Como cabe uma orquestra em quatro concertinas?

Os Danças Ocultas, que há mais de 20 anos tiraram este instrumento dos arraiais, editam Amplitude, com a Orquestra Filarmonia das Beiras, Carminho, Dead Combo e Rodrigo Leão

Foi uma coincidência que Artur Fernandes fizesse a tropa com Rodrigo Leão. Que na camarata, sentados no primeiro andar do beliche, o primeiro tocasse flauta - "nem sempre dava para levar a minha concertina" - e o outro "um Casio pequenino", nem tanto. Artur é uma das quatro concertinas do grupo Danças Ocultas. E porque Rodrigo Leão o apresentou a Gabriel Gomes (o acordeão dos Sétima Legião), e porque ele entregou "ao Gabriel uma cópia daquilo que vínhamos fazendo", em 1996 saiu o primeiro álbum, Danças Ocultas.

Passaram-se vinte anos. Encontramo-nos numa pastelaria de Lisboa. Artur Fernandes veio de Águeda, de onde os quatro são naturais, e onde, além dele, também Filipe Ricardo e Francisco Miguel ainda vivem. Filipe Cal, o único a viver em Lisboa, também está. Falamos de uma fotografia que Augusto Brázio lhes tirou em 1997 na serra do Caramulo, da série que fez a capa do seu segundo álbum, Ar (1998).

Vinte anos e há um novo disco. Amplitude, editado ontem, tem três "estrangeiros" (ou nem tanto). Carminho, Dead Combo e Rodrigo Leão. Estes e - quase sempre, à exceção de Esse olhar - as 22 cordas da Orquestra Filarmonia das Beiras. As canções foram gravadas na Casa da Música, Porto, e no Centro Cultural de Belém, Lisboa, em maio do ano passado.

Amplitude. "Tem que ver com aspetos em que o âmbito se alargou. Desde logo, chegar a um público muito maior com estes espetáculos. Por outro lado, uma questão musical: abrir a amplitude de músicos a tocar. Foi um espaço que se abriu desmesuradamente na partilha da nossa música. Foi uma ampliação do que nós fazíamos já."

Contudo, quem ouve as suas quatro concertinas sabe - mesmo sem saber explicá-lo, como eles o fariam depois - que naquela música já cabia uma orquestra. "Se olhares para nós, somos um quarteto, o que nós fazemos é música de câmara. Podes identificar quem faz as melodias, o baixo, o ritmo, à semelhança do que se passa numa orquestra de cordas", diz Filipe Cal.

Muito aconteceu até chegarem a este ponto em que correm o mundo e em que, por terem tocado O Diabo Tocador (cuja letra vem de uma canção tradicional recolhida por Michel Giacometti) com Carminho, dizem dela que é "uma artista notável". "Ela faz aquilo à primeira", diz Filipe. "E o fado é feito em dois compassos apenas, o binário e o ternário. Esta música tem cinco tempos, é uma coisa completamente esquinuda", completa Artur. Escolheram-na porque precisavam de uma voz "forte" para aquela canção de trabalho duro.

Até chegarem, então, ao tempo em que os Dead Combo tocam Esse Olhar, que "é a cara destes tipos", diziam os Danças Ocultas ainda antes de os convidarem. Muito aconteceu, então, até ao tempo em que Rodrigo Leão volta a esta história para tocar na Dança D"Alba e na sua própria Tardes de Bolonha, que as quatro concertinas já tinham tocado com ele na Aula Magna, em Lisboa.

E quando se diz que muito se passou, fala-se de três rapazes em Águeda, dos 14 aos 15 anos, e do seu jovem professor de concertina, de "21 ou 22" no Conservatório de Música. Estávamos em 1989. "Éramos todos crianças. Eu era uma criança talvez um pouco mais velha. Deixámos de ser professores e alunos e passámos a ser colegas artísticos. Houve um período de exploração: o que é que este instrumento pode fazer?", recorda Artur. Queriam fugir à música tradicional. "Transcrevemos música clássica para este instrumento, como a abertura da ópera Aida, de Verdi, a ária da Suite em ré de Bach, e alguma música um pouco ao acaso."

Depois, eram quatro pessoas, cada uma com a sua música nos ouvidos. "Eu oiço mais a chamada World Music, árabe, jazz, música latino-americana", conta Artur. "O Chico é muito mais ligado à tradição, ainda toca em ranchos folclóricos. Eu gostava muito daquelas coisas mais urbanas, Joy Division, Bauhaus. E depois como havia de pegar naquele instrumento e gostar daquela música? Lá fomos construindo compromissos", conta Filipe.

Para não cair no "popularucho"

"Nós tocamos um instrumento muito conotado com uma música que nem sempre é bem tocada, nem sempre é bem interpretada, que nem sempre é bonita. Começámos um bocadinho em oposição ao que se fazia neste instrumento. Uns estavam mais a tentar fugir, outros estavam mais ligados à tradição. "Também não pode ser tão triste, tão melancólico, este é um instrumento ligado à dança", dizia um."A dança, essa passou a chamar-se oculta, porque era "música para uma dança ainda não associada", afirma Artur. A que chegou, foi do que de maior se viu no país. Foi a do Ballet Gulbenkian e da Companhia Paulo Ribeiro, com quem colaboraram. Falamos ainda, porque era difícil contorná-lo da música brasileira Dom La Nena e da colaboração dos Danças Ocultas com o violoncelo desta. Arco, de 2015, é o resultado desse trabalho.

"Se me perguntas o que mudámos mais nestes 20 anos, eu acho que são estas balizas, que já estão muito interiorizadas. Não são radicais, mas nem precisamos de dizer: "Tenta lá mudar que isso já está um bocadinho no quase popularucho." As músicas não são só as notas, é a forma como a tocas também. Uma música não é popularucha só pelas notas, é muito pela atitude, pelo que queres dizer, o discurso."

Quando, na gravação do primeiro álbum, a música Dança I ficou terminada, Tó Pinheiro da Silva, que tratava do som, disse: "Meus senhores, temos disco." Há vinte anos que alguém o diz.

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