Velhos e novos dançaram na noite eletrónica do Kalorama

O Parque da Bela Vista voltou a receber um festival de música, deste vez o Kalorama, que na sua estreia levou muita gente às colinas do parque. Sobretudo, para ouvir a música eletrónica multigeracional dos Kraftwerk e dos ingleses The Chemical Brothers, mas não só.
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A curiosidade reinava no primeiro dia do Kalorama. O festival, estreante, escolheu um recinto muito ligado ao Rock In Rio e com um cartaz unanimemente de qualidade. Mas, mesmo com pouca promoção nas últimas semanas o recinto começou a encher a partir das 19h.

Com menos "animação" que o Rock in Rio e com uma disposição de palcos diferente (que trouxe problemas à atuação dos 2ManyDjS - ver linhas mais abaixo) o público respondeu à chamada. E apesar de muitos terem como objetivo o segundo dia (hoje, sexta-feira) com a atuação dos Artic Monkeys, a quantidade de festivaleiros - com muitos estrangeiros - fez, certamente, sorrir a organização pela aposta de um festival de fim de verão.

Mas vamos aos destaques do primeiro dia:

O relógio marcava as 19h quando James Blake acompanhado de dois instrumentistas, subiu ao palco e o recinto do Parque da Bela Vista começou finalmente a encher. Não é a primeira vez que o cantor e compositor inglês passa por Portugal, tendo marcado presença no Nos Primavera Sound no Porto em 2019.

Embora um pouco tímido, não deixou de comunicar com o público."Estou feliz por estar de volta e já passou muito tempo. Não sei o que dizer mas quero agradecer o vosso apoio durante este tempo. Tive saudades vossas",disse o artista, referindo-se aos dois anos de pandemia que não pode estar com os fãs.

Fascinado com o número de pessoas presentes no recinto pediu ajuda ao público para cantar apenas a linha de Say What You Will, onde o público só à segunda tentativa é que verdadeiramente cantou. Esta foi a única música que o artista tocou do seu álbum mais recente Friends That Break Your Heart lançado em outubro de 2021.

Sempre acompanhado por imagens do público a preto e branco - que passavam nos ecrãs - , James contrastou sempre a sua atuação entre baladas românticas e remixes animados. Tocou uma das músicas que o fez chegar à ribalta Limit to Your Love, um original da cantora canadiana Feist, que James Blake gravou a sua própria versão para o seu álbum intitulado em nome próprio artista.

Já músicas como Voyeur, um dos seus clássicos de 2013, e CMYK , de 2010 que fez parte do segundo EP com mesmo nome que a música, levaram a plateia a levantar os pés do chão.

No ato final do seu concerto, uma fã com o cartaz "James, dá-me a setlist" teve o seu desejo concretizado, o cantor dirigiu-se à beira do palco para lhe entregar as folhas com a lista das músicas tocadas durante a sua atuação.

Sozinho em palco terminou com a sua versão de Godspeed, um original de Frank Ocean, que aqueceu o coração do público.

"Muito obrigada. Foram muito fantásticos. Aproveitem que vai ser um festival fantástico", afirmou antes de se despedir do público com uma vénia.

Ring, Ring, Ring o telefone tocou, seguido de um "Boa noite, Lisboa" em português. Olly Alexander do projeto Years&Years entrou em palco dentro de uma caixa telefónica e rodeado de bailarinos. Depois da passagem por Portugal em 2016 no Nos Alive, agora o projeto musical atuou no Meo Kalorama apenas com o vocalista.

Os Years & Years nasceu em 2015 com três membros: Olly Alexander, vocalista, Mikey Goldsworthy, baixista, e Emre Türkmen, teclista. Em março de 2021, dois dos membros saíram do grupo para seguirem as suas carreiras a solo e Years & Years tornou-se no projeto individual de Olly.

Começou a atuação com a música Night Call, do novo álbum e do primeiro álbum individual do artista, depois da saída dos outros membros. Sempre rodeado de um coro de bailarinos, danças sensuais e roupas provocadoras, recriou vários dos seus videoclipes em palco. Desde dançarinos a fazer de mota com capacetes e uma casa de banho portátil na música Sanctify, foram adereços das suas atuações.

O artista não ficou pelos temas recentes, trazendo para o festival alguns dos temas mais antigos como a Desire e a Shine que o público sabia na ponta da língua.

"Viemos a Portugal há uns anos e estou muito feliz de voltar",disse para o público.

Houve tempo ainda para um cover da It's a Sin dos Pet Shop Boys, onde o cantor começou por estar sozinho em palco ao teclado mas rapidamente os bailarinos se juntaram para a atuação. Certamente a fazer lembrar os mais atentos que Olly Alexander foi protagonista da aclamada mini-série com o mesmo nome (It´s a Sin), sobre o surgimento dos primeiros casos de SIDA no Reino Unido dos anos 80 (disponível na HBO).

Entra uma numa cama em palco para música Crave, do seu mais recente álbum, com dançarinos de abajur de candeeiro na cabeça e mãos cobertas por luvas vermelhas ganham vida tocando e agarrando Olly.

Para finalizar, guardou a música King, um sucesso lançado em 2015 no primeiro álbum do grupo Communion. Numa só voz o público juntou-se ao cantor e aos bailarinos para dançar numa explosão de energia. A atuação terminou assim como começou com um telefone, mas desta vez com som de chamada perdida.

Depois do concerto de 2019 no EDP Cool Jazz os alemães Kraftwerk regressaram aos palcos portugueses, desta vez no Parque da Bela Vista para o "novo" Kalorama.

Os apelidados pais música da eletrónica começaram a caminhada em 1970, em Dusseldorf quando Ralf Hutter e Florian Scheider (que morreu em abril de 2021) começaram a explorar sonoridades que não estivessem nem ligados à alemanha nazi nem ao que se fazia nos Estados Unidos. Depois de três albuns, o sucesso chegou em 1974 com a aclamado Autobahn (1974).

Mas voltemos ao Parque da Bela Vista. Muita gente marcou presença num dos palcos secundários do festival, no caso o palco Colina, para o início do concertos dos alemães. Antes fora distribuído por muitos espetadores óculos 3D (que também é nome do álbum ao vivo da banda lançado em 2017), uma vez que o espetáculo que os músicos apresentam nos últimos anos tem vídeos a três dimensões.

Os quatro elementos atuais dos Kraftwerk apresentaram-se com a sua imagem de marca: quatro alinhados em placo atrás das teclas e sintetizadosr. A abrir Numbers, logo de seguida Computerworld.

Como sempre, num concerto da banda alemã, mesmo quem não conhece as músicas reconhece alguns dos beats e sons que influenciaram tantas outras bandas (e músicas da eletrónica DK, ou seja, Depois de Kraftwerk.

Home Computer, Spacelab - com imagens de um ovni a chegar a Lisboa e ao Parque da Bela Vista arrecadou os primeiros aplausos do público.

O rol dos clássicos continuo com algumas desistências do público, mas com muitos fiéis, de várias gerações a mexerem-se ao som, por vezes languido, das músicas dos alemães.

Depois The Man Machine, seguiu-se Autobahn, como já mencionamos do álbum com o mesmo nome de 1974

Computer Love, e The Model em que ao invés as imagens em 3D e eletrónicas passaram imagens a preto e branco de modelos femininos dos anos 50:60.

Depois Radioctibity sobre a ameaça nuclear, que foi bastante aplaudida. Seguida de Tour de France (do album homónino de 2003)também com imagens das primeiras edições da Volta a França em Bicicleta - com ciclistas sem capacete a transportarem câmaras de ar enquanto faziam as provas. Também foi muito aplaudida. E seguiu-se Trans Europa Express - outro dos clássicos da banda dos anos 1970.

E para finalizar o concerto The Robots. A que ainda se seguiu Boing Boom Jack e logo a seguir Musik Non Stop.

Depois, cada elemento da banca a ter direito ao seu "solo" antes de sair de palco e fazer uma vénia ao público. Um concerto rigoroso, germânico, de exatamente1 hora e 30 minutos a provar que a "velha" máquina elétrica está bem oleada.

Enquanto os Krafwerk atuavam no palco Colina, os 2ManyDJ's + Tiga tinham previsto o seu concerto à mesma hora no placo Meo. Contudo, e após 10 minutos de atuação, a dupla belga saiu de palco por "conflitos de som entre os palcos Meo e Colina fomos obrigado a interromper a atuação dos 2manydjs+ Tiga", explicou a organização.

Às 23:33, escassos minutos após o termino do concerto dos Kraftwerk noutro palco, a dupla The Chemical Brothers voltava atuar num palco português, no mesmo local (palco principal) onde estiveram em 2018, no festival Rock in Rio (e de outras passagens por Portugal).

O palco principal do Kalorama encheu-se de batidas, sons eletrónicos, fumos e muita efeitos visuais, com é habitual nos concertos - ou sets? - da dupla de Manchester.

Sem rodeios; com um dos seus grandes êxitos: Block Rockin Beats. Para, sem folgo, e logo de seguida Go, sempre acompanhados por uma fortíssima componente visual.

Entre várias mixagens, surgiu Mah, e Hey boy, Hey girl outros sucessos que continuaram a puxar pelo público, sempre dançante.

Eve of Destruction e Horse Power tocaram de seguida mas sem a mesma resposta do público. O concerto passava por aquela altura que já todos sentimos em que se aguarda por outro sucesso para reativar a atenção.

Apesar disso, e de menos euforia do que no início, o público - portugueses e muitos estrangeiros - continuou a responder com dança, muita.

Os Chemical Brothers faziam a sua parte, para além de música, vídeos e luzes, ajudaram à festa com confettis lançados para o público.

Seguiram-se Dig Your Own Hole, Go to Keep On, sempre sem interrupções, e depois Wide Open, do album Further (2010), uma música mais calma do repertório dos Chemical Brothers, mas numa versão mais dançável.

Deu-se um breve momento em que no ecrã principal lia-se "Hold Tigh Lisboa" e a dupla saiu detrás dos teclados e samplers para vir cumprimentar o público - algo que fez com frequência a partir de então..

Escape Velocity com balões gigantes laranja "ativou" o público mais uma vez, sobretudo nas primeiras filas do recinto. Depois seguiu-se uma secção mais "pesada" de misturas e remisturas de algumas das suas músicas a levar-nos para um ambiente quase parecido com as raves dos anos 1990.

Depois com uma breve passagem por Do It Again, chegou mais um êxito, Star Guitar - que tem um videoclip sui generis de uma viagem de comboio onde todos os elementos que vemos têm a ver com a batida da música.

No Parque Bela Vista chegava-se à parte final do concerto com o sucesso Galvanize. No final, nos ecrã mais uma mensagem da dupla: "Love is All".

Hoje, sexta-feira, é a vez do rock dos Artic Monkeys tomar conta do palco principal do Kalorama. A eletrónica regressa no sábado com a dupla de irmãos Guy e Howard Lawrence que formam os Disclosure.

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