Começou a fazer cinema aos 42 anos. Deduzo que essa descoberta na sua vida artística tenha sido um bálsamo de reinvenção pessoal. Será que o cinema é para si uma fonte de juventude?.Sim, por completo. Sou uma cineasta jovem aos 47 anos. É preciso perceber que comecei a trabalhar aos 16 anos, isto do cinema foi realmente uma reinvenção! Vivi antes muitas outras vidas... O cinema sempre foi uma coisa inacessível, ao contrário da fotografia, em que posso tirar da mala a máquina e começar a disparar. Um tipo há pouco perguntou-me se estava orgulhosa do filme... Isso não sei, estou sim orgulhosa de aos 42 anos ter tido coragem de fazer cinema. Senti que tinha chegado a minha vez, o meu filho já estava crescido. A minha única pressão é tentar arranjar algum dinheiro para continuar a trabalhar e pagar a renda, nada mais..Nesta apresentação de Milla no aniversário do cinema Ideal falou-se da sua relação com Portugal. Não é por acaso que o filme tem como produtores o coletivo Terratreme....Mas é uma relação que passa pelo amor, como todas as relações. A minha relação começou com uma história de amor, uma história que terminou. Porém, a minha relação com Portugal manteve-se. Honestamente, foram seis anos em que vinha e voltava frequentemente devido a essa relação. E não vivia em Lisboa, mas sim em Sintra, local a que depois disso não voltei - dizem-me que ainda está pior do que Lisboa com toda essa invasão do turismo. A sério, tudo o que gosto em Lisboa está a desaparecer. Isso entristece-me muito. Antes havia aquela sensação de comunidade na cidade, muito parecida àquela que se encontra nas aldeias. O que está aqui a acontecer acontece também em todo o lado, mas em Lisboa é mais violento..Luc Chessel, o protagonista masculino do filme, é famoso em França como crítico de cinema do Libération. Por muito que seja difícil a questão da distanciação, não fica curiosa pelo seu olhar cinéfilo sobre o filme?.Devo dizer que ele é um dos raros críticos em França que tem o meu respeito. O que ele escreve é mesmo interessante. Fiquei danada quando percebi que o único tipo que poderia escrever algo que eu gostasse de ler sobre o meu filme nunca o iria poder fazer. Mas a verdade é que passados uns meses ele acabou mesmo por escrever, enfim, ganhou distância. E o texto é mesmo muito belo. O Luc é espertíssimo, tem uma cabeça que funciona muito bem. Ele conseguiu encontrar a distância certa para ver o filme de fora, coisa que ainda não consigo..Em Milla sentimos uma ideia de onirismo muito própria. Nos seus sonhos existem planos de cinema?.Sim, tremendamente! Tenho a certeza, eu lembro-me sempre dos meus sonhos. Isso tem a ver com facto de ser descendente de arménios. Quando era miúda, mal acordava ia contar os sonhos aos meus avós... Fui criada segundo um sistema em que a fronteira entre o real e o onírico é muito fina, se é que existe....E como gere esse seu método de filmar sem argumento? Como se gere essa coisa tão sagrada que é o instinto dos atores?.Trato os atores como crianças. Digo isto de forma nada condescendente - respeito mais as crianças, os animais e os idosos do que qualquer adulto. Dirijo os atores criando jogos..Mas não os engana?.Não, de todo! Os jogos passam por situações que lhes dou, como, por exemplo, "façam café". Peço-lhes também para interagirem com objetos. Nos meus filmes tenho sempre muitos objetos e para mim são mesmo objetos, não são adereços. É sempre um processo que não sei aonde vai chegar, apenas sei as emoções que quero filmar..E, depois, com tudo isso, como passa a intimidade?.Essa foi a parte mais complicada! Tivemos de a construir. A Séverine, a atriz, tinha alguns problemas com o seu corpo e, além do mais, o Luc é muito diferente dela. São o oposto um do outro e era isso que eu queria..E soube sempre quando as coisas resultavam?.Sempre..Quando está a filmar, já alguma fez sentiu o seu olhar de fotógrafa a sobrepor-se?.Não, não penso nisso. Separo as coisas, cinema e fotografia são duas coisas completamente diferentes. Mesmo dentro da fotografia considero que o retrato e a fotografia de rua são dois processos diferentes. Fazer um retrato é bem mais próximo do que filmar alguém. Confesso que nunca penso no enquadramento, é tudo instintivo. Fotografar ou filmar é a mesma coisa..Não consegue detetar quando vê um filme que tenha sido realizado por um realizador que veio da fotografia?.Não... Antes de mais, a maioria dos realizadores não faz um enquadramento, pede ao diretor de fotografia. O que consigo é perceber se um diretor de fotografia é bom ou não. Aborrece-me quando vejo planos muito enquadrados, perfeitos, pois sinto que depois estão mortos. Irritam-me aqueles planos que são demasiado pensados e determinados... Tudo o que é demasiado pensado morre. Para mim, a questão não passa pela perfeição ou imperfeição, mas sim deixar a luz chegar e perturbar algo.