Na primeira vez que os europeus regressam às urnas, em junho, após o revés do Brexit, 2024 é também marcado por grandes decisões na política europeia. Entre os eurodeputados das diferentes famílias políticas, há vários alertas sobre os caminhos a seguir na encruzilhada europeia..O primeiro momento decisivo será fechar um acordo a 27, para "a revisão do quadro financeiro plurianual" e, com isso, "garantir o apoio de 50 mil milhões de euros" para a Ucrânia enfatiza o eurodeputado Paulo Rangel (PSD). Ao mesmo tempo, defende, será preciso fazer avançar o Pacto para as Migrações, entretanto acordado politicamente entre o Parlamento e o Conselho..O combate ao aumento do custo de vida, com "propostas de medidas que protejam as pessoas desta crise", é uma das prioridades que o eurodeputado Pedro Marques (PS) quer ver iniciada já em 2024, prometendo defender em Estrasburgo "políticas mais viradas para as pessoas"..Num plano idêntico, José Gusmão (BE) entende que "as limitações que são impostas aos Estados-membros no sentido de implementarem políticas sociais exigentes", devem ser contrariadas, argumentando a favor de políticas que promovam o acesso à habitação..A pensar no cenário pós-eleitoral, o eurodeputado Nuno Melo alerta para a importância de a futura distribuição de pastas no executivo comunitário garantir que "cada Estado tem pelo menos um comissário", a fim de assegurar a "importância dos países mais pequenos"..O eurodeputado João Pimenta Lopes (PCP) defende um "caminho alternativo" que respeite "a soberania de decisão de cada Estado", garantindo a "revogação do Pacto de Estabilidade e a sua substituição por um Pacto pelo Progresso Social"..A presidente do Parlamento Europeu, Roberta Metsola afirma que o regresso às urnas - de 6 a 9 de junho - "será o momento para os cidadãos europeus decidirem em que direção a UE irá encaminhar-se nos próximos anos"..A avaliar pelo mais recente estudo da instituição com sede em Estrasburgo, a União Europeia está confrontada com a necessidade de desenvolver políticas capazes de combater a pobreza, evitar a degradação das condições de vida provocadas pelas alterações climáticas, promover ajudas à economia e políticas de saúde pública. As prioridades foram identificadas no eurobarómetro que é habitualmente publicado a seis meses da realização de eleições para o Parlamento Europeu..Metsola já prometeu corresponder às expectativas "dos cidadãos que confiam na UE para encontrar soluções", perante "este contexto geopolítico e socioeconómico desafiador". Comentando os resultados do mais recente eurobarómetro, Metsola afirma que "a grande maioria dos europeus acredita que as ações da UE tiveram um impacto positivo na sua vida quotidiana"..Porém, a imprensa europeia tem assinalado uma certa "perceção negativa", relativamente à democracia na UE. O site Politico citava uma sondagem, realizada pela Ipsos em França, Polónia, Croácia, Itália e Suécia, que a par da "visão favorável da UE" demonstrou que o número de inquiridos que se diz satisfeito com o funcionamento da democracia europeia está abaixo dos 50%. Pior é que o número de cidadãos que se sente com influência nas decisões da UE está nos mínimos - 20% no caso da Polónia. Em todos os outros Estados o número é inferior. A sondagem sugere que os cidadãos se sentem limitados nas opções europeias..Em 2014, ficou no ar uma impressão que o voto nas eleições europeias poderia influenciar o curso das decisões na UE, quando as famílias políticas com assento em Estrasburgo apresentaram, pela primeira vez, um cabeça de lista. Jean-Claude Junker, concorreu nas listas do Partido Popular Europeu (PPE), que acabou por ser o partido mais votado. E, por essa razão, pareceu natural que o antigo primeiro-ministro luxemburguês fosse conduzido à presidência da Comissão Europeia..Este ano, as famílias políticas, com assento no Parlamento Europeu, preparam-se para apresentar, novamente, um cabeça de lista às eleições europeias, o chamado Spitzenkandidat que seria, em princípio, o candidato à liderança do executivo comunitário. O processo tem potencial para "aumentar a visibilidade e a relevância das eleições europeias" e contribuir para a sua "transparência", sendo promissor para a "credibilidade democrática" da escolha dos cargos de topo, na UE. No estudo "O Processo do Spitzenkandidat nas Eleições Parlamentares Europeias de 2014 e 2019", Stergios Fotopoulos e Luciano Morganti, investigadores da Universidade Livre de Bruxelas, alertam para a o desafio de manter a atenção e o interesse a longo prazo, num processo cuja eficácia depende, entre outros aspetos, do envolvimento dos partidos políticos nacionais, em eleições que são, geralmente, dominadas por assuntos domésticos. Mas, há outros factores que fragilizaram definitivamente a apresentação de um "candidato-líder" na expectativa que este viesse a ser presidente da CE..Recordando o que aconteceu em 2019, quando Manfred Weber - Spitzenkandidat do PPE, vencedor das eleições - foi obrigado a desaparecer de cena, os eurodeputados acreditam que a "mera coincidência" de há nove anos, poderá não se repetir. O mais provável, admitem fontes europeias ao DN, é uma repetição do que aconteceu em 2019, quando Ursula von der Leyen, então ministra alemã da Defesa e um nome fora da equação, reuniu um número generalizado de apoios entre presidentes e primeiros-ministros no Conselho Europeu..O deputado do Bloco de Esquerda, José Gusmão afirma mesmo que "o processo do Spitzenkandidat ficou ferido de morte com a eleição de Ursula von der Leyen", a qual, sublinha, "não foi candidata a coisa nenhuma, não foi eleita para coisa nenhuma e é hoje a presidente da CE"..O deputado europeu lamenta que "a perda de credibilidade que esse processo enfrentou", sem "nenhuma garantia que isso não volte a acontecer novamente". Isto é, "que os cidadãos europeus não se desloquem às urnas, pensando que estão a votar num qualquer candidato-líder, para virem a descobrir pouco depois que o candidato que escolheram foi substituído por um qualquer negócio entre os grandes grupos do Parlamento Europeu"..O eurodeputado Pedro Marques crítica a opção do Conselho Europeu quando em 2019 abdicou do resultado das eleições europeias, colocando um novo nome em cima da mesa. E isso "não foi a melhor solução que acabou por se encontrar, por não se ter seguido os candidatos indicados pelas famílias políticas"..Pedro Marques reconhece que o processo "não ficou bem tratado e bem defendido com esta última situação" em 2019. Mas isso "não impede de continuar a achar que é preferível continuar a ter esta clareza de uma proposta e de um rosto das principais famílias europeias", afirmou ao DN, não falando por agora em nomes. "Isso será decidido no nosso congresso", adiantou Pedro Marques, situando a decisão na reunião magna do Partido Socialista Europeu, que terá lugar "em fevereiro"..Por outro lado, na família do Partido Popular Europeu, o eurodeputado Paulo Rangel considera que o "mais expectável é que a presidente von der Leyen continue na Comissão (...) porque tem sido um dos grandes rostos da UE e de facto uma presidente extremamente bem sucedida"..A "noção muito clara dos desafios e das prioridades", assim como "a grande capacidade de diálogo com os vários Estados" que Paulo Rangel identifica em Von der Leyen resolveria a distribuição de um dos cargos de topo, que será um dos desafios do próximo ano. Além da presidência da CE, em 2024 vão expirar os mandatos do presidente do Conselho Europeu, do Alto Representante para a Política Externa e da presidente do Parlamento Europeu. A escolha dos nomes para os sucessores de Charles Michel, Josep Borrell e Roberta Metsola nos top jobs em Bruxelas promete ser outra tarefa complicada, numa UE que se polariza do ponto de vista político..Além de Portugal, com eleições legislativas marcadas para 10 de março, outros seis países europeus vão a votos antes do verão. A Finlândia tem presidenciais marcadas para o final de janeiro, dia 28, e 11 de fevereiro, para uma eventual segunda volta. A Eslováquia terá presidenciais, em abril. A Lituânia elege o chefe de Estado em maio. A Bélgica realiza legislativas no mesmo dia das europeias..Como fator de "preocupação", Paulo Rangel aponta o cenário de instabilidade política resultante da vitória de Geert Wilders, do PVV, nas eleições de 22 de novembro, nos Países Baixos, sendo "expectável" que o político da extrema-direita holandesa "se torne primeiro-ministro".."Se juntarmos a Eslováquia [liderada por Robert Fico] e a Hungria [de Viktor Orbán] temos aqui uma tração pouco pró-europeia que, naquelas votações que exigem unanimidade, pode criar muitos problemas", afirmou Paulo Rangel, alertando para a dificuldade que será "ultrapassar" a posição de um grupo de países, que terão mais peso do que "a voz isolada" de Viktor Orbán..Nuno Melo parte também do exemplo das eleições nos Países Baixos para alertar para "o desafio" que é "tentar que os atuais equilíbrios, que assentam na prevalência de partidos de centro-esquerda e de centro-direita, se mantenham depois das eleições europeias". O eurodeputado considera que "há um risco real de uma ascensão, de um crescimento, de extremismos que combatem a UE", em detrimento dos "partidos que são lúcidos e construtores do projeto europeu". O que sucedeu nos Países Baixos é o exemplo de que "a questão já não é académica nem retórica, é uma possibilidade e é real"..Por outro lado, Pedro Marques lança farpas ao que diz serem "as tentativas" dos partidos nacionais que compõem a família política do PPE de se aliarem a partidos da "extrema-direita", denotando uma "deriva da direita conservadora europeia em direção a valores que são mais próprios dos populistas". E dá os exemplos de Espanha e de e Itália onde, no segundo caso, "a tentativa foi bem sucedida"..Já Pimenta Lopes argumenta que "as forças de extrema-direita mostram que convivem bem com as políticas da UE e que esta convive bem com estas forças", acusando "os grandes interesses económicos e financeiros de promoverem forças de extrema-direita que, apresentadas como sendo "anti-sistema", representam na realidade aquilo que o sistema tem de pior"..José Gusmão nota que "a extrema-direita está com dinâmicas diferentes, em diferentes países". No caso de "Portugal, por exemplo, está a crescer, mas há outros países em que a bolha está um bocadinho a rebentar", afirma, desvalorizando "as previsões que servem mais para insuflar o fenómeno do que propriamente para o combater"..Distribuição dos eurodeputados pelas famílias políticas no atual Parlamento Europeu. O atual hemiciclo conta com 705 membros, depois da saída dos 73 deputados do Reino Unido na sequência do Brexit e da redistribuição de 27 lugares. O próximo terá 720 assentos.