandês Enda Walsh e ao encenador belga Ivo van Hove para escrever e produzir o enredo de Lazarus. Bowie queria que a peça fosse um musical semiautobiográfico e uma espécie de continuação de O homem que veio do espaço, o filme de culto do realizador Nicolas Roeg que em 1976 foi protagonista. Neste obscuro filme de ficção científica, a história anda à volta das angústias de Thomas Jerome Newton, um extraterrestre de feições humanas que aterra no nosso planeta à procura de água.

Em Lazarus, David Bowie volta a pegar na saga de Newton. O musical retoma vários temas do catálogo de Bowie, incluindo velhos êxitos como Life on Mars, Changes, Absolute Beginners e Heroes e o lindíssimo e tristemente fúnebre Lazarus - o single retirado de Blackstar, o 25.º (e último) álbum de estúdio de Bowie, lançado em janeiro de 2016.

No musical de quase duas horas, Newton (representado pelo ator/ /cantor Michael C. Hall) é um alcoólico deprimido que engole litros de gin e não é capaz de regressar ao planeta dele ou mesmo encarar a morte. Vive atormentado por visões do passado. Os cenários de Lazarus são extremamente simples, com apenas uma cama, um frigorífico e um enorme ecrã no palco. A banda ocupa o fundo do cenário, numa espécie de aquário protegido por um vidro enorme. As projeções de vídeo e a música de Bowie transportam os espectadores para outros mundos. Tal como Newton, Bowie era, talvez, um verdadeiro homem do espaço que vivia prisioneiro no nosso planeta e tinha dificuldades em lidar com os prazeres terrestres. Tal como Newman (que regressa ao espaço, no final da peça), Bowie também foi embora.

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