Há 50 anos travaram-se as batalhas da Guerra dos Seis Dias. Num ambiente de cerco crescente, Israel tomou a iniciativa. A vitória militar sobre o Egipto, a Jordânia e a Síria permitiram ao novo país - cujas fronteiras haviam sido desenhadas pelas Nações Unidas 20 anos antes - ganhar uma "profundidade estratégica" que tem sido a fonte de esperanças e conflitos. Com avanços e recuos, violências e abusos de parte a parte, acredito que um dia israelitas e palestinianos darão corpo à fórmula de dois povos e dois Estados. A paz será encontrada e mantida, por uma mistura de pragmatismo e cansaço. O que me faz evocar os acontecimentos que levaram a ONU a reconhecer a existência de um Estado do povo judeu em 1947, quase dois mil anos após a segunda destruição do Templo pelos Romanos (70 d.C.), é o modo como na mentalidade europeia atual as raízes sombrias e malignas desse processo foram rapidamente esquecidas. Em 2017, a população judaica mundial é ainda inferior à que existia antes de 1939, e do início do Holocausto (14,3 milhões contra 16,7 milhões). A maior diferença consiste em que hoje, na Europa, a população judaica é residual (1,4 milhões), estando a maioria esmagadora dos judeus concentrados em Israel e nos EUA..A ideia de um "Estado dos Judeus", proposta no opúsculo homónimo de Theodor Herzl, em 1896, era a de um nacionalismo de pura e legítima defesa, contra o aumento do ódio e da intolerância registados no século XIX. A maioria esmagadora dos judeus preferia seguir o caminho da integração. Bons cidadãos dos Estados europeus, não perdendo, todavia, a sua identidade cultural. Essa capacidade de separar a esfera política da esfera religiosa e cultural tinha sido aprendida, duramente, em séculos de perseguições. Nietzsche, que a ignorância invencível dos nazis tentaria transformar num dos seus ícones, admirava nos judeus a sua disciplina e versatilidade. Elas eram baseadas num investimento extraordinário das famílias no estudo e na educação. O filósofo alemão considerava, com inteiro rigor histórico, que os judeus tinham sido agentes fundamentais na manutenção da herança do helenismo clássico na matriz cultural do Velho Continente. Ser judeu na Europa do século XIX significava ser poliglota, ter capacidade para estabelecer pontes e redes de contacto. A vocação dos judeus integrados era, no fundo, uma vocação internacionalista. Nietzsche, tal como o nosso Andrade Corvo, temia que a "doença" do nacionalismo devorasse os europeus numa grande guerra fratricida. Pelo contrário, ele considerava os judeus como um dos fermentos da unidade europeia, desse novo "homem europeu" que vislumbrava num futuro desejável. Na verdade, nenhum outro povo deu tanto a todos os outros como os judeus. Apesar de serem apenas 0,2% da população mundial (1 em cada 514 habitantes deste planeta), a identidade cultural judaica é partilhada por 22% de todos os Prémios Nobel (em todas as categorias), por 38% de todos os prémios Óscar para realizadores de cinema, 20% dos prémios Pulitzer para obras não ficcionais... Um dos paradoxos da Europa atual reside nisto: se retirássemos o contributo que a minoria judaica deu para a construção do que consideramos serem os valores e a identidade europeia e ocidental, ficaríamos com uma amálgama amorfa e irreconhecível. Contudo, continuamos incapazes de admitir que as responsabilidades por estarmos hoje privados de um maior contributo judaico para a atribulada construção europeia não podem ser atribuídas apenas a Hitler e seus esbirros.