"Bigre", a comédia que derrota a solidão

Melodrama burlesco pela companhia francesa Les Fils du Grand Réseau, abre hoje, às 22.00, o 34.º Festival de Teatro de Almada.

Agathe L"huiller é a cicerone de serviço neste fim de tarde. Já tem tudo a postos para vestir a pele da "desengonçada, desajeitada, insegura e frágil Agathe que ainda acredita no amor". Ela é uma das três caricatas personagens de Bigre, melodrama burlesco que tem vindo a conquistar a França desde a estreia há três anos, em Brest - acaba de receber o importante prémio Molière 2017 na categoria de Melhor Comédia - e que aterra, pela primeira vez, em solo internacional, como espetáculo de abertura do 34.º Festival de Teatro de Almada, hoje, às 22.00, no palco da Escola António da Costa.

Três vidas, três personagens, tecidos nas suas rotinas, hábitos e pequenos dramas. Um geek grosseirão obcecado com limpezas, uma loira carente e trapalhona, um solitário forreta demasiado "esticadinho", driblam o quotidiano imperfeito de defeitos e feitios, e qualidades (sempre!) que tem tudo para nos tocar de raspão. Qualquer semelhança com a realidade não é pura coincidência. Se estes três vizinhos parecem talhados para cavalgar aos tropeções na espuma dos dias, igualmente aspiram a sacudir cada gesto, cada escolha e cada singela catástrofe, num brinde à vida, ao amor, à esperança.

Sem se deixarem tolher pelo insólito, o que parece quase impossível, é então que retornam uns aos outros porque o riso lhes derruba a solidão, paredes meias com o sonho estreitado e atravancado nos "chambres des bonnes" que são as suas casas, os seus portos seguros, onde o afeto das almas busca o amanhecer novo das suas vulgares vidas. Cá chamaríamos águas-furtadas ou estúdios; por ali, objetos voam, corpos planam, num cenário intimista como se interpretasse uma quarta personagem, trabalhada ao ínfimo detalhe, sem margem para improvisações. É lá que vão acontecer festas, incêndios, tempestades, entupimentos e inundações, uma teia de imprevistos, num caos atordoador, onde a fantasia também conversa à janela e toca à campainha da porta ao lado.

Risíveis e irresistíveis, os três anti-heróis espalham, durante uma hora e 25 minutos, e sem um único diálogo, o efeito colateral da arte em forma de riso. E conseguem-no espetacularmente. Foi assim que aconteceu, nessa noite de casa cheia no Théâtre Sènart, em Lieusaint, a meia hora de Paris, onde, cá fora, depois da peça, muitas gargalhadas ressoavam ainda pelo foyer. Afinal, rir é mesmo o melhor remédio.

Chaplin, circo e burlesco

"Vai ser a nossa primeira vez aqui esta noite, acho que já está esgotado!", diz Agathe L"huiller, a atriz francesa, de 35 anos, que tem estado a ensaiar para um casting enquanto aguarda o DN, que foi espreitar este espetáculo, antes de se apresentar em Portugal, um dos 44 que a partir de hoje e até 18 de julho fazem parte do Festival de Teatro de Almada.

No hall de acesso para os camarins, há bocados de papel colados à cartolina no chão e, afável e descontraída, recebe como se estivesse em casa. Contará que o teatro foi a casa que sempre sonhou ter, desde miúda, no tempo em que via a avó, às quartas-feiras, "representar com tanta paixão" no grupo amador local. E, embora tenha ingressado primeiro em Literatura Francesa, a entrada no Conservatório Nacional de Arte Dramática de Paris foi o desfecho do seu final feliz. "Desde pequena que sempre quis ser atriz. A minha avó adorava representar, eu adorava vê-la a atuar, mas os meus pais estavam reticentes a uma carreira no teatro, acabei por ir para a universidade, o que foi ótimo, aprendi muito, foi um passo necessário no meu percurso", conta, referindo que, em simultâneo, frequentava aulas de representação ao fim de semana.

Explica que Bigre está em cena com duas equipas de atores, que se revezam conforme as necessida-des e disponibilidades de cada um. Agathe também faz anúncios de publicidade na rádio, entre outras colaborações com várias companhias. "Eu, o Pierre e o Olivier somos o trio original de Bigre, e vamos os três a Portugal", elucida. Bruno Fleury, Jonathan Pinto-Rocha e Eléonore Auzou-Connes completam a ficha técnica do elenco alternativo. "Isto é a parte boa de ser a única mulher da peça, tenho um camarim só para mim. E os coelhos também!", ri-se. Coelhos? Bom, já lá vamos.

No momento, interessa saber como se prepara Agathe física e psicologicamente para encarnar a hilariante vizinha recém-chegada de malas e aquário na mão que lhes vai virar a vida do avesso, a eles, aos dois parceiros condóminos. Desenrola um colchão de ginástica. "Tenho de aquecer antes de entrar em palco, é uma peça com uma grande exigência física, o espaço é muito apertado, não pode haver um objeto fora do lugar", clarifica, enquanto vai esticando a franja loura postiça, à medida que lembra o ponto de criação do espetáculo.

Para começar, o nome. "É uma expressão, exclamação, talvez usada pelas pessoas mais velhas, do estilo, isto não está a acontecer, porque esta é a história de três pessoas que estão sempre a falhar, é inacreditável tudo o que lhes acontece!". Agathe soletra a palavra "Caramba" para percebermos se soa ao mesmo em português. E como definir as originais personagens? "Eles são uns lutadores, falham mas continuam, não desistem, às vezes choram, mas têm de continuar, é por isso que são tão tocantes, são como nós, conseguimos reconhecer-nos neles, as pessoas vêm dizer-nos isso mesmo!", ilustra a intérprete.

As festas no chambre de bonne

Quando Pierre Guillois, autor, encenador e também ator na peça lhe explicou a ideia, há três anos, e também a Olivier Martin-Salvan, o terceiro elemento do trio, Agathe pressentiu o "grande desafio".

O guião foi "escrito" diretamente no palco e, segundo conta o próprio encenador, durante o primeiro ano de ensaios com interrupções, ajudou a câmara que acompanhou as sequências que os três iam testando. Valeu-lhes as suas próprias experiências de vida e a inspiração em Charlie Chaplin, no burlesco e até nas artes circenses, de acordo com a protagonista. "É um espetáculo que se consegue perceber muito bem sem as palavras, é muito teatral, vai para além da mímica, inventamos situações através de risos, gestos e expressões faciais, é como expressar sentimentos apenas através de muitos sons, é totalmente percetível pelo auditório porque é tudo muito autêntico e verdadeiro", sintetiza a atriz.

A originalidade é, aliás, o porta-estandarte de Bigre e segundo o próprio encenador, a fórmula do sucesso da peça. "O facto de não haver diálogos permite que todos possam compreender, desde os jovens aos mais velhos (...) juntos podem ver este espetáculo sem as barreiras do texto", explica Pierre Guillois.

Ele próprio viveu num chambre de bonne, como conta ao DN, o que lhe serviu, à época, para poder trabalhar em teatro em Paris com uma renda barata. Muitas dessas vivências acompanham a história. "Lembro-me de fazermos uma festa com muita gente, tínhamos de usar o corredor para dançar porque não havia espaço!". Agathe dá outro exemplo. "A cena do telhado em que estou a apanhar sol é inspirada na minha mãe que se virava sempre para a luz no teleférico, quando íamos esquiar nas férias, eu era miúda e achava aquilo um pouco esquisito!". O ridículo também é a força motriz da ação que finta o derrotismo, segundo Pierre Guillois: "É uma peça sobre a solidão e as lutas da vida que podem ser triviais ou pouco gloriosas mas absolutas quando se trata de amor (...). As três personagens pressentem que não as aguarda um grande destino, ainda assim lutam como titãs, batem-se pelo melhor e pelo belo nas suas vidas, são corajosas, levantam-se".

De volta aos camarins, são várias as tatuagens que Agathe irá colar nas pernas e braços antes de subir ao palco. "Suponho sempre que ela teve vários amores falhados e tatuou-os pelo corpo - quem não conhece alguém que fez isso? - ela também gosta de se maquilhar muito, talvez seja mais um sinal de insegurança, neste ponto não tem nada a ver comigo, não costumo usar pinturas", deslinda a atriz, imaginando possíveis cenários para a sua figura. Se ela ainda acredita no príncipe encantado? "Talvez sim, mas com estes dois não se safa (risos)". Até o peixe no aquário sofre o desastre de Agathe. "Ela fica tão atrapalhada com o detergente, nem o seu animal de estimação escapa, não tem mesmo sorte nenhuma! Vamos até ao palco?", interroga, enquanto se dirige para o elevador.

O camarim dos coelhos

"A Laura Léonard [cenógrafa] percebeu perfeitamente qual era a nossa ideia para o cenário", comenta Agathe, enquanto nos abre a "porta" para os três espaços contíguos de cada vizinho. Há o assético e branco, com uma sanita que responde aos comandos do seu dono - o geek high-tech obcecado com a limpeza que afoga as mágoas em sessões de karaoke - o do meio, de aspeto meio miserável a abarrotar de pequenos haveres, à imagem do seu proprietário, e o terceiro, o de Agathe, cujo cor-de-rosa kitsch faz lembrar uma casinha da Barbie. "A minha casa é gira, não é?", questiona, enquanto destaca a moldura duma caveira floreada que talvez denuncie um lado mais sombrio da personagem.

Atrás das tábuas do palco, a parafernália é mais que muita. Holofotes, comidas, animais, caixas, roupas, antenas, colunas, pinturas. "Esta peça até tem efeitos especiais!", diz Marion Le Roy, a assistente de cena que também nos mostra os coelhos pretos já preparados para entrar, com camarim reservado para estarem com a maior tranquilidade possível. A tabuleta está à porta. "Camarim dos Coelhos. Não incomodar". Impossível não conter o riso. E o peixe inquilino também, num aquário bastante maior do que lhe calha em sorte com a desastrada dona de Bigre. No final do espetáculo, as três vedetas animais irão a palco receber os merecidos aplausos, entre vivas sonoros do público. Quanto aos atores humanos, esses irão diretamente para o duche. É só o que lhes resta, caramba! E mais não podemos dizer.

A jornalista viajou a convite do Festival de Teatro de Almada

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