Fora do palco também há teatro

O DN foi ver o que corre nas veias do Teatro Nacional. A 13 de abril comemora 170 anos mas recusa-se a ser um velhote. Porque, como diz Tiago Rodrigues, "todos os dias é um início"

Segunda-feira. Paula e Socorro são as primeiras a pisar o palco. Passa pouco das 14.00, a Sala Garrett está vazia, silenciosa, ainda na semi-escuridão. Paula e Socorro empurram o carrinho da limpeza, passam o pano nas cadeiras, deslizam os enormes espanadores pelo chão.

Têm o palco por sua conta mas não há ninguém para as aplaudir. Quando os atores começam a chegar, já elas levaram as vassouras para longe. Ouvem-se as primeiras vozes, vindas dos camarins. Um burburinho crescente.

O diretor de cena, Carlos Freitas, aparece de auricular e olhar espevitado, a inspecionar o palco para ter a certeza que tudo está no lugar em que deveria estar. Fala ao microfone: "Atenção a todos os atores, pede-se o favor de virem para o palco para o ensaio que vai começar às 14.30."

Eles vão chegando, já vestidos, a pedir ajuda com um casaco que não abotoa ou um colete que está torto. Paula Miranda, auxiliar de camarim e guarda-roupa, está ali para isso. Alinhou os chapéus todos numa mesa ao lado do palco, colocou capas e fatos num charriot, sabe exatamente o que cada um tem de usar, em que momento da peça é preciso trocar de roupa.

Lá atrás há quem grite uns pa-pe-pi-po-pu para aquecer a voz. O encenador João Pedro Vaz reúne o elenco e explica o que se vai fazer. Ensaio para a imprensa. Como se fosse a sério. Faltam poucos dias para a estreia. "Estamos prontos? Vamos lá, divirtam-se." O diretor de cena dá o ok e instala-se no seu canto, ao lado do palco, onde controla tudo através de um monitor. A cortina fecha-se. As luzes de sala acendem-se. O público entra. Começa o ensaio.

Quarta-feira. Manhã. No gabinete, inundado de sol, com vista para a estação de comboios do Rossio, o telefone de Miguel Honrado não para de tocar. O presidente da administração do Teatro Nacional D. Maria II instalou-se ali em janeiro de 2015, juntamente com a nova direção artística, liderada por Tiago Rodrigues. Um ano depois, mostra-se satisfeito: "Este edifício de fachada austera está bastante mais transparente. Tornar o Teatro Nacional mais permeável à cidade e ao país era um dos nossos objetivos."

Mesmo se as condições financeiras não são as melhores - desde 2010, os cortes feitos à indemnização compensatória (que é como se chama ao financiamento da tutela) chegaram aos 36%. "Neste momento a indemnização compensatória só cobre os custos de funcionamento do teatro. Os custos de produção têm sido oriundos do fundo de fomento cultural", explica o administrador. Mesmo sem um contrato-programa, que lhes permitiria trabalhar com segurança durante os três anos de mandato. Mesmo com falta de pessoal em alguns sectores - são 86 os trabalhadores fixos daquela casa. Mesmo assim, este teatro, que a 13 de abril comemora 170 anos de existência, recusa-se a ser um velhote.

Do fosso ao telhado

Quarta-feira. 11.15. Carlos Henriques tem 58 anos e trabalha no Teatro Nacional há 20. Raul Rebelo tem 30 anos e está ali há sete. Andam sempre juntos. E, juntos, conhecem os cantos e recantos daquele teatro como mais ninguém. Eles são os dois responsáveis pela manutenção do edifício. Ou seja, fazem "de tudo um pouco".

Poucos espectadores o sabem, mas o trabalho de Carlos e Raul é essencial para que nos sintamos bem quando vamos ver uma peça ao Nacional. São eles que definem a temperatura da sala. Para fazer a programação do ar condicionado vão assistir a um ensaio, avaliam o calor produzido pela iluminação e o impacto do número de pessoas que ali se vão sentar. "Não é obrigatório, mas se queremos que o trabalho fique bem feito é melhor", explica Carlos.

Equipamentos de segurança, incluindo extintores e reservatórios de água, também é com eles. Canalizações e esgotos (o teatro tem um sistema próprio de tratamento de águas, antes de estas irem para a rede de saneamento pública) é com eles. Reparar cadeiras é tarefa rotineira. Pinturas, dobradiças, fechaduras e todo o tipo de arranjos é com eles.

"É um edifício muito grande, com muito trabalho, temos de andar sempre em cima das coisas para elas estarem em condições", diz Raul. Em cima. Literalmente. Neste momento estão no telhado. Havia telhas para substituir e algerozes a serem limpos (as gaivotas são bonitas mas "fazem um pandemónio"). Lá em cima estamos mais perto do céu azul e sente-se o vento frio na cara. Carlos e Raul passeiam-se pelas alturas sem hesitações. "É uma questão de hábito", gracejam. "Venha, venha, vai ver que vale a pena." Referem-se à vista, fantástica, sobre Lisboa. Não é para todos. Só para quem não tem vertigens.

De portas abertas para o Rossio

Quarta-feira. 15.00. Carla Cerejo, 46 anos, não sobe ao palco mas é quase impossível ir ao Teatro Nacional D. Maria II e não a ver. Está logo à entrada, no átrio. É ela que nos vende os bilhetes e nos deseja "bom espetáculo". "Somos a imagem do teatro. Quando as pessoas entram aqui é connosco que falam, por isso temos de ser simpáticos e agradáveis e saber responder às suas perguntas."

Quaisquer perguntas. Seja sobre a história do teatro ou sobre o espetáculo que está em cena. "Normalmente vamos ver os ensaios gerais. As pessoas querem saber se é para rir ou para chorar, se é muito longo, se é aborrecido, perguntam-nos tudo." Até lhes perguntam qual o melhor sítio para ir jantar ou ouvir um fado. "Tentamos ajudar sempre que possível, não custa nada."

Em 2014 passaram por este teatro mais de 60 mil espectadores. O objetivo é que esse número aumente, mas não a qualquer custo. "Temos de definir o que é pertinente artisticamente e depois batalhar para fazer chegar isso ao máximo de pessoas, e não o contrário", afirma Tiago Rodrigues. O bilhete mais barato custa cinco euros, o mais caro 17. Às quartas e quintas podem sentar-se na plateia da sala principal por oito euros. "É muito mais barato do que ir ao futebol."

Roupas não podem ser só bonitas

Ouve-se fado no rádio da sala do guarda-roupa. Estamos no sexto e último piso do teatro, o piso onde só se chega por escada pois o elevador ficou no quinto andar. À volta da enorme mesa, entre linhas e agulhas, sentam-se Manuela e Lurdes e Aldina. São elas as costureiras que produzem os figurinos para os espetáculos do D. Maria II. Muitas vezes, de raiz, a partir dos desenhos do figurinista. Outras vezes, a partir de peças compradas ou da reutilização de peças antigas, que é preciso adaptar.

Aldina Jesus, 41 anos, é mestra de guarda-roupa. "O nosso trabalho é criar aquilo que o figurinista imaginou, de acordo com o corpo do ator e as exigências de cada espetáculo." Além de cumprirem uma função estética e narrativa, os figurinos têm de permitir o movimento e ser resistentes. "Às vezes as roupas rasgam-se. Já foi preciso pôr fita-cola ou agrafos na hora, durante a apresentação." E se houver muitas mudas de roupa é importante que as peças sejam fáceis de despir e vestir. "Em vez de botões usamos molas ou mesmo velcro", revela. Além disso, é também ali que se zela pelo guarda-roupa que está a ser usado e que é preciso limpar e engomar todos os dias.

Neste momento, o Nacional está a restaurar todo o espólio de guarda-roupa. São mais de oito mil peças de espetáculos desde 1978 (ano da reabertura do teatro depois do incêndio de 1964). A maior parte dos figurinos e dos cenários está num armazém enorme no Cacém, mas têm sido trazidos aos poucos e estão a ser recuperados e catalogados, numa colaboração com o serviço de documentação. "Temos uma fotografia do espetáculo ou os desenhos do figurinista e o objetivo é manter os fatos o mais possível fiéis ao original e prontos a ser usados a qualquer momento", explica Aldina.

Aqui, posto de comando

Quarta-feira. 16.30. A profissão de Carla é ser "braço direito". Oficialmente é o braço direito da direção do teatro, mas na verdade é o braço direito de muita gente ali. Carla Ruiz, 46 anos, é a diretora de produção. O seu gabinete fica situado na avenida de Roma - que é como os trabalhadores do Nacional chamam àquele corredor com gabinetes de vidro, improvisados, onde estão a produção, a comunicação e as várias equipas técnicas.

Numa das paredes do gabinete, Carla vai colocando os postais dos vários espetáculos da casa. Na outra parede, estão os mapas de planeamento para todo o ano em folhas A3. Mês a mês, sala a sala - a Sala Garrett, a Sala Estúdio, o Salão Nobre, o Átrio, a 1.ª Ordem, onde geralmente acontecem as exposições, a sala de ensaios do Piso 0, o Camarim 16, onde há ensaios, reuniões e até espetáculos, a sala de ensaios da Tóbis, "outros espaços " (quando há coproduções noutras salas) e as digressões (nacionais e internacionais). Imaginem como será planear isto tudo, garantindo que há salas para todos ensaiarem e se apresentarem, atores e técnicos disponíveis, e já agora, muito importante, orçamento para pôr isto tudo a funcionar. "É um autêntico puzzle", diz ela.

Um puzzle com muitas peças, confirma o diretor artístico: "O nosso mapa de atividades, que está sempre pendurado nas paredes, tornou-se um material de leitura bastante complexo. Está para as folhas de Excel como o Guerra e Paz está para a literatura, é preciso alguma paciência para ver todas as narrativas que estão lá dentro." E é exatamente assim que se quer. Esse é um dos pilares do projeto de Tiago Rodrigues: "Se há um teatro em Portugal que pode ter essa capacidade explosiva é o Teatro Nacional D. Maria II. Não basta que o teatro nacional seja um espelho daquilo que se faz num país, é preciso que seja também um motor."

E, finalmente, fazer a festa

Quinta-feira. 13.00. O diretor artístico, Tiago Rodrigues, 38 anos, está sentado na plateia, com um bloco na mão, a trabalhar. Acordou às cinco da manhã, em Bruxelas, onde esteve a apresentar o espetáculo By Heart. Ator e encenador, Tiago "doou" o seu repertório ao teatro e esse repertório circula agora pelo país e pelo estrangeiro com o selo do Teatro Nacional. A aposta, para já, parece estar a ser ganha. "Depois de um ano de atividade e de muita insistência na internacionalização, a fazer uma espécie de diplomacia cultural, podemos já dizer que um terço das receitas brutas do Teatro D. Maria II provém da digressão internacional. Mais de um terço, se incluirmos a digressão nacional. Isto era uma realidade que não existia."

O entusiasmo de Tiago Rodrigues é contagiante, dizem-nos nos corredores. Confirma-se. Ele fala dos espetáculos para a infância e juventude, do Projeto Eunice com que planeia levar o Nacional às vilas mais pequenas, dos novos criadores que têm oportunidade de se apresentar ali. "Estamos a fazer mais do que aquilo que teoricamente o nosso orçamento permite. É um projeto de abertura, de futuro. Fazemos uma aposta muito forte, cheia de esperança de que nos próximos anos ela será reconhecida e sustentada."

Quinta-feira. Antes do jantar. Tiago Rodrigues escreve um cartão a desejar "muita merda" a cada um dos intervenientes do espetáculo Os Doze Pares de França, co-produção com as Comédias do Minho que se estreia nessa noite. "Há tradições que são fundamentais e esta eu aprendi neste teatro. Tem que ver com um carinho particular que temos por cada pessoa que entra aqui."

As pessoas do teatro sabem, como ninguém, que todos os dias é um início

"As pessoas do teatro sabem, como ninguém, que todos os dias é um início", diz o diretor artístico. E assim é. A partir das 20.00 ele há de estar no átrio a dar as boas-vindas a toda a gente. Os atores, vestindo as roupas que Aldina confecionou, vão estar lá atrás a aquecer a voz. Carla venderá bilhetes de última hora. O diretor de cena assegurará que tudo está no seu devido lugar. A sala à temperatura ideal, tal como imaginaram Carlos e Raul. O encenador João Pedro Vaz dirá aos atores: "Divirtam-se." O público entra na sala. E o espetáculo começa. Tiago Rodrigues gosta de usar a palavra "fruição" para definir o que os espectadores vêm aqui fazer: "Não é mero consumo artístico, mas, com todo o questionamento - político, filosófico, artístico - que um espetáculo pode comportar, a fruição implica prazer. Estar no teatro é um ato jubilatório. É o pensamento em festa."

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