A escrita de Patti Smith entre um café e uma tosta de pão escuro

A cantora regressa às letras para um segundo registo autobiográfico. M Train foi escrito em cafés, entre muitas doses de cafeína, uma tosta de pão escuro e um pequeno pires de azeite

O café quer-se curto, cheio, seja bica ou abatanado, italiana, cimbalino, em chávena fria ou escaldada, sem princípio, carioca, pingado, com ou sem açúcar. Café, sempre café. Patti Smith só quer a chávena de café acompanhado de uma tosta de pão escuro e um pequeno pires de azeite. É senha e contra-senha para as suas viagens, pela memória dos seus dias, com o marido Fred, naquele que é o seu novo livro M Train.

O livro é movido a café, como já em setembro confessava Patti Smith ao DN, numa conversa em que se antecipava o seu concerto em Lisboa. "Decidi que este livro não teria guião, desenho ou agenda, apenas me sentava e escrevia. Sentava-me num café, bebia o meu café, e escrevia. E assim fiz, escrevi. M Train é como mind train, o comboio da mente, como um comboio de pensamentos, e escrevi sobre cafés, viajar, o meu último marido, a pessoa que eu amava."

Este comboio é também um longo poema de amor a Fred Sonic Smith, o rapaz de Detroit que "foi um encontro inesperado" na sua vida e que "lentamente" alterou o rumo da vida de Patti.

Sentada à mesa do pequeno Café "Ino, em Greenwich Village, na sua Nova Iorque adotiva, Patti rapidamente deixa a conversa com Zak, que lhe "tira o melhor café aqui das redondezas", para viajar, pela memória, pela mente, para os trópicos, entre o Suriname e a Guiana Francesa, como depois se senta no Café Pasternak , em Berlim, onde se senta na "mesa habitual". É quase sempre assim que se inicia a chegada a um local. "Deixei as malas no quarto e fui de imediato para o café", escreve de Berlim. Podia ser o seu café imaginário, que gostava ter um dia. Ou outro qualquer, pelo mundo, onde se senta. E nomeia pelo menos um em cada cidade.

Já se sabe: este M Train é também diferente do anterior livro autobiográfico de Patti. Agora, disse, "quis escrever um livro muito diferente" de Just Kids porque nesse livro a artista "tinha uma coisa específica que tinha que escrever". E explicou ao DN: "O Robert Mapplethorpe pediu-me que escrevesse Just Kids antes de ele morrer, sobre a nossa vida em comum e a nossa juventude, sobre a sua morte e arte, era muito específico."

M Train é diferente: é "um mapa das estradas da minha vida", apresenta a artista. "É mais autobiográfico. Ao mesmo tempo partilho com o leitor a vida como ela é, para mim, o que faço, como eu a guio. Os livros que ando a ler, as coisas que me preocupam, os meus pensamentos, a minha meditação. É um pouco divertido - e tem muito café", explicava-se ao DN. Não é só os livros que lê Patti, são quem a marca. E por isso Patti convence Fred a viajar de avião e carro até à fronteira entre o Suriname e a Guiana Francesa, atravessando o rio Maroni de piroga até Saint-Laurent-du-Maroni, antiga colónia penal e de deportação dos condenados que cumpriam sentença na terrífica ilha do Diabo.

O que leva a artista até aquela cidade onde chove sempre não é a famosa história de fuga de Henri Charrière, que escreveu um livro (Papillon) e deu origem ao filme com Steve McQueen - é antes a vontade de ver aquilo que Jean Genet chamava de "chão sagrado", ele que tinha sido condenado a cumprir pena mas que já não o chegou a fazer ali porque o presídio foi encerrado. Patti recolheu pedras que fará chegar ao escritor através de William S. Burroughs. M Train é também isto: a soma encantada de encontros e referências literárias.

Em setembro, Patti admitia ao DN: "É difícil explicar o livro, foi desdobrando-se em tempo real, mas regressa ao reino da memória." Patti Smith tem na escrita a mesma disponibilidade que mostra voz e no ritmo pausado com que fala, longe das guitarras com que ilustra a sua poesia ou dos sons viscerais com que canta. Mas a música também se nota em cada uma das páginas deste comboio movido a café.

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