Gulbenkian celebra "uma maneira de ser moderno" de Almada Negreiros

A exposição "José de Almada Negreiros: uma maneira de ser moderno" abre ao público a 3 fevereiro, na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, cerca de um quarto de século depois da última grande mostra dedicada ao artista

A retrospetiva vai reunir mais de 400 trabalhos, muitos dos quais inéditos, do artista do modernismo português, que "refletem a inesgotável energia criativa de um autor que se expressou numa imensidade de linguagens artísticas, ao longo da vida", como recorda a Gulbenkian, no comunicado de apresentação da mostra, hoje divulgado.

Almada Negreiros (1893-1970) deixou uma vasta obra de pintura, desenho, teatro, dança, romance, contos, conferências, ensaios, livros manuscritos ilustrados, poesia, narrativa gráfica, pintura mural e artes gráficas, cuja produção se estendeu ao longo de mais de meio século.

"Esta mostra propõe um olhar inovador sobre um dos mais criativos e fecundos artistas nacionais, reavaliando o seu lugar na história dos modernismos", lê-se no comunicado.

A exposição tem curadoria da historiadora de arte e investigadora Mariana Pinto dos Santos, com Ana Vasconcelos, conservadora do Museu Calouste Gulbenkian, e é acompanhada de um programa educativo e cultural que se alarga a outras instituições, como a Cinemateca Portuguesa, e se estende até 05 de junho.

Organizada em oito núcleos temáticos, a exposição desenvolve "vários fios condutores, de modo a revelar os vários rostos deste artista da 'modernidade total', que marcou profundamente a arte portuguesa do século XX", escreve a Gulbenkian.

"Almada defendia uma modernidade presente em todo o lado, nos edifícios públicos, nas ruas, no teatro, no cinema, na dança, no grafismo e nas ilustrações dos jornais, e entendia o artista como o agente principal deste movimento plural", acrescenta.

A exposição põe em relevo as pesquisas matemáticas e geométricas de Almada em pintura, as obras em espaço público, na cidade de Lisboa, o caráter de narrativa gráfica que se encontra em vários dos seus trabalhos, o diálogo com o cinema e a importância do autorretrato na sua obra, entre muitos outros aspetos do seu trabalho.

Na galeria principal da fundação, a pintura e o desenho do autor do romance "Nome de guerra" vão cruzar-se com trabalhos feitos em colaboração com arquitetos, escritores, editores, músicos, cenógrafos ou encenadores.

Na sala do piso inferior do edifício principal da Gulbenkian, será destacada a presença do cinema e da narrativa gráfica, a que se juntam obras e estudos inéditos, acrescenta a fundação.

A mostra vai ocupar as duas salas de exposições temporárias da sede da fundação, na proximidade do painel "Começar", concebido pelo artista para a entrada na instituição.

Uma programação que atravessa Lisboa

A programação complementar da retrospetiva "José de Almada Negreiros: uma maneira de ser moderno", que a Fundação Calouste Gulbenkian inaugura a 03 de fevereiro, vai atravessar Lisboa, na procura de testemunhos do artista presentes na cidade.

Até ao termo da exposição, a 05 de junho, serão realizadas visitas às Gares Marítimas de Alcântara e da Rocha do Conde de Óbidos, dominadas pelos vitrais concebidos por Almada, haverá um ciclo de cinema na Cinemateca Portuguesa e mesas-redondas, com investigadores como Richard Zenith, Gustavo Rubim, Manuel Deniz Silva e Joana Brites, além de Sara Afonso Ferreira, descendente do artista, e da diretora do Museu Gulbenkian, Penelope Curtis.

Na programação complementar, com que a Gulbenkian procura reforçar "a versatilidade da obra" do criador do "Manifesto anti-Dantas", destaca-se ainda "Almada, Um Nome de Guerra", documentário multimédia dirigido por Ernesto de Sousa, entre 1969 e 1972, e a encenação da peça de teatro "Antes de Começar", pelo Teatro da Esquina.

No âmbito da temporada Gulbenkian Música, será recriado o espetáculo "La tragedia de doña Ajada", estreado em Madrid, em 1929, com a projeção da lanterna mágica desenhada por Almada, composta por seis quadros criados para acompanhar a música de Salvador Bacarisse e o libreto do poeta Manuel Abril.

A partitura orquestral completa encontra-se perdida, mas será interpretada a versão de suite da obra, pela Orquestra Gulbenkian, dirigida por Nuno Coelho Silva, vencedor, em 2016, do primeiro prémio Jovens Músicos em Direção de Orquestra.

O espetáculo retoma igualmente os bailados "O boi sobre o telhado", de Darius Milhaud, e "Parade", de Erik Satie.

A fundação vai também publicar um catálogo com as obras do artista presentes, ensaios historiográficos e críticos, no contextos dos estudos sobre modernismo e modernidade, partindo do lugar que neles ocupa Almada Negreiros.

Em 2013, quando se completaram 120 sobre o nascimento do artista, a Gulbenkian acolheu o Colóquio Internacional Almada Negreiros, enquanto o Museu do Chiado e a Biblioteca Nacional de Portugal organizaram exposições dedicadas em particular à pintura e à bibliografia do autor.

Na altura, a Cinemateca exibiu igualmente o ensaio de Ernesto de Sousa, assim como o documentário de António Macedo "Almada vivo, hoje", e recordou a presença do artista no programa Zip-Zip, da RTP, em 1969, que o popularizou.

Almada Negreiros nasceu a 07 de abril de 1893, em S. Tomé e Príncipe, e morreu a 15 de junho de 1970, em Lisboa.

Nome da Geração de Orpheu, seguiu estudos de Pintura em Paris, em 1919 e 1920, onde trabalhou como bailarino, viveu em Espanha, no final da década de 1920.

Almada concebeu figurinos para bailados como "A Princesa dos Sapatos de Ferro", de Ruy Coelho, e colaborou com as revistas Portugal Artístico e Ilustração Portuguesa, participando no primeiro Salão do Grupo dos Humoristas Portugueses.

"O Manifesto anti-Dantas e por extenso" tornou-o num dos principais elementos da vanguarda do modernismo português.

Em 1917, participou no projeto "Portugal Futurista", publicando o "Ultimatum Futurista às Gerações Portuguesas do Século XX", com Santa-Rita Pintor.

A sua produção gráfica está dispersa por publicações como Diário de Lisboa, Athena, Presença, Panorama, Seara Nova.

Na produção literária destacam-se, entre outras obras, o romance "Nome de Guerra", os contos "A Engomadeira" e "O Cágado", o teatro de "Pierrot e Arlequim", a poesia de "A Cena do Ódio" e os textos "A Invenção do Dia Claro" ("ensaios para a iniciação de portugueses na revelação da pintura"), "K4, O Quadrado Azul" e "Elogio da Ingenuidade ou as Desventuras da Esperteza Saloia".

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