Antes de se reformar da companhia residente do Teatro Nacional D. Maria II, Jacinto Ramos fez trajectória pelos palcos, nos anos 90, apagada em relação a momentos altos duma carreira iniciada nos anos 40, quando fundou, com José Viana, o grupo de amadores da Sociedade Guilherme Cossul. Intérprete de peças como O Diário de um Louco, segundo Gogol, Menina Júlia, de Strindberg (que também encenou, obtendo o Prémio Robles Monteiro, 1962) ou O Porteiro, de Pinter;parceiro de duplas memoráveis com Eunice Muñoz (Adorável Mentiroso e Gin-Game, encenação sua já nos anos de chumbo de 80 no D. Maria II, onde entrou em 1950, na Companhia Rey Colaço/Robles Monteiro),ou Glória de Matos (Quem Tem Medo de Virginia Woolf?), não levava público aos últimos espectáculos, com Agustina directora. Assim em Dueto, de Tom Kempinski, ou Três Mulheres Altas, de Edward Albee (ainda com Glória de Matos), no São Luiz, produções do Nacional cuja inadequada promoção o actor e encenador acusava, amargo mas sempre delicado. Então, em 1994, depois de ter sido várias vezes premiado, seria condecorado com a Ordem de Santiago da Espada.. Homem culto, divulgador de poetas, Jacinto Ramos iniciou-se nos recitais a acompanhar Fernando Lopes Graça e distinguiu-se sobretudo com o projecto Cantando Espalharei, 1985 -ao lado de Eunice, em digressão por 80 localidades do País e pelo estrangeiro, de Macau à América Latina. Com realização de Lauro António para a RTP, o recital converteu-se numa série de programas televisivos. A TV - onde fez teatro como todos os actores da velha geração, em peças como Frei Luís de Sousa ou Henrique IV -, mais recentemente, ia-lhe divulgando a imagem junto do grande público, em novelas como A Banqueira do Povo (1993) ou Filhos do Vento (1996)..Lauro António - que agora declarou à Lusa ter-se perdido «mais um grande marco na história do espectáculo em Portugal» - foi um dos realizadores que dirigiram o actor no cinema, em Manhã Submersa (1980), segundo o romance de Vergílio Ferreira, filme onde desempenhou o papel de Padre Martins, num elenco que integrava, mais uma vez, Eunice Muñoz.Também teve o projecto, não concretizado, de adaptar ao grande ecrã Alegria Breve, do mesmo Vergílio Ferreira, mas, no cinema, como actor, Jacinto Ramos atravessou várias décadas até à de 80. Desde a interpretação de Mouzinho de Albuquerque em Chaimite, de Brun do Canto, de quem foi assistente (1953) até filmes como A Costureirinha da Sé, de Manuel Guimarães (1959), Benilde ou a Virgem Mãe, de Oliveira (1975) e As Ruínas no Interior, de Sá Caetano (1977). .Nascido em Lisboa a 3 de Outubro de 1917, dinamizador do teatro universitário (dirigiu o CITAC de Coimbra nos anos 60), autor, com Luz Franco, do livro Esta É a Ditosa Pátria Minha Amada, Jacinto Ramos era pai de Manuel João Ramos e integrava, à data da morte, a comissão instaladora do Sindicato das Artes do Espectáculo.