Surpreendente, raro... e devastador. Leslie, que a escassos 250 quilómetros da costa continental portuguesa era ainda um furacão e que, cerca de seis horas depois, pelas 22.30 de sábado, 13 de outubro, entrou por Portugal dentro, à altura da Figueira da Foz, transformado numa violenta depressão pós-tropical, foi a todos os títulos um fenómeno muito invulgar nestas latitudes. E, no entanto, foi só há um ano que o furacão Ophelia passou aqui ao lado, com uma força ciclónica que imprimiu inesperada violência aos ventos que, a 15 de outubro, inflamaram os incêndios florestais que deixaram um rasto de destruição e mortes no centro do país..Dois anos seguidos? "É impressionante que sendo estes fenómenos tão raros em Portugal continental tenha havido logo dois, o Ophelia e agora o Leslie, a chegar a estas latitudes, em dois anos seguidos", admite Ricardo Trigo, que lidera o grupo de climatologia do Instituto Dom Luiz da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. No entanto, manda a prudência científica que não se diga já que este é um fenómeno causado pelas alterações climáticas. "Não temos estatísticas suficientes, porque os furacões são aqui fenómenos muito raros. Por isso mesmo é que não há estudos sobre eles relativamente a este lado do Atlântico." E sem estudos não se podem fazer afirmações taxativas..Em 150 anos de registos meteorológicos, os furacões são uma raridade quase absoluta por estes lados. Antes do Leslie e do Ophelia, apenas o Vince passou por cá, em 2005. Lá mais para trás, documentos escritos permitiram identificar um pequeno furacão que assolou Lisboa em 1725 e, mais tarde, em 1842, uma tempestade tropical que atingiu a Madeira e também chegou ao continente..Já na outra costa atlântica, a realidade é bem diferente. Naquela região, que abrange Caraíbas, Golfo do México e costa sul dos Estados Unidos, estes fenómenos, que têm inclusivamente uma época anual, estão muito bem estudados, e os dados mostram que, sim senhor, já se observa neles a dedada das alterações climáticas. "A probabilidade de ocorrência de furacões de grande intensidade no Atlântico tornou-se cinco vezes maior nas últimas décadas", lembra Ricardo Trigo..Os furacões formam-se no Atlântico um pouco a sul de Cabo Verde e evoluem para oeste, rumo à costa americana, curvando a certa altura para a direita, na direção norte. Com a temperatura da água oceânica a aumentar em consequência das alterações climáticas - em média ela já é neste momento 1,5 graus superior, em relação ao início do século XX -, a humidade na atmosfera também está em crescendo, porque há maior evaporação. E é nesse jogo que os furacões têm vindo a ganhar mais energia, tornando-se mais fortes..Mas há mais. Um estudo publicado em junho deste ano na revista Nature, por James Kossin do National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA), dos Estados Unidos, que passou em revista os dados dos últimos 68 anos de furacões, ciclones e tempestades tropicais ocorridos em todo o mundo, entre 1949 e 2016, identificou um novo padrão nestes fenómenos. Além de mais intensos, eles tornaram-se também 10% mais lentos na sua progressão através da atmosfera, em relação há 70 anos. As tempestades levam mais tempo a atravessar o espaço, e isso tem por efeito que a quantidade de chuva que se abate numa determinada região tem estado a aumentar, causando mais inundações e deslizamentos de terras, com consequências humanas mais desastrosas..O furacão Harvey, que no ano passado estacionou durante cinco dias seguidos sobre o estado do Texas, nos Estados Unidos, despejando ali um dilúvio sem precedentes que causou 89 mortes e deixou 200 mil pessoas sem casa, já foi um exemplo desta tendência, segundo os cientistas..Outra faceta da assinatura das alterações climáticas nestes fenómenos é que eles estão a atingir latitudes cada vez mais a norte no Pacífico e na costa leste americana. Será que isso também pode suceder aqui, deste lado, e que, no contexto das alterações climáticas, vão começar a chegar mais furacões à latitude de Portugal?.A resposta é uma incógnita. "Não há estudos que permitam dizer isso", diz Ricardo Trigo, reconhecendo, no entanto, que "era importante fazê-los"..Sabe-se hoje que as alterações climáticas estão a aumentar a probabilidade de ocorrências de fenómenos extremos na Península Ibérica e na região do Mediterrâneo e o grupo de Ricardo Trigo é um dos que tem feito estudos que mostram isso mesmo: num mundo mais quente, as secas e as ondas de calor vão aumentar no território português. Isso está hoje bem estabelecido pela ciência. Se os furacões também vão chegar cá mais vezes no futuro não se sabe. Mas, pelo que mostram os estudos do outro lado do Atlântico, essa parece ser uma possibilidade bem real. Os desastres que o Ophelia e o Leslie causaram em Portugal mostram que é preciso saber mais sobre o que aí vem.