Também em Lisboa se instalou a discussão (e bem!) sobre a implementação do conceito de "cidade dos 15 minutos", do Prof. Carlos Moreno, e muito divulgado face aos compromissos assumidos pela Presidente da Câmara de Paris, Anne Hidalgo. É impossível não existir consenso sobre este conceito de cidade descentralizada, que não se desenvolve em função do automóvel, e onde a promessa é termos escolas, comércio, serviços, e o nosso local de trabalho a 15 minutos de distância..Porém, os 15 minutos estão longe de ser a experiência de quem utiliza os transportes públicos urbanos. São habituais as queixas, desde escadas rolantes que não funcionam a avarias em pórticos, já para não falar dos sucessivos atrasos. Ainda há dias o testemunhei: às nove da manhã na linha verde do Metropolitano da capital, o tempo de chegada de uma composição à plataforma chegava praticamente a dez minutos. Lisboa é (hoje) a cidade dos 15 minutos... de espera..Salvaguardando que alguns dos problemas do Metro de Lisboa podem estar a montante, da existência de material circulante e à sua fiabilidade - no último Relatório e Contas podemos ler "[a] série histórica revela a tendência para o decrescimento progressivo da fiabilidade do material circulante" -, é certo que para muitas das questões não existe sequer prestação de contas públicas..O Metro poderia ser um exemplo do modo como uma política de dados abertos, a colaboração com a academia e a inteligência artificial poderiam ajudar a maximizar eficácia e eficiência nos transportes urbanos. Mas não existem dados. No portal de dados abertos da Câmara Municipal de Lisboa, as informações sobre viagens de metro são muito escassas e têm mais de cinco anos, não existe qualquer dado sobre disponibilidade do material circulante, não há qualquer prestação de contas sobre o funcionamento das infraestruturas de acesso ao metro, e apresenta uma total ausência de explicação para fecho de portas de acesso ao metro, entre outros exemplos..Naturalmente, a primeira coisa em que pensamos quando ligamos transportes e inteligência artificial é a automatização das composições, mas tal está longe de ser a questão principal..Com a recolha e o tratamento de dados, a inteligência artificial tem o condão de, logo à partida, "antecipar" as necessidades dos utilizadores da rede de transportes, e adaptar a oferta à tipologia dos clientes, mas também às horas do dia (com maior ou menor afluência), às zonas da cidade com mais utentes, entre muitas, muitas outras. Um outro exemplo, o metro do Porto, em 2019, iniciou um projeto com a academia, para com dados e inteligência artificial, antecipar necessidades de manutenção no material circulante..Com verdadeiros dados abertos, a academia e algumas start-ups, poderiam desenvolver conhecimento sobre esses dados ou mesmo até aplicações, quer para os cidadãos, quer para o próprio Metro. A inteligência artificial pode ter um papel determinante na análise de rotas, bem como no controlo em tempo real das carruagens ou dos pórticos de acesso de acordo com o fluxo de passageiros. A segurança poderá também ser substancialmente melhorada: a deteção de bagagem abandonada ou elementos estranhos nas plataformas ou nas composições será mais eficaz com recurso à tecnologia. Existem ainda outros exemplos, mais sofisticados e que ainda podem ser vistos como ambiciosos para a realidade portuguesa: por exemplo, em Shanghai, na China, existem sistemas de controlo do ambiente das estações e das plataformas do metro, regulando a existência de gases tóxicos, a luminosidade e a temperatura..A inclusão e a prevenção do viés da inteligência terá de ser salvaguardada - e esse é um tema ao qual é preciso prestar atenção desde o primeiro momento. A programação não pode discriminar, e deve ser construída de maneira a antecipar questões éticas e à proteção das franjas mais desprotegidas da sociedade. E, em simultâneo, mantendo a descentralização de poder sobre essas estruturas de inteligência artificial, para que não haja desconfiança popular a respeito de quem domina este instrumento e evitando receios desajustados no que toca a questões como a vigilância..O ponto determinante neste momento é melhorar a rede de transportes em Portugal, seja o metro, comboios, barcos, táxis ou TVDE (que já utilizam alguma inteligência artificial nos seus dispositivos)..E essa melhoria pode ser alcançada através da tecnologia, fazendo dela um instrumento fundamental para um serviço humanizado cujo foco prioritário é o cidadão e a sua interação com a cidade, sem o atrasar e demover de deslocações. Para que a metrópole seja, de facto, uma cidade dos 15 minutos..Consultor e especialista em inovação e transformação digital