"Ainda há gente que quer matar-nos por causa do nosso avô António Ferro"

A descendente do homem que fez a revisão do perfil de Portugal nos anos 1930 e 40, dando à luz a imagem de Salazar pobre e honrado através de umas "entrevistinhas", também desenhou o país com a reinterpretação de um conjunto de mitos populares. A cerveja Sagres, o Galo de Barcelos...

Antes de Rita Ferro dar o verdadeiro início ao seu romance Um Homem por Amar, tem alguns atrevimentos na badana, nos avisos e na introdução. Diga-se que o livro é sobre António Ferro, seu avô e o maior propagandista de Salazar e de Portugal, país a que tentou dar um perfil identitário nas décadas de 1930 e 40. O atrevimento da badana é o de referir que António Ferro foi, entre editor, jornalista e ministro, "colaborador do Estado Novo", palavras que espantam pela clareza; entre os avisos, o de esta recriação expressar apenas a perceção da autora e não a da descendência; na introdução, o de tratar por tu o leitor: "Espero que gostes." Uma "modernice", confessa.

Como é um romance, as modernices continuam, pois lá para o fim coloca António Ferro a comentar o seu próprio funeral: agradecendo aos amigos, apontando a ausência do ditador no cemitério, bem como a presença de falsos amigos, como é o caso de Eduardo Malta: "Ele vai ao funeral e diz coisas maravilhosas à minha avó, só que ao lermos o que escreveu sobre o meu avô, ficamos espantados!"

É aí que está uma outra modernice deste romance, porque, após 300 páginas de literatura, entra em cena a parte investigatória. Ao longo de mais de 200 páginas, com a reprodução de várias cartas e documentos que mostram a verdade: a dos amores extraconjugais, a dos amigos que o traíam e a confissão de uma personalidade deprimida e suicida no final da vida. Documentos inéditos, como são muitos dos que pertencem ao espólio da Fundação António Quadros, gerida pela irmã, Mafalda Ferro, ou os da colaboração do investigador Manuel Lessa.

Para Rita Ferro, as "cartas incluídas no livro consubstanciam o que é dito e mostram que há pouca fantasia". Explica que ter optado pelo romance em vez de uma biografia não foi um acaso: "O romance é uma invenção que concorre com uma biografia e vence-a, além de que as cartas que estão no fim suportam a ficção." Vai mais longe no esclarecimento: "Nunca faria uma biografia, pois não tenho jeito ou sentido de rigor para descobrir a nuance entre a realidade e a imagem que possuo do meu avô."

Daí que o resultado seja uma narrativa no romance que desobedece ao ritmo da cronologia e seja "uma impressão que vem do coração, como é a de outros mortos: Jesus Cristo, por exemplo, não era louro e de olhos azuis. Como escritora, uso 100% de imaginação. Primeiro, está a criação, e só depois vem a investigação, de cada vez que necessito de uma prova para sustentar o que escrevi."

Tudo o que está no livro é verdade?

Assenta tudo em factos verídicos, mesmo que algumas coisas sejam romanceadas. Defendi-me com a palavra romance na capa para não virem dizer-me "ah, mas isto não foi exatamente assim". Pois não, tive de recriar à minha maneira.

Não foi por desconhecimento dos factos mais concretamente?

Preferi ficcionar, até porque acho que a ficção chega mais rápido à verdade. Pode parecer estranho mas é assim.

Então, os leitores podem acreditar no que está escrito no livro?

Há uma certa hibridez que pode despistar as pessoas, mas também é interessante as pessoas debruçarem-se nessa dúvida sobre o que é ou não verdade. Não sei se terei esse direito enquanto escritora, mesmo que possa dar a garantia de que a maior parte é verdade.

É a sua visão, não a de todos os descendentes?

A minha irmã vê de forma diferente. Mostrei-lhe as primeiras páginas e disse-me: "O avô não era assim!" Cada pessoa tem um avô ou um pai diferente, esta é a minha imagem do avô. Que, curiosamente, foi-me transmitida muito mais pela minha mãe do que pelo pai, ou da avó, que era a mais secreta.

Que tinham uma relação complexa.

Sim, uma relação de braço-de-ferro e com histórias muito interessantes. Por exemplo, uma vez Salazar desafiou a minha avó para um cargo e o meu avô presumiu que ela detestaria, ou provavelmente ele não gostaria de que o desempenhasse, e respondeu por ela. Estavam num comboio algures entre Lisboa e Paris e a minha avó apeou-se como protesto, mandando o avô seguir viagem só por se ter atrevido a responder por ela. Eram duas liberdades irredutíveis, grandes companheiros e enormes amigos.

Bastante diferentes, no entanto.

O avô era um homem profundamente sensual, como se percebe no romance, e a avó uma pessoa de um secretismo absoluto. Radicalmente diferentes, um Sagitário e um Capricórnio, o que dá sempre uma luta de poder. Diria que era mais forte e magnética do que o avô, porque tinha uma autoridade que nem precisava de ser demonstrada. Ele respeitava-a e teria algum receio. O que talvez tenha afetado a sua relação. O meu avô era um sensualão, que sofreu toda a vida com a secura da mulher. Ele parte, penso, sem ser amado.

Nunca pensou escrever um "romance biográfico" sobre a sua avó?

Sim, mas estou com medo de que achem que agora descobri um filão. Primeiro falei da minha mãe, depois do avô e depois da avó...

Mesmo estando esquecida?

Não está arredado do meu pensamento. No entanto, este não resulta de uma ideia minha, foi do João Amaral, da Leya, que sistematicamente ia-me tentando. Foi o livro mais difícil que fiz e receio a apresentação, porque ainda tenho aquele sentimento de menina da catequese que pensa que estão a ver-nos e o meu avô vai aparecer para me ralhar por causa desta devassa.

Estranha-se que tenha colocado na badana que era "colaborador do Estado Novo"...

Não foi intencional e ninguém me chamou a atenção para o evitar. Seria melhor colocar colaborador de Salazar? O meu medo é tal que achem que estou a defender o meu avô ou a descolá-lo de Salazar que acabo por usar expressões que não esgotam muito a ideia. Não vale a pena mitificar, foi um colaborador do Estado Novo.

Há biografias de António Ferro em que é olhado como produto do que Salazar pensava. Concorda?

Existem muitas que não li, que são apenas de gente que o odeia e num tom que enerva a família.

Foi difícil escrever certas partes?

Não tenho pudores nem quero sigilos. Até dizem que me exponho de mais... Custou-me imenso porque há a sensação de que Portugal vai cair-me em cima seja qual for o livro que faça sobre ele. É um livro que não vai ser querido por ninguém, o que é péssimo, mas ao mesmo tempo liberta-me de todos os complexos e reticências. Escrevi o que me apeteceu e acabei por gostar.

O título, Um Homem por Amar, é um pedido que faz aos leitores?

Estou antes a dizer que foi um homem que ficou por amar. Pode ter essa dupla leitura, mas o que espero é que quem o odeia fique com uma opinião mais benevolente. Para mim, a tragédia do meu avô é mais ainda a de acreditar que foi um homem que ficou por amar na sua vida pessoal. Creio que terá tido esse desgosto em vida, mesmo que tivesse na infância carradas de afetos da família, o que o deixou impreparado para cinismos. Poderá ter sido a ignição para o hiperativo que foi.

Pode dar exemplos?

O grupo da [revista] Orpheu, que não o amou. Fica fascinado, encontra afinidades, mas não escolheria o termo amizade para eles [Fernando Pessoa ou Almada Negreiros, por exemplo].

Referiu pessoas que odeiam Ferro. Ainda os há em 2016?

Sim, ainda há gente que quer matar-nos por causa do nosso avô António Ferro. A minha irmã recebeu uma carta de um homem enfurecido a dizer que devíamos todos morrer, porque o meu avô tinha sido a coisa pior que tinha acontecido a Portugal. Uma vez fui falar a presos sobre livros e estava lá um preso culto que conhecia o meu avô. Disse-me logo "Ah, és neta do fascista". Expressava todo o ódio possível, bem como o preconceito que nos chegou até hoje. Sinto-o, particularmente.

Discorda quando ouve essa designação de fascista?

Por uma questão de rigor, o salazarismo não foi fascismo. Fascista tem uma conotação sanguinária que não aconteceu em Portugal. Salazar foi um menino de coro ao pé de todos esses. Enerva-me que a esquerda venha sempre com esse jargão para desviar as atenções dos seus próprios ditadores, que foram muito piores.

Mas é Ferro quem cria toda a imagem de um regime e de Salazar?

Não nego, também por causa das célebres entrevistinhas. Enganou-se com Mussolini, mas com mais ninguém. Depois, tanto ele como Salazar rapidamente descolaram quando perceberam que era louco.

Como explica o "desterro" de Ferro para Berna, que detestou. Nem Roma foi do seu agrado...

Não, porque já estava deprimido. Uma depressão não diagnosticada, com fantasias suicidas, como se percebe no romance.

A depressão é menos conhecida.

Não se tem essa noção, mas há uma carta de suicídio no livro. Quanto ao desterro, não é essa a realidade. A Salazar não lhe apeteceu que António Ferro continuasse a ser tão saliente depois da Guerra e Caeiro da Mata já se tinha decidido por Marcello Mathias. Pode ter sido a decisão sensata, mesmo que tenha sido a sua morte.

Além dos que publica, há mais documentos inéditos sobre Ferro?

O maior de todos, o diário dele em vários volumes, os que se salvaram do incêndio. Infelizmente, ainda não foram publicados pois faltam meios financeiros. Não houve dinheiro como aconteceu para a Fundação de Mário Soares... Esse livro será feito, mas não há data.

Quanto mais gosta de António Ferro menos gosta de Salazar?

É verdade, até porque nunca gostei de Salazar. Nem o meu pai gostava de Salazar, acreditou muito mais em Marcelo Caetano, porque achava que estava tudo podre. Eu também herdo essas impressões.

No livro, conta que António Ferro dizia ao pai que as pessoas não estão interessadas na vida como ela é. Por isso a opção pelo registo?

A ficção chega mais perto do que uma descrição literal. Estou convencida de que, apesar de ter romanceado um pouco, contém exatamente o que penso do meu avô. E não o poupo no livro nem digo que tudo é bom.

Acha que o retrato fica fixado?

As pessoas têm sempre opiniões diferentes e não pretendo esgotar uma versão do meu avô. Apenas quis dar o meu contributo, porque isto obedece a um ato de amor. É o avô que eu construí a partir das informações que fui tendo dentro e fora e casa.

Como foi fazer a investigação?

Não fiz. Mais do que ser uma ficção, quero responder a algumas difamações que fazem. A última, que era homossexual, quando era louco por mulheres. É um livro que parece inocente, mas nada tem disso porque responde a muitas questões.

Como vai ser a receção?

Ao princípio estava apavorada, agora os medos acabaram.

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