A obsessão por colecionar pessoas

Nos seus espetáculos, Raquel André está a fazer um trabalho sobre aquilo que guardamos da efemeridade da vida. É possível colecionar pessoas?

Raquel coleciona pessoas. E como todos os colecionadores é obsessiva. "Tenho essa obsessão por ter mais e mais, um colecionador nunca está satisfeito, a coleção nunca está completa", explica. A ela também lhe custa pôr um ponto final nas suas coleções. Transformou-as em trabalho e em modo de vida, leva-as consigo por onde quer que vá.

A primeira, que apresentou em há dois anos, foi a Coleção de Amantes. Tudo começou no Brasil quando, em 2011, ganhou uma bola da Inov-Art para estagiar na Cia. dos Atores. Ia por uns meses, acabou por ficar cinco anos. Quando estava a fazer o mestrado na Universidade Federal do Rio de Janeiro decidiu fazer uma investigação sobre a colecionismo nas artes performativas.

Começou a trabalhar a partir da noção de efémero - na vida, como na performance. "Como posso guardar o efémero? Todos nós tentamos fazê-lo em fotografias." E ela assim fez. Desafiou pessoas que não conhecia a passarem consigo uma hora e, no final, tirarem uma fotografia simulando uma relação. O projeto desafiava os limites entre realidade e ficção e era apresentado como uma palestra, onde Raquel André explicava todo o processo deixando sempre algum mistério no ar.

Essa coleção - que tem já mais de 120 amantes - continua a crescer e a ideia é continuar até um período de dez anos. Mas, entretanto, ela já começou novas coleções. Em outubro do ano passado estreou a Coleção de Colecionadores. "Fui à procura de outros colecionadores como eu", conta. Aqui há um lado mais documental. Além de fazer o registo dos encontros também em vídeo (o que implica uma equipa de três pessoas), neste projeto não há lugar à ficção. Cada colecionador conta a sua história e, o que é curioso, Raquel opta por se focar apenas nas pessoas e nunca mostrar os objetos colecionados. Mas, mais uma vez, em cada encontro procura estabelecer uma relação de confiança com a pessoa entrevistada, só assim se explica que cada uma delas lhe ceda um objeto da sua coleção para ser incluído no espetáculo. "E vocês sabem como os colecionadores têm dificuldades em separar-se dos seus objetos..."

No seu catálogo de mais de 20 colecionadores - angariados no Porto, na Bélgica, nos Açores e, por estes dias, também no Brasil - tem pessoas que colecionam bonecas, ananases, corações, perfumes, camélias, cromos do futebol, tatuagens, super-heróis ou qualquer outra coisa. Em novembro, o espetáculo chega ao Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa.

Mas Raquel André não ficará por aqui. Já está a pensar na próxima coleção. Se olharmos com atenção, reparamos que ela coleciona variantes de si mesma e por isso não será de estranhar que a próxima seja uma Coleção de Artistas (o projeto começará a a ser preparado ainda este ano mas só será apresentada em 2018). "No caso dos amantes, o que guardamos são momentos de intimidade. Os colecionadores, mais do que objetos, ofereceram-me memórias. Aos artistas vou pedir atos de criação", explica.

E, pelo meio, tem uma outra coleção, que é permanente, que é a Coleção de Espectadores. Em cada apresentação, ela pede que lhe deem um objeto qualquer que tenham consigo e que fique como recordação daquele momento. Já lhe deram bilhetes do espetáculo, anéis, pulseiras, batons, postais, fotografias. Esta é talvez a coleção mais difícil de catalogar. Mas, por outro lado, é infinita. Enquanto houver público pode continuar.

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