Uma centena de diapositivos projetados sobre uma superfície branca, como se fossem outras tantas telas feitas por Ângelo de Sousa mas que existem apenas durante sete ou oito segundos até cederem a vez ao próximo slide. A obra chama-se Slides de cavalete (1978-79) e, num pequeno espaço do hall de acesso ao primeiro andar, abre a exposição La Couleur et le Grain Noir des Choses ontem inaugurada na delegação francesa da Fundação Calouste Gulbenkian..Jacinto Lageira, que comissaria esta primeira exposição monográfica de Ângelo de Sousa (1938-2011) em França, justifica esta escolha como a primeira das quase 60 obras apresentadas: "As pinturas que vamos ver lá dentro têm a ver com estas formas geométricas. É uma excelente entrada na obra do artista porque se trata de um trabalho sobre a cor e a luz que tem tanto de pictórico como fotográfico". Professor de Estética e História de Arte na Sorbonne, Jacinto Lageira deixa desde logo antever que pintura e fotografia são os trabalhos mais representados nesta mostra dedicada ao "artista da Foz com dimensão internacional", como Miguel de Sousa faz questão de apresentar o pai. Ele que também se dedicou à escultura, ao vídeo e às instalações..Aliás, a escolha das obras a apresentar foi precisamente um dos problemas com o qual se debateu o comissário quando há cerca de dois anos começou a preparar esta exposição, em estreita ligação com o filho único do artista. "O Ângelo produzia muito e em vários suportes", diz. "Só por duas vezes apresentou trabalhos em Paris, em exposições coletivas, em 1971, com Os Quatro Vintes [Armando Alves, Jorge Pinheiro e José Rodrigues] e em 1976 [numa mostra organizada por José-Augusto França]. Como o seu trabalho é desconhecido do público, escolhi obras desde o final dos anos 1960 até 2004/5, para dar a descobrir diferentes aspetos do seu trabalho". Mas, confessa, "como ele tinha uma quantidade gigantesca de produção, esta é uma pequena visão do seu trabalho"..Assim que abre a porta de acesso às cinco salas em que está organizada a exposição, surgem as grandes telas, talvez as mais conhecidas da sua obra, não figurativas, em que a cor é a grande protagonista. Na maioria, cores fortes, vivas, que monopolizam a atenção..À esquerda, e antes de se continuar o percurso, uma pequena sala "dedicada a um tema que deu origem a vários trabalhos do artista: a mão". São oito fotografias, de uma série maior, da mão esquerda do artista. "Estas são a cores, mas também há a preto e branco", adianta. As ampliações de diferentes partes da mão tornam-na quase irreconhecível, em algumas imagens, quase irreal, noutras..Para além de apresentar umas das constantes do trabalho de Ângelo de Sousa, as séries, Jacinto Lageira aproveita ainda para mostrar que os mesmo temas são explorados pelo artista em diferentes artes: desenho, pintura, fotografia, neste caso concreto. Mas também em vídeo e escultura como se verá mais à frente, numa vitrina onde são apresentadas pequenas esculturas e maquetes, em alumínio ou aço, pintadas ou não..Na quarta sala, Pequenas Esculturas Orelhas (1975) mostra de forma muito clara o lado mais experimental do trabalho do artista, nascido em 1938, em Lourenço Marques (atual Maputo), e que com 17 anos chegou ao Porto para ir para a faculdade, tendo-se aí radicado. No fundo, como aponta Jacinto Lageira, "são copos de iogurte, pintados, que foram sujeitos ao calor e ganharam estas formas que se assemelham a orelhas"..Na última sala, a exploração continua nos três vídeos apresentados em que ele "andava e filmava com esta lentidão de cinco imagens por segundo [em vez das 24 habituais], dando uma visão quase abstrata do que filma", nota Jacinto Lageira..E o lado mais documental do seu trabalho fotográfico preenche o fundo de uma das paredes, com 20 fotografias da série Umanistas - "sem "h", como em italiano, não é o humanismo no sentido tradicional". "Esta é uma pequeníssima escolha de entre mais de um milhar", diz. "Por cada uma destas fotografias, temos de imaginar que há uma série de pessoas à janela, a subirem ou descer rampas, crianças na rua, pessoas a trabalhar, muitas delas tiradas a partir do seu ateliê". Oito delas vão ser publicadas ainda este mês em outros tantos Cadernos de Imagens, pela Éditions Loco, em França e pela Tinta da China, em Portugal..A terminar, Epifanias, uma série de oito fotografias, a cores, de pequenos animais mortos, já em decomposição. "O Ângelo interessava-se por todas as coisas, por mais banais que pudessem ser: um cabelo, uma corda da roupa, o cotão das casas". A maior ausência desta mostra são as esculturas de grande dimensão, por uma questão de espaço. Mas Lageira tem esperança que esta exposição desperte o interesse de outras instituições e, talvez, venha a ser possível apresentar essas esculturas..A jornalista viajou a convite da delegação em França da Fundação Calouste Gulbenkian