O ponto de partida do mais recente filme de Sébastien Marnier, A Hora da Saída, foi o romance homónimo de Christophe Dufossé, publicado em 2002. L'Heure de la Sortie conta a história de um professor, recém-apresentado a uma turma invulgarmente disciplinada, que começa a aperceber-se do estranho quadro de convivência desses alunos e a interessar-se pelo seu "segredo" blindado, com contornos sinistros. Antes disso, já um incidente macabro estava na base da súbita contratação do protagonista: o preenchimento da vaga de um professor que se suicidou atirando-se da janela da sala de aula..O realizador Sébastien Marnier revelou ao DN que sempre teve vontade de adaptar o livro, desde que o leu na altura do lançamento - "tinha ideias de planos, sons, e até imaginava a música" -, mas a demora do projeto (abandonado e retomado) fez que este ganhasse uma dimensão mais profunda e comprometida: "O livro evoca os medos dos adolescentes, mas não havia ainda a questão da ecologia. Essa temática central do filme é uma escolha minha." Acrescenta: "Eu queria fazer uma adaptação livre e trabalhar a partir das minhas lembranças e sensações, queria perceber porque é que a ideia de levar o livro ao grande ecrã nunca me abandonou.".Este agarrar da literatura pela linha da abstração está, desde logo, na atmosfera obscura e sensorial que envolve o thriller. Marnier, que antes assinou outro thriller, Irréprochable (2016), gosta de modelar a experiência cinematográfica através de uma cuidada mise-en-scène, e de fugir ao naturalismo a fim de passar a sua mensagem sem incorrer no óbvio: "[A Hora da Saída] é um filme de género e de suspense. Mas, evidentemente, como nos filmes de John Carpenter - que é o meu realizador preferido - o subtexto político é essencial. O cinema de género permite testemunhar uma época de maneira menos frontal do que um filme naturalista. Encontro nele legitimidade para dar a minha opinião sobre o mundo que me rodeia", explica..A base literária continua no filme mas é um assumido registo de estilo que impera. Por isso mesmo, as personagens não são jovens que possamos encontrar propriamente ao virar da esquina. Eles escapam à categoria mais realista para se inscreverem num particular universo de cinema e assim falarem diretamente aos espectadores de hoje. Para o realizador francês é fundamental manifestar-lhes respeito, porque são os protagonistas desta geração: "Os jovens do meu filme são heróis de um film noir, mas carregam medos bem reais. Eles são muito lúcidos e fatalistas, e o filme mostra como os adultos nunca os ouvem. "Veja-se como os jovens que lutam pelo clima - como Greta Thunberg - são tratados pelos media e como ela foi recebida pela classe política francesa: alguns deputados disseram que não estavam lá para lhe mudar as fraldas! Eu, pelo contrário, acho que devemos ouvir a nossa juventude, sobretudo quando ela rejeita o mundo que lhe deixamos.".A preocupação de Sébastien Marnier é tão sincera que se torna inevitável perguntar até que ponto ele se projetou, até fisicamente, neste professor aliciado pelo enigma dos seus alunos. A resposta sugere um processo com tanto de consciente como de inconsciente: "Foi só depois de descobrir o filme em sala que percebi como modelei o [ator] Laurent Lafitte à minha própria imagem... Em relação à personalidade dele, a partir do argumento, pus muito de mim, sim. Sempre fui atraído por pessoas marginalizadas, estranhas e misteriosas, como este bando de jovens.".Os olhos do professor Pierre são, de resto, a porta de acesso ao mundo fechado do grupo de adolescentes. Através desse ponto de vista vamos seguindo, às escondidas, os seus movimentos bizarros, ao mesmo tempo que criamos empatia com a força das suas ideias, da sua causa secreta. Mas nada é transparente ou imediato. A progressiva evolução dos acontecimentos vive menos de um aglomerado de cenas do que de uma impressão na pele. "Imaginei o filme como um envenenamento lento, como um vírus que se espalha pelas veias de Pierre Hoffman. Queria que o espectador sentisse visceralmente o que o protagonista está a passar", resume. Ou seja, cinema para agitar a mente, que entra pelo sangue e mexe com a pulsação..E essa também fica a dever o seu ritmo à banda sonora composta pelos Zombie Zombie, música eletrónica "climática" que se mistura com outros sons e trabalha a propagação do tal vírus metafórico. Porém, a componente musical tem aqui mais do que uma função de atmosfera. Os poucos momentos em que vemos a turma - sempre de semblante sério e hostil - libertar emoções, são aqueles em que estão a cantar num coro regido por uma professora pouco dada à postura institucional. Conta Marnier que "queria que dentro da instituição escolar rígida e sofisticada houvesse um eletrão livre, uma figura quase punk". Essa figura, encarnada pela atriz Emmanuelle Bercot, é pois a mulher que os põe a cantar hinos de protesto, letras com sentido político, como Free Money, de Patti Smith, que o realizador diz representar o seu Another Brick in the Wall para o filme..Enquadrada na semana de mobilização pelo clima - que culmina nesta sexta-feira com a greve global -, A Hora da Saída não tem medo de estampar a questão ecológica na grande tela. E fá-lo em calibrados silêncios e ações.