A revolta da língua nas muitas revoluções do FOLIO

Oficinas, concertos, debates e até BICAs preenchem a segunda semana do Folio, a festa da literatura, instalada em Óbidos

Num instante, enquanto descrevia o que pretende fazer com alunos do ensino secundário na oficina de quinta-feira, "Literatura, a língua revoltada" (inscrição obrigatória), a escritora brasileira Noemi Jaffe resumia uma boa parte desta edição do FOLIO - Festival Literário de Óbidos, dedicada a Revoluções, revoltas e rebeldias: "A língua não literária, a língua do dia-a-dia, tem o intuito da comunicação, é uma língua útil, como a literatura é uma língua inútil. A revolta da língua permite que também o olhar que a pessoa tem sobre a realidade seja transgressor. Por mais que a literatura não tenha um conteúdo político, só escrever literatura já é político, subversivo."

Jaffe, que na última semana apresentou em Lisboa o seu livro O que os cegos estão sonhando?, sabe do que fala. É escritora, professora, e filha de uma sérvia que foi prisioneira em Auschwitz, Lili Jaffe, e é sobre isso que se debruça nesse livro que, entretanto, já foi seguido por Não Está Aqui Mais Quem Falou, feito de microcontos, crónicas, e considerações filosóficas. A escritora nascida em São Paulo em1962 estará ainda com Afonso Cruz na conversa "Encontros e desencontros", na sexta-feira às 18.30.

Quanto a Afonso Cruz, que imaginou o pianista de jazz que, em Nem todas as baleias voam, viaja até ao Leste europeu, então comunista, tentando fazer da sua música um símbolo de liberdade, também ele andará por Óbidos no festival que, até domingo, tem programação diária. O escritor e ilustrador estará no sábado à mesa com BICA (Beba Isto Com Açúcar), uma série de conversas informais organizadas pela secção do festival FOLIO Ilustra, com patrocínio da Delta. Às 15.30, Afonso estará com Zélia Évora, a quem terá de levar uma peça de roupa sua para que ela, com base no seu projeto Re-Use, "pegue na tesoura e do velho faça novo, ou dos buracos faça peças: de alguma forma também é ilustração", explica Mafalda Milhões, a curadora.

Todas as sessões da BICA decorrem na Galeria Nova Ogiva, neste momento ocupada por uma mostra de vários artistas e informações acerca dos seus hábitos de café. André da Loba, por exemplo, não toma café nunca, aparentemente. Já Sérgio Godinho, embora prefira o vinho tinto para trabalhar, bebe café "mais para o cheio, com pouco açúcar". Trata-se de "uma mostra performática, um lugar poético". A homenageada é Manuela Bacelar - que bebe café sem açúcar e é daí também que vem o título do programa, para a adoçar, brinca Mafalda -, e há que espreitar o programa de conversas informais onde o público estará à beira dos autores que ali falam das suas "imensas revoluções que cada um deixa que aconteçam em si. Porque decidem, porque falam, porque criam, porque ilustram", explica Mafalda.

As secções do FOLIO são várias, e há que traçar um plano de orientação ao longo desta última semana do festival que começou já na quinta-feira. Amanhã, às 19.00, a jornalista Anabela Mota Ribeiro conversa com o escritor francês Laurent Binet em " Realidade ou Ficção: As histórias em que queremos acreditar", com moderação de Isabel Lucas. Na quinta-feira, às 21.00, os escritores Mário de Carvalho e Luísa Costa Gomes juntam-se para falar sobre os "velhos hábitos dos novos revolucionários moderação". No mesmo dia, às 17.00, Hugo Maia apresenta o resultado da jornada épica em que traduziu do árabe para português As Mil e Uma Noites, editadas pela E-Primatur, e dá ainda a conferência "As Mil e Uma Noites - O conto oral como forma de resistência popular".

É já amanhã que conheceremos o vencedor do Prémio Saramago 2017, mas só na sexta-feira este se juntará a Bruno Vieira Amaral, que ganhou o prémio em 2015 com As Primeiras Coisas, para uma conversa, às 18.00. Duas horas depois, José Pacheco Pereira e Abel Barros Baptista reúnem-se em torno do tema "Liberdade de expressão e o politicamente correto.

"O canto ou as armas" junta Manuel Alegre e João Gobern no sábado, às 15.00. Quatro horas depois, "Um Português e um Brasileiro entram num bar" dita o encontro, mais uma vez, de Ricardo Araújo Pereira e Gregório Duvivier, às 19.00. Quem só conhece Fernando Alves pela voz na rádio TSF poderá vê-lo também, às 21.00, a dirigir uma conversa entre o escritor brasileiro Milton Hatoum e José Eduardo Agualusa.

No domingo, e porque em 2017 se comemoram 150 anos da abolição da pena de morte em Portugal, o jornalista Ferreira Fernandes e João Soares conversam sobre "O fim da pena de morte", às 17.00. Para encerrar esta terceira edição do FOLIO, Eduardo Lourenço e Guilherme d'Oliveira Martins conversarão acerca do que entenderem, em torno do tema deste ano.

Se perdeu os concertos de Aldina Duarte com Carlão ou Norberto Lobo com um grupo de cantadores de Pias, não perdeu ainda tudo. Amanhã Paulo Bragança presta o seu tributo a Adriano Correia de Oliveira, e na quinta-feira Vitorino junta-se a Primeira Dama (Manuel Lourenço. Sexta-feira é a vez da cantora Maria João prestar a sua homenagem a Aldir Blanc, autor de canções como O Bêbado e a Equilibrista, acompanhada dos músicos Filipe Raposo, Joel Silva, João Farinha e André Nascimento. No sábado, às 22.30, Rodrigo Leão, apresenta uma versão inédita de A Vida Secreta das Máquinas.

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