Vaga de antissemitismo na Europa eleva estado de alerta em Portugal

Especialistas em segurança e terrorismo concordam com a medida anunciada pelo Sistema de Segurança Interna. O grau de ameaça subiu para o nível 3 - Significativo, por uma questão de "cautela" e "acompanhando os outros parceiros europeus", não se registando "quaisquer indícios que apontem para o desenvolvimento de ações terroristas em Território Nacional".
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Dois dias depois de o Sistema de Segurança Interna (SSI) ter indicado que não havia "indícios ou razões" que justificassem uma alteração do estado de alerta em Portugal, uma nova avaliação desta quinta-feira concluiu que o grau de ameaça devia subir para o nível "3- Significativo". Atualmente o grau era o "4 - Moderado".

Esta decisão foi tomada depois de ouvidos os chefes máximos das polícias e dos serviços de informações convocados por Paulo Vizeu Pinheiro para uma reunião extraordinária da Unidade de Coordenação Antiterrorista (UCAT), que decorreu no SSI, sob a sua coordenação.

Em comunicado oficial o SSI sublinhou que "a UCAT validou esta alteração do grau de ameaça por razões eminentemente preventivas e de cautela, acompanhando de igual modo os outros parceiros europeus - em alguns dos quais tendo-se registado ações terroristas perpetradas por atores isolados radicalizados, de difícil deteção - na medida em que não se registam quaisquer indícios que apontem para o desenvolvimento de ações terroristas em Território Nacional".

Este grau de ameaça, acrescenta o comunicado, "significa que as Forças e Serviços de Segurança em Portugal irão continuar a acompanhar, no quadro da UCAT e proativamente, a evolução da situação de Segurança, adotando de forma flexível e pragmática as medidas de segurança, passivas e ativas, que vierem a considerar necessárias. Sempre num contexto de adequação e proporcionalidade, no quadro de uma vigilância cooperativa reforçada".

É recordado que os dirigentes policiais já tinham "reunido ordinariamente" na UCAT "no passado dia 9, dois dias após o ataque terrorista do Hamas a Israel, tendo de imediato coordenado o reforço pontual de medidas adequadas de segurança destinadas a pessoas e estabelecimentos, diplomáticos e outros, considerados de maior sensibilidade ou risco".

Foi na sequência desta reunião que, numa nota enviada à agência Lusa, Paulo Vizeu Pinheiro informou que, de acordo com a "avaliação contínua e permanente" feita pelo Serviço de Informações de Segurança (SIS), não existiam "indícios ou razões que justificassem a elevação do grau de ameaça em território nacional, por não se estarem preenchidos os pressupostos descritos no Plano de Coordenação, Controlo e Comando Operacional das Forças e Serviços de Segurança (PCCCOFSS)". Este Plano é o "manual operacional" das polícias para responder a ameaças.

Justifica o comunicado oficial que "o SIS, enquanto entidade responsável pela avaliação de ameaça, tem procurado ao longo destes dias, em estreita e permanente cooperação com os seus parceiros internacionais e nacionais no contexto do SSI, coligir de forma sistemática indícios que permitam, no contexto dos potenciais agentes de ameaça, identificar e caracterizar intenções e capacidades" e que na reunião desta quinta-feira, "considerou existirem condições que justificam a alteração do grau de ameaça terrorista em Portugal de Moderado para Significativo".

O politólogo Diogo Noivo, especialista em terrorismo considera que esta alteração "faz todo o sentido por três razões". A primeira "porque temos assistido a um conjunto de situações noutros países europeus, incidentes terroristas motivados pelos acontecimentos do médio oriente".

Segundo, "porque também têm sucedido atos de vandalismo contra instituições judaicas, designadamente sinagogas".

Em terceiro lugar "porque temos assistido no espaço público europeu a discursos que legitimam o discurso antissemita, tradicionalmente da extrema direita e das direitas radicais, mas agora também também assistimos a um discurso antissemita, muito violento, da extrema-esquerda e da esquerda radical, que legitima o ódio antissemita".

Com "a agravante", frisa, "de que este discurso antissemita nas ruas destas esquerdas, também tem sido usado em alguns parlamentos europeus e, em alguns casos, em governos, como o Podemos, em Espanha".

Assinala o autor do livro "Uma história da ETA - Nação e Violência em Portugal e Espanha" que "seja pelos incidentes terroristas que já aconteceram, que podem sugerir mimetismos, seja pelos ataques a instituições judaicas, seja pelos discursos antissemitas, faz todo o sentido aumentar o grau de segurança".

Por seu lado, André Inácio, investigador e perito em segurança interna, entende que "seguramente como resultado da cooperação entre forças e serviços de segurança a nível europeu, entende-se não correr riscos, elevando o nível de segurança por forma a evitar surpresas".

Assinala André Inácio que "temos, no seio da comunidade migrante, alguns radicais que em mesquitas ilegais incentivam à raiva contra o ocidente. São uma minoria mas importa ainda assim não arriscar".

A isto, completa, "acresce uma juventude alienada, manipulada por um ativismo suportado nas redes sociais que dá voz à raiva, frustração, por via de um discurso de ódio. Assim se mobilizando indigentes e gerando anomia social".

No "reverso da medalha, e em resposta a esses movimentos", afirma, ganha nova dimensão a retórica islamofóbica, alimentada por uma direita radical".

Por tudo isto, conclui, "face do que vem sucedendo na UE, faz sentido apostar na prevenção, elevando o nível de ameaça e atuando em conformidade com o PCCCOFSS para esse tipo de situação".

Contactado pelo DN ainda antes da notícia da subida do grau de ameaça, o ex-diretor do Serviço de Informações Estratégicas de Defesa (SIED), Jorge Silva Carvalho, já tinha defendido um "agravamento do estado de alerta". "As circunstâncias externas e internas ao espaço europeu, levam a assumir que há ameaças difusas e atendendo ao facto de que, tendo já ocorrido atentados na Europa, incluindo em países próximos, e manifestações de cariz radical, não pode ser descartado o fator oportunidade. Os lobos solitários por definição podem sê-lo em qualquer lugar desde que haja alguém que tenha sofrido um processo de radicalização. Não escolhem países, basta uma oportunidade".

Na linha de André Inácio, adverte que "mesmo tendo Portugal uma comunidade islâmica globalmente pacífica e integrada, também temos muitos milhares de novos imigrantes em relação aos quais não há conhecimento aprofundado quanto às suas convicções, motivações e background, e que as próprias comunidades muçulmanas existentes não conhecem".

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