Filipa César sim, Oren Moverman nem por isso

A artista portuguesa Filipa César estreia-se nas longas-metragens com "Spell Reel" sobre a memória audiovisual da Guiné. Mete respeito, coisa que "The Dinner", com Richard Gere, não angariou na competição oficial.

Um festival de contrastes, é isso que dá piada à Berlinale. Tanto podem aparecer filmes de investigação e experimentais da artista portuguesa Filipa César como pastelões americanos de Oren Moverman. Spell Reel é uma das longas-metragens portuguesas do festival, apresentado na secção Fórum. Um radical olhar à memória cinematográfica da Guiné com a colonização portuguesa como pano de fundo. Quanto ao filme de Oren Moverman,The Dinner, descrito pelo próprio como "Trumpiano", é uma espécie de comédia de costumes sobre o atual racismo americano, uma nota de culpa da burguesia americana. Se o filme de Filipa César é um triunfo artístico que toma riscos, o de Moverman é um pequeno desastre com uma montagem em falso e mudanças de ritmo estranhíssimas, o típico caso de um filme que precisava ainda de ir à sala de corte - é longo e com inúmeros detalhes a mais.

No documentário português, César vai a fundo na pesquisa de material de arquivo, sonoro e de imagem, que testemunha o nascer de um olhar cinematográfico guineense, ao mesmo tempo que evoca o processo de libertação de Amilcar Cabral. Como se o cinema fosse uma fonte de testemunho. Apesar de ser um processo de pesquisa duro e com alguma solenidade de tese, Spell Reel faz muito bem em não evitar desvios para outras margens, muito provavelmente com licença poética para nos fazer olhar para pirilampos. É coisa muito bonita. Apenas ficamos com dúvidas se todo aquele design gráfico das legendas faz sentido. Seja como for, um filme urgente para ser debatido em Portugal, de preferência sem tabus. A artista plástica entra com esta obra na primeira divisão dos cineastas europeus.

Quanto a The Dinner, com Richard Gere, Laura Linney e Steve Coogan, pega num romance de Herman Koch e transporta-nos até à Washington dos nossos dias, onde um congressista tem de gerir com pinças um crime hediondo do seu filho e do seu sobrinho. Tudo se passa num restaurante de luxo num jantar com o seu irmão, a mulher e a cunhada. A catarse americana em tempos de racismo e falta de tolerância. O material de base daria um grande filme mas Moverman está mais interessado em testar uma linguagem de cinema experimental que já tinha começado no mais bem mais interessante Time out of Mind - Viver à Margem, que vimos o ano passado nos cinemas. Aqui cheglla a haver um tom pedante na descrição da superioridade moral das personagens. Sem golpes de asa e sempre em modo de indecisão estilística. Dá a ideia que os produtores do filme queriam algo tipo O Deus da Carnificina e o realizador e argumentista outra coisa bem mais abstrata. O declínio desta América sem moral merecia um filme melhor.

Por fim, nos corredores do mercado só se fala de uma visita curiosa: Ralph Fiennes, que veio a Berlim dar a cara pela sua próxima realização, uma cinebiografia do bailarino e ator Rudolf Nureyev. Neste mercado, tal como em Cannes, é comum as estrelas encontrarem-se com os distribuidores a comprar um filme ainda sem estar rodado. Este é o grande jogo das pré-vendas nos mercados de cinema....

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