Gregório Duvivier: "Os sonetos obrigam a fugir das metáforas óbvias"

Sonetos, editado pela Tinta da China e, para já, apenas em Portugal, é um livro em que Gregório Duvivier volta à poesia. Uma atualização de metáforas em que amanhã rima com Instagrã.

Escreveu um livro só para Portugal, Sonetos?

Faz tempo que escrevo poesia e, na verdade, faz tempo que não escrevo poesia. Eu queria publicar um livro só para Portugal e queria publicar poesia e estava a escrever sonetos, poemas metrificados, que é das coisas mais divertidas, porque quando você escreve sonetos o desafio é encaixar o que você quer dizer num número preciso de sílabas e ainda por cima rimando. Isso torna mais difícil, mas você diz coisas novas que nunca diria se não tivesse que fazer as coisas caberem ali. Você quer dizer uma obviedade: "é a flor do meu jardim". Nove sílabas. Já te obriga a buscar: você é a parede do meu jardim. Obriga a fugir das metáforas óbvias.

Na poesia interessa-me a tensão entre uma forma rígida, antiga e um conteúdo contemporâneo. Interessa-me rimar Instagram [instagrã

Já tinha uns quantos?

Tinha uns dez e escrevi mais uns 20. Há um ano que estou cozinhando a Bárbara [Bulhosa, editora da Tinta da China]: agora vai. Demora! E eu mandei para alguns poetas que eu gosto, como o Paulo Henriques Britto, que é um poeta brasileiro que eu adoro, o Tiago Torres da Silva, que é português e que eu adoro, letrista de fado, dramaturgo e ele falou algumas coisas muito preciosas, pessoas que curtem o verso metrificado.

Chama-se Sonetos, mas o conteúdo não se afasta do humor.

Não. Eu gosto muito da tensão que existe entre humor e outras coisas. Humor e drama. Humor político, que também uma tensão. Na poesia interessa-me a tensão entre uma forma rígida, antiga e um conteúdo contemporâneo. Interessa-me rimar Instagram [instagrã] com a amanhã.

Os sonetos pareciam esquecidos.

O mundo mudou, mas a poesia quase não acompanhou, mas quando vejo poeta falando da lua, a nossa relação não é mais a mesma. Não é aquela que influencia as marés. A nossa relação com a lua é que a gente quer tirar uma foto para postar no whatsapp. É frustrante. Essa é a nossa lua. Aquela que a câmara do iphone não consegue captar. A nossa metáfora tem que se atualizar.

Humor não é sobre convencer, mas sobre unir as pessoas

O tema do Folio são as revoltas, as rebeldias, as revoluções. Como é que o humor hoje faz a revolução?

O humor tem a capacidade não de mudar a sociedade bruscamente, mas de criar comunidades através da criação de um senso comum. O Brasil está muito dividido, as pessoas se odeiam. Uns acham que os outros são comunistas e pedófilos e os outros acham que são fascistas, golpistas. Não tem muito diálogo. Quando você consegue colocar mil pessoas num teatro, dessas consegue que cem pessoas riam da mesma coisa, é uma situação inédita. No país hoje não tem pessoas fazendo a mesma coisa, não estão lendo os mesmos jornais, indo nos mesmos sítios.

Consegue juntá-los?

Quando eu faço Porta dos Fundos, estou só de um lado, mas quando faço teatro ou poesia, eu acho que consigo, eles conseguem rir juntos. Humor não é sobre convencer, mas sobre unir as pessoas.

Há, no Brasil, uma censura do politicamente correto?

O Brasil tem uma situação muito diferente de Portugal, porque é um país que se fundou na escravidão e ela permanece até hoje. O que significa do ponto de vista do humor? Nós somos em grande maioria humoristas brancos, e eu acho sim que existe uma necessidade de correção social, racial. A gente tem um abismo gigantesco, então é muito diferente fazer piadas racistas em Portugal do que no Brasil. Aqui vocês estão em outro nível de civilização que permite uma humor mais... ácido, mesmo. Você sai do teatro correndo o risco de estupro. Uma piada sobre estupro vai cair muito pior nas mulheres da plateia, porque elas são alvos em potência se não tiverem sido já alvos. Negros e pardos a mesma coisa. Você vai fazer uma piada e eles já passaram por violências de muitos graus, simbólicas, efetivas. Então, é muito difícil fazer rir com esses temas, porque a plateia é formada por vítimas atuais dessas violências. Eu sei que ela existe, mas em questão de números é diferente mesmo. O Brasil tem um nível de sensibilidade maior porque a sociedade tem feridas abertas. Existe sim uma censura nesse sentido, mas eu tendo a ouvi-la, porque muitas vezes ela parte de um grupo silenciado. As pessoas confundem isso no Brasil, confundem a censura com um grupo que normalmente é silenciado e finalmente tem voz. E eles falam: "o mundo está chato, porque não posso nem fazer piada com negros". Não, antigamente, eles não tinham voz.

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