Visita de um príncipe polaco ao Portugal de 1842

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Há pouco mais de centena e meia de anos o príncipe polaco Felix Lichnowsky decidiu vir conhecer o nosso país. Dessa expedição alegadamente turística resultou um relato escrito na primeira pessoa e repleto de pormenores que reflectiam a sua visão do mundo, intitulado Portugal Recordações do Ano 1842, onde escreve assim "Os poucos livros que folheei antes da minha vinda a Portugal e durante os primeiros tempos de residência neste país tinham-me feito nascer um vivo desejo de ver algumas províncias; e era induzido a isso particularmente pela circunstância de que, em virtude de todas as descrições, aquela jornada devia oferecer muitos pontos de semelhança com um dos períodos mais animados da minha vida passada."

Essas recordações estendem-se ao longo de 273 páginas deste volume, recentemente editado pela Frenesi e ao qual se acrescentam algumas folhas com notas e um artigo da altura com o título "Portugal. Lisboa", publicado no MagasinUniversel de 1934, num estilo entre o epistolar, a tentativa de efectuar um retrato de época e o levantamento histórico e biográfico.

Como que a colaborar com o estilo bastante descritivo do autor deste longo e interessante texto, a edição conta ainda com a reprodução de várias ilustrações executadas pelo "Rei Artista" D. Fernando - marido da Rainha D. Maria II -, que reinava na altura em que o príncipe polaco aqui esteve, e que complementam na perfeição alguns dos comentários sobre a realidade cultural do País.

Além da capacidade de fazer uma fotografia bastante focada do Portugal de 1842, Felix Lichnowsky consegue executá-la para a posteridade sem ficar datada pelo espírito de 1800 e desfasada em leituras futuras, como a que se pode fazer neste ano de 2005. São exemplo disso as análises feitas sobre as personalidades da sociedade e vida política de então que o visitante não dispensa de descrever, mas justifica e salvaguarda sempre que o seu desconhecimento exacto do passado e da carência de fontes sobre elas poderá deixar alguma marca defeituosa no retrato. E assim vai dizendo enquanto prodigaliza o desenrolar do livro com várias biografias de protagonistas desse Portugal, tal como Costa Cabral, o duque da Terceira e mais nobreza e Suas Majestades, entre outros.

Mas não permanece o desenrolar da escrita apenas no campo da biografia, antes vai muito do esforço do escritor e do seu enfoque literário para o dia-a-dia dos cidadãos e para as fabulosas descrições geográficas e urbanas do que vai conhecendo ao longo do tempo em que aqui permanece.

Logo de início, a descrição da sua viagem marítima até à capital portuguesa e a consequente entrada no rio Tejo são de antologia e um dos melhores textos para quem desejar fixar em definitivo a descoberta de Lisboa, que faz lembrar a de outro escritor - Henry Fielding .

Em seguida, a inevitável ida à romântica e byroniana Sintra, a Tróia, a Palmela, à Batalha, à Figueira da Foz, bem como a vários outros destinos, surge-nos com o mesmo vigor e serve de paralelo se desejarmos comparar o País daquele tempo com o que se conhece hoje. Imperdíveis são ainda os muitos parágrafos ocupados com as descrições dos momentos passados com a família real, com quem privou o suficiente para os descrever.

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