A Origem das Espécies contada aos miúdos

"Origem das Espécies", a partir do livro do livro com o mesmo nome de Charles Darwin, mostra às crianças a viagem de 5 anos do cientista. Está no Teatro D. Maria II até 18 de dezembro.

Carla Maciel, Crista Alfaiate, Marco Paiva e Paula Diogo. Quatro atores tomam conta do palco da sala Garrett do teatro D. Maria II para a Origem das Espécies, uma peça para crianças a partir dos seis anos que resume em cerca de 60 minutos o percurso de um homem que revolucionou a ciência, o britânico Charles Darwin. Sem parecer uma lição.

O espetáculo começou nos livros. "Usámos dois livros-chave", começa Marco Paiva. "A Origem das Espécies, mais científico, mas depois acabámos por nos centrarmos mais na Viagem do Beagle, que reúne os diários de Darwin na sua primeira viagem", conta o ator, referindo-se aos cerca de cinco anos passados a bordo do navio durante a sua segunda viagem exploratória.

"Acabou por ser um um livro primordial, que antecedeu A Origem...,", continua Marco Paiva. Dois terços da viagem foram passados em terra recolhendo amostras de fauna, flora e minerais. Deu ferramentas para perceber os percursos do britânico, e as suas diferentes características. Patagónia, Andes, Cabo Verde e as ilhas Galápagos, onde a Teoria da Seleção Natural começou a desenhar-se. "O espetáculo acaba por ser mais uma travessia que nós fazemos", diz Marco Paiva. Percebe-se.

A primeira parte é uma sucessão de passos (mais rápidos, mais lentos), de expressões (de surpresa, de dificuldade, de temor), de adereços exóticos (gaiola, máscara, martelo) que dão uma impressão real dos sítios por onde foi passando o cientista. As gabardinas e os chapéus de chuva dos protagonistas ajudam a criar o ambiente. É uma parte coreográfica (criada com o apoio de Vânia Rovisco), e transporta os pequenos espectadores para os locais onde Darwin passou, pontuados pela música original de Marco Pernadas. E sem falas dos atores.

"Sempre quisemos que não houvesse muito texto. Queríamos um espetáculo mais baseado nas sensações. Não sabíamos se era o princípio ou o fim, mas como no livro ele descreve tantas sensações e paisagens e como vinha do episódio do Cosmos, queríamos uma coisa mágica, como foi para ele", diz Carla Maciel. "Para ele era tudo superlativo", completa. Marco Paiva pega nesta ideia e acrescenta: "O espetáculo é para crianças com mais de seis anos e para uma criança que vem pela primeira a uma sala como esta, ver um espetáculo que apela mais a este lado sensorial é também uma mais-valia". O ator acredita que o veem no palco pode ser replicado pelas crianças quando sai do D. Maria II.

Dentro do laboratório

Na segunda parte, os atores chegam a essa espécie de laboratório, de investigação e inventariação de espécies, prontos da contar a teoria da seleção natural, como o cientista a desvendou à Humanidade - a teoria de que os seres vivos se adaptam ao local. Aqui, com quadros interativos e vídeo à mistura.

"Achei que podia ser interessante contar a história e a teoria agora, em que as crianças têm outro tipo de informação", nota Carla Maciel. Fala-se de seleção natural, mas também da imprevisibilidade, sem tentar ser pedagógicos.

"Não há a tentativa de criar uma aula", assegura Marco Paiva. O laboratório é, mais uma vez, "um espaço de jogo". Em que se brinca com as dimensões dos atores, com palavras, com a dificuldade em escrevê-las. Em que se brinca, também, com uma pequena coleção de dinossauros em miniatura. E em que se fala de George, a tartaruga, descoberta em 1971 nas Galápagos por um malacologista húngaro.

Última da sua espécie, George foi transferida para o Charles Darwin Research Station para sua proteção e por lá viveu até morrer, em 2012. Com ela, extinguiu-se oficialmente a subespécie Pinta. Em palco, ela é evocada através de uma boia que o ator Marco Paiva enche. "É outro objeto com que as crianças se podem relacionar", diz.

Como o espetáculo começou

Como nasceu o espetáculo, desenvolvido a quatro mãos pelos atores? Carla Maciel explica a origem, não das espécies, mas da peça, após o ensaio para a imprensa, na segunda-feira, a dois dias da estreia. "Este projeto começou há um ano. Vi uma série que se chama Cosmos e o segundo episódio era sobre a origem da vida e pensei fazer um espetáculo. Já tinha feito um para bebés e queria fazer um para uma faixa mais acima. Isto também vem um bocadinho de ter filhos, das questões que eles vão colocando", explica. Depois, convidou os outros atores para criarem o espetáculo.

Outro propósito da exposição, diz Carla Maciel, era mostrarem o lado humano da descoberta. Na transição entre a viagem e o laboratório, surgem os dados biográficos. "Como é que ele era em criança? Se calhar só descobriu o que descobriu porque sempre foi uma criança curiosa e obstinada", nota a atriz.

Charles Darwin nasceu em 1809, em Inglaterra, e "era um rapaz muito curioso", ouve-se em voz off. Começou por se interessar por medicina, depois por teologia e passou pela biologia e pela geologia. Foi no arquipélago das Galápagos, durante a viagem do Beagle, que começou a desenhar-se a teoria da seleção natural. "Onde encontra espécies que já tinha visto em Cabo e em outras paragens muito distantes".

A peça está em cena no Teatro D. Maria II até 18 de dezembro, aos sábados e domingos, às 16.00; feriados, às 11.00. Para escolas, de quarta a sexta, às 11.00 (bilhetes entre 5 e 17 euros).

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