Violante escreveu um livro. A menina de Saramago não quis imitar o pai: «Não sou escritora.» Foram as circunstâncias da vida que a empurraram para a escrita, da mesma forma que se mergulha no mar ou, por qualquer ou sem razão, nos apetece ir ao cinema. Uma necessidade. Um impulso. Mais nada. Violante quis contar, sem pormenores, uma vivência íntima, daquelas que deixam marcas inesperadas, um soco violento no estômago que extrai o ar e atordoa, e nos atiram para a boca de cena das idas e vindas ao médico, do hospital, do funcionamento do sistema de saúde, dos afectos, da família.Antes da publicação enviou o manuscrito ao pai. «Ele não me disse rigorosamente nada. O que significa que gostou. Ele sempre esteve a par da minha doença desde o primeiro dia», diz. Da mãe, Ilda Reis, uma das maiores gravadoras portuguesas, falecida em 1998, a saudade de uma ausência partilhada de perto e a quem Violante dedica o livro.Ele, ele, ela, ela. Se as histórias da adolescência e da juventude levaram pai e filha a militarem em campos opostos, José Saramago no PCP e Violante no MRPP, o tempo esbateu as diferenças. «Há laços que ultrapassam tudo e todos. E não digam, ou escrevam, por favor, que a nossa aproximação só aconteceu depois de o meu pai ter ganho o Nobel. Isso é uma reles mentira. Os meus pais sempre foram e serão sempre os meus pais. Quem não entender os afectos não entende nada da vida. Há perguntas que não se fazem sobre sentimentos. Eu abraço os meus filhos e não preciso que me questionem por que é que estou a abraçá-los.»Casada com Danilo Matos, irmão de Arnaldo Matos, o mítico líder do MR, Violante, 62 anos, sempre soube o que era luta política. Das célebres «pancadarias em Económicas», onde lhe partiram o nariz, à prisão em Caxias em 1973, para onde levou a filha pequena nos braços, esta é uma mulher que não se cala mesmo quando os políticos de carreira a consideram incómoda porque diz sempre o que pensa. E desta vez pensou mesmo que iria morrer sem apelo nem agravo. Ali. Naquela cama do hospital do Funchal, depois de sentir nas veias os tratamentos que meses a fio lhe desfiaram os cabelos. Nesta conversa, meses depois da ressurreição de uma operação de risco, vê-se o regresso da mulher que se conhece das bancadas do hemiciclo regional – foi deputada independente pelo PS/Madeira e BE – dos movimentos de cidadãos, dos artigos de opinião, do grito permanente de quem não se conforma em deixar correr as horas sem aproveitar os minutos, dos risos irónicos e de um lado frágil que esconde a sete chaves.«Tenho um linfoma», disse há seis anos. Nunca mais se falou no assunto: «Está controlado. Tenho de vigiá-lo mas a vida continua.» Sem queixumes. Num silêncio que só os amigos mais próximos sabiam. Até ao dia em que um lenço na cabeça e uma pele baça a denunciou. Um lenço pode denunciar-nos? «Pode. As pessoas não estavam acostumadas a ver-me com aquele adereço. E associaram-no à minha imagem debilitada. Nessas situações o pior é sentirmos o retorno da comiseração.»É com voz segura que afirma: «Ninguém pode dizer “eu venci o cancro”. Porque ninguém o vence sozinha!»Todos pensam que podem morrer… um dia. Podem? Não. Vão morrer. Inevitável. Teve a noção da morte? «Tive. Tive. Coloquei essa hipótese, particularmente na segunda vez que fui internada… mas continuo a não acreditar em deus», diz. Chegou a altura da pergunta/resposta. O diálogo em discurso directo..Deus nunca esteve presente?Não. Nunca. Sou como sou! Não tenho fé em deus. Não acredito na sua existência. Já tive vários coices da vida e nunca lhe senti falta. Em nada. Desta vez, também não..Acredita em quê?Na minha força. Nos amigos, na família. Nos médicos. Mas principalmente no querer viver. Na vida. O gosto de fazer, de estar activo, de intervir….Estava preparada?Não. Ninguém está preparado para o desconhecido. Reajo sempre de forma muito emocional às boas ou más. Ou seja, dizem-me uma coisa mas disseram-me lá longe… uma comunicação de Marte. Depois preciso de tempo para chegar à Terra. Essas horas são complicadas. Eu estive seis anos sem fazer qualquer tratamento. Sabia que o linfoma, um tumor no sistema linfático, vivia comigo, com acompanhamento médico é claro, mas sem problemas. Há vários graus e tipos de linfoma. Este é, felizmente, um português suave. Um linfoma light..Que acordou.Sim, mas o mais grave foi o derrame pulmonar. A partir daí… a operação e as complicações. Aí sim, estive entre o sim, o não e o talvez..Diz taxativamente que ninguém vence o cancro sozinho. Porquê?Nem todos os cancros são particularmente agressivos ou graves. Há uns que se transformam em doenças crónicas, como é felizmente o meu caso, apesar das rasteiras que nos passam… Mas independentemente disso podemos não ter dinheiro para ir ao médico. Podemos não ter conhecimentos suficientes para perceber que alguma coisa está mal connosco. Ou podemos não ter força para enfrentar um conjunto de tratamentos que são violentos. Os tratamentos de quimioterapia são emocionalmente agressivos e fisicamente desgastantes..Há uma componente de sorte?Sim, por exemplo, o médico encontrar o medicamento que funciona. E a sorte de termos uma estrutura familiar que nos aguente porque ficamos impossíveis de aturar. Ou seja, há tantas componentes que nos fogem ao controlo que acho que não se deve dizer «eu venci o cancro» porque ninguém vence o cancro sozinho..Sente que há uma outra Violante?Não. Não fiquei mais dócil ou doce, nem crente. Acho que fiquei ainda mais intransigente em relação ao fundamental..O linfoma foi detectado há seis anos em exames de rotina. Diz que não é curável mas que também «não chateia muito, embora possa pregar algumas partidas». A desdramatização ajuda a aceitar os factos?Sim. Que hei-de fazer? Viver por antecipação. Mas há coisas que não controlamos. Por exemplo, não gosto de andar careca. O estar sem cabelo significa uma comunicação ao mundo. Enquanto temos um problema que não é exteriormente visível conseguimos mantê-lo dentro de casa. Mas quando se torna visível passamos a ser uma «coitada». Este olhar de comiseração não ajuda ninguém. Já tinha esta percepção mas agora, por experiência vivida, e apesar de ser natural que assim aconteça, não é nada bom para quem se sente alvo desse sentimento. Amachuca-nos..Optou por usar um lenço. Mesmo assim…Evidentemente que quem me conhece na rua sabia que não costumo andar de lenço. O aspecto, por outro lado, também muda. A cor da pele. O olhar. Não fui capaz de andar desprotegida..A páginas tantas faz uma ligação da passagem pelo hospital com o passado…Com a minha prisão em 1973, o estar numa cama de hospital fez-me recordar muito o tempo em que estive em Caxias, pela limitação da liberdade, pela impossibilidade de sair, com algumas diferenças, como é óbvio. Mas a verdade é que tive de ir buscar forças aí. Tal como fiz da outra vez. Não ceder..Este livro é uma catarse? Não… não é exclusivamente uma catarse. O que me motivou, em primeira instância, foi uma série de artigos que li sobre pessoas que diziam «eu venci o cancro». Acho que não se deve dizê-lo. Por outro lado, é um arrumar de ideias que entroncam nas questões da prestação de cuidados de saúde, da solidariedade, dos afectos, do apoio da sociedade. O livro é mais político do que pessoal. Este não é o diário da minha doença. Há várias observações. Na doença, as pessoas não são tratadas todas por igual. Eu senti-me uma privilegiada por ser figura pública, porque tive acesso imediato a um médico privado em Lisboa, porque o meu pai indicou-me vários nomes, porque tive dinheiro para pagar as viagens a Lisboa….Durante oito semanas esteve internada no Hospital do Funchal, onde foi operada. E assisti ao profissionalismo e humanismo dos médicos e enfermeiros que me trataram e que não se adquirem se não forem autênticos. Eu vi. Mas não sei se o Serviço Nacional de Saúde (SNS) ou Regional (SRS) é um serviço ou um sistema. As pessoas não devem ser obrigadas à espera por não terem dinheiro. No fundo, reflicto sobre um conjunto de temas para além da tentativa de poder ajudar pessoas que estejam em situação semelhante à minha no sentido de encontrarem os seus próprios caminhos..Porquê os seus próprios caminhos?Porque não há caminhos nem receitas. Tentar furar por este mundo complicado da doença, dos remédios, do hospital, das ressacas dos tratamentos, cada um tem de encontrar formas de combate. O papel da família é imprescindível. É preciso saber como se devem apoiar as famílias, e que do meu ponto de vista não passa pelo subsídio, mas por comportamentos, de estrutura, e que merece uma abordagem a montante. Falo dos afectos. Uma família não é um grupo de pessoas que partilha a mesma casa..«A MADEIRA É UM BARCO MAL ESTIVADO»Violante Saramago, bióloga, é das vozes que se levantam na defesa do ambiente. Quer como deputada quer como cidadã. Depois do temporal na Madeira, a 20 de Fevereiro, tem participado em colóquios e debates sobre o futuro do Funchal.«O meu problema em relação ao Funchal não é diferente do meu problema em relação ao resto da ilha. Há que ter humildade para perceber que a natureza é qualquer coisa de indomável e poderosa, com os seus ritmos e ritos», diz. Não há que ter veleidades, «podemos tentar amenizá-la mas, sobretudo, não podemos facilitar. O que se passa na Madeira, a exemplo do que acontece noutros sítios do país, é a tentação de enveredar pelo facilitismo até ao dia em que chove desmesuradamente e que uma série de aterros empurram a desgraça por aí abaixo».Soluções? «O território é muito pequeno, vive muita gente, tem de ser equilibrado. Ainda bem que a ilha está presa ao fundo porque se não já teria virado. A Madeira é um barco mal estivado. Os contentores estão todos de um lado, a sul. Aprendi com o meu avô, que era estivador no porto de Lisboa, que a primeira exigência para ter um navio seguro é arrumar bem a carga. Um navio funciona como um organismo vivo, tem ordem e dinâmicas próprias, um território também. Uma cidade é um organismo vivo e quem não perceber isto não entende nada de ordenamento e planeamento.»Violante não se encontrava na ilha quando tudo aconteceu. Mas viu as imagens e o rescaldo. Para quem vive na ilha, há um sentimento comum. Ou seja, «cada vez que a chuva é mais forte sinto-me alterada». .A RELAÇÃO COM OS PAIS Violante Saramago nasceu em 1947, ano em José Saramago publica Terra do Pecado, vivendo em casa dos pais até 1970, quando casou com Danilo Matos, um estudante do Instituto Superior Técnico, madeirense, e militante activo do MRPP. O casamento coincide, mais ou menos, com a separação dos pais: «Foi uma situação muito complicada para mim, de tal forma que há momentos que pura e simplesmente guardei e não me lembro. É um dos meus mecanismos de defesa relativamente às coisas que me marcaram e magoaram… Teria de fazer um esforço violento para recordá-las e isso recuso-me a fazer!»Violante recomeça, em tom mais baixo: «Já me chega o sentimento de tudo o que magoa, mesmo sem ter presente aquilo que na realidade me magoou.»Mais tarde, Ilda Reis e José Saramago conseguem manter «uma boa relação, equilibrada e afectiva. Quando ela morreu (1998) o meu pai veio de Lanzarote».A agulha salta, de imediato, para a faixa da política. De propósito. Saberemos, então, como é que Ilda Reis conviveu com as posições da filha e do genro em plena ditadura: «O Danilo e a minha mãe sempre se adoraram. Eram muito cúmplices. Mas em termos políticos, em Portugal, tudo se agudiza a partir de 1971. Os meus pais já estavam divorciados. A minha mãe era uma mulher doce, determinada e extraordinária. Vivia sozinha, mas nunca fechou as portas às reuniões políticas. A primeira reunião do MRPP com uma delegação da Fretilin, antes do 25 de Abril, foi realizada na sua casa, na Parede.»Mas a mãe-coragem ainda estava para vir: «Em 1973, a minha mãe deixou a neta com um ano e meio à porta da cadeia de Caxias e veio embora. Ela tinha recebido uma indicação do partido (MRPP). E cumpriu. Chegou a Caxias, disse aos guardas que não tinha condições para tratar da criança, que eu estava lá dentro, portanto, entregassem-na à mãe. Não consigo imaginar o que aquela mulher sofreu. Mas foi por mim! Eu tinha sido presa pela PIDE e esta era a única forma de reduzir o meu tempo de tortura, porque, assim, passaria a cuidar da minha filha, a Ana. A minha mãe dizia que este foi o pior dia da sua vida.»Violante garante que herdou do pai, José Saramago, as semelhanças físicas e o feitio. A «emoção visível» recebeu-a através dos genes da mãe, Ilda..Excertos do livro Na Primeira Pessoa – Reflexões a Propósito, Sete dias, Seis noites, Abril, 2010 «No princípio deste ano, 2009, apareceram sinais indicativos de que o linfoma acordara e começava a manifestar-se. Exames e análises depois, a confirmação do médico: era necessário começar a quimioterapia.Pela segunda vez em seis anos, o mundo parecia desabar. Desde o início, sabia (pensava eu que sabia) uma quantidade de coisas – sabia que uma dia seria assim, também já sabia que o tratamento não deveria ser particularmente agressivo e, sobretudo, dadas as características da doença, sabia que, depois, tinha todas as probabilidades de vir a passar os anos seguintes sem manifestações do linfoma. Isto é, poderia retomar a minha qualidade de vida. Apesar de saber tudo isto, queremos sempre pensar que Ainda não será agora. Porém, há sempre um dia que É o dia.»«No hospital, de cada vez que a porta é aberta não sabemos se é a enfermeira que vem colocar um soro, se é o médico a dizer que o nosso problema só se resolve com uma operação imediata ou que é preciso continuar com a quimioterapia, se é um amigo a visitar-nos. Em Caxias, quando a guarda dava volta à chave nunca sabíamos se era para nos levar para a sala de interrogatórios, se era para nos deixar ir ao recreio (recreio! – uma cela no último piso sem tecto e onde podíamos ir uma hora, duas vezes por semana), se para nos chamar para uma visita dos pais.»«Falei há pouco no apoio familiar. Imprescindível! Mas que exige, da parte dos nossos próximos, uma grande sensibilidade porque, quando estamos doentes, todos reagimos de formas completamente diferentes. Há pessoas que manifestam não querer atenções nem carinhos e há outras que não sabem viver sem eles; há as que não suportam que se arranje o lenço da cabeça e há outras que precisam de saber que estão bem; há as que, de forma absolutamente inconsciente, quase que tratam mal quem cuida delas enquanto outras se aninham na ânsia de um mimo.Nenhuma destas, ou outras, manifestações são significantes para determinar o carácter de alguém. Apenas traduzem a forma como se reage à doença e nada mais que isso. Por isso, em minha opinião, é tão importante a sensibilidade de quem está perto do doente! Há que não esquecer, nunca, que ele está numa situação de fragilidade física e emocional. Quem já apoiou doentes oncológicos, ou outros, sabe bem que é assim. Já quem está doente, normalmente nem disso se apercebe. Falo com conhecimento de causa porque além de ter acabado de passar por um período muito complicado e muito difícil, acompanhei a minha mãe, em casa e no hospital.»