Depois de andar vários anos em digressão a tocar violino e a cantar com músicos como Rufus Wainwright e Antony & The Johnsons, a norte-americana Joan Wesser assumiu o papel de Joan As Police Woman. Foi em 2004 com um EP em nome próprio. Desde então conta com 10 trabalhos, aclamados pela crítica, como o seu primeiro disco Real Life (2006) que foi considerado Melhor Álbum de Rock e Pop pelos Independent Music Awards. O mais recente, The Solution is Restless (2021), vai ser mostrado agora em Portugal de 2 a 5 de março (Lisboa, Setúbal, Arcos de Valdevez e Guarda). Numa conversa com o DN, via zoom, entre Nova Iorque e Lisboa, falou-se de política, de pandemia, do sucesso da vacinação anticovid em Portugal e como Jeff Buckley ainda influência Joan todos os dias, ou não fosse ela a sua companheira quando o músico morreu tragicamente em maio de 1997..O que quer transmitir com este novo trabalho? Não escrevo canções a pensar que quero dizer coisas. Escrevo-as para expressar o que sinto e como me sinto. Este trabalho foi escrito mesmo no início da pandemia aqui em Nova Iorque e a atmosfera era incrível. Não existiam carros na rua, aliás, ninguém estava na rua, um cenário impensável nesta cidade. E depois foi muito marcante porque algumas semanas depois perdi um grande amigo [o compositor e percussionista nigeriano Tony Allen que participou neste novo álbum] para o covid-19. Foi muito assustador. Ia ficando aquela sensação de como melhorar o dia de hoje se pode não haver amanhã. Escrevi sobre isso na segunda música do álbum Get My Bearings (com Damon Albarn dos Blur e Gorillaz) Mas não foram só coisas más. Por exemplo, aprendemos a dormir (risos), aprendemos a estar sozinhos com os nossos pensamentos. E conseguimos ouvir o que se passava na nossa cabeça. Houve muita autorreflexão e isso está neste disco..Há um tema Take Me To Leader que tem uma clara mensagem política, ao sublinhar o trabalho da primeira-ministra neozelandesa Jacinda Ardem. Porque sentiu necessidade de o fazer? Quando se vive nos EUA é impossível não estarmos atentos às notícias, pelo menos é impossível para mim que me preocupo com o ser humano e com o meu país. Quando vejo um país como a Nova Zelândia, liderado por alguém que não só é brilhante, mas também tem muita compaixão e quer o melhor para as pessoas faz-me ficar muito contente por eles. E isso não é o que acontece nos EUA. Ter passado pelos anos de Trump como presidente... foi um despertar para muitos de nós que tem uma vida confortável e passamos os dias a olhar para os telemóveis. Estou bem atenta ao que acontece nos EUA, sobretudo ao nível de corrupção...já não vivemos numa democracia, chamam-lhe isso, mas não é uma democracia..A eleição de Joe Biden não melhorou a situação? Sim, melhorou. As coisas não podiam ficar pior [depois de Trump]..Será que essa diferente é por ser uma mulher na liderança? Talvez, quem sabe? De facto, ela é uma mulher (risos). Faz algum sentido. As mulheres têm boas ideias para se entenderem, aliás, isso está construído na nossa sociedade. Mas os homens podem fazer o mesmo, se quiserem, claro..De volta às suas músicas. Quais as grandes diferenças entre a Joan dos primeiros álbuns e agora? No início, quando lancei o meu primeiro disco, era muito nova na escrita de músicas. Estudei violino e queria colocar o violino numa banda, de uma forma cool. Mas a certa altura percebi que não era o suficiente para me exprimir e comecei a cantar e a escrever canções, mas não fazia a mínima ideia de como ia correr. Sabia que os meus amigos e família iam ouvir mas mais do que isso...Por isso, o facto de as pessoas terem respondido de uma forma muito positiva ao meu trabalho ajudou muito..Teve uma relação com o músico Jeff Buckley. O legado artístico, e também pessoal, dele influenciou-a e ainda a influência? Não vejo a possibilidade das coisas e das pessoas que me rodeiam não me influenciarem. A minha música sou eu. E o meu tempo com o Jeff influenciou a minha vida em grande forma. Por várias razões, pela sua vida e pela sua morte. Ele vivia o momento e adorava a vida, muito. Por isso mesmo tivemos uma forte ligação. O fato dele ter desaparecido tão cedo...levei muito tempo para conseguir processar isso. Ainda hoje ele afeta a minha vida, todos os dias. Quando estávamos juntos falávamos muito de música, partilhávamos música, tocávamos um para o outro, era uma forma de nos sentirmos vivos e felizes..O que pensa disso, da forma como se ouve música hoje em dia e da forma como os artistas são pagos pelas plataformas de streaming? Não consigo imaginar nenhum artista responder que somos bem pagos. Nasci em 1970 e vivi todo o tempo da destruição do valor da música, que tem sido completamente desvalorizado. Na minha altura, se fossemos bons, éramos pagos por isso. E agora já não é verdade. A música é uma necessidade básica para mim. E acho que muita gente pode concordar comigo que uma vida sem música é muito desapontante. Algo tem de mudar, senão no futuro apenas as pessoas que nasceram com dinheiro, ou que fizeram dinheiro com startups, poderão fazer música. Claro que essas pessoas devem continuar a fazer música, mas os outros, que não são privilegiados também. Mas não tenho uma resposta..Regressa a Portugal para apresentar o novo trabalho, o que pode o público português esperar dos seus concertos?.Vamos levar o nosso amor por Portugal. Levo comigo quatro fantásticos músicos e vamos tocar novos arranjos deste novo trabalho, bem como músicas dos trabalhos anteriores. Portugal é um dos meus locais preferidos, honestamente. Lembro-me de ir aí com a Anohni (o atual nome do artista Anthony Hegarty) em 2002 e fizemos alguns concertos ai, e lembro-me de querer viver aí. Sei que muita gente já o conseguiu fazer e se me encontrarem um apartamento...(risos). Mas tenho que sublinhar o meu amor pelas pessoas e por Portugal. É um local onde gosto de passar tempo, não só a tocar, mas a fazer outras coisas. E olhando para a forma como lidam com as drogas leves é muito inspirador. Além disso, a vossa taxa de vacinação é das mais altas no mundo, vocês como povo são um exemplo de esperança, digo isto honestamente..Calendário de concertos em Portugal.2 de março - Auditório Carlos Paredes, Lisboa 3 de março - Fórum Luísa Todi, Setúbal 4 de março - Casas das Artes, Arco de Valdevez 5 de março - Teatro Municipal, Guarda