O tema da habitação, ou a falta dela, foi trazido a debate pelo governo socialista. E uma vez que o assunto é fulcral, o mérito por catapulta-lo para a esfera pública deve ser reconhecido..Depois de desvendados os detalhes do Programa Mais Habitação, apresentado pelo Executivo de Costa, percebeu-se que (ao contrário do que alguns tentaram propagandear) os governantes ouviram e consensualizaram. Melhoraram a proposta inicial, despindo-a de "complexos ideológicos" e não só..Contudo, convém desobscurecer o ponto na sua plenitude: há um problema grave de habitação em Portugal. É daí que resulta o imperativo moral e cívico para fazer cumprir o direito à habitação, seja esse constitucional ou não..A falta de habitação no nosso país impede que se atinjam condições mínimas de dignidade, aumentando consequentemente a iniquidade de oportunidades. Daí engrandecem-se as assimetrias, cavando o fosso entre quem mais pode e quem menos tem. Se a inação continuasse as consequências futuras seriam ainda mais drásticas para a sociedade no seu todo..Assim, o combate à falta de habitação, não como pressuposto legal mas sim como um devir moral, tem de ser feito por todos. É por isso que o Estado tem um papel relevante e deve dar o exemplo, começando pela transformação de algum do seu património em nova habitação pública..A seguir ao Estado vêm os privados, isto é, os cidadãos que têm património edificado e sem uso. Esses também podem dar um contributo essencial no auxílio ao próximo e no fomento de uma sociedade mais justa e solidária, portanto, o sítio onde todos queremos viver..O passo dado pelo Governo, ao colocar o património do Estado ao serviço das pessoas, não é mais que liderar pela força do exemplo e não pelo exemplo da força..Mas não basta. É preciso um entendimento amplo e que não partidarize a habitação. A troca de acusações não resolve problema algum. As pessoas precisam de casa e a partidarização deste tópico não lhes dá um teto, pelo contrário. Leva-as ao desespero e à descrença no sistema democrático. Não é tempo de acusações, é sim tempo para soluções..Este problema tem sido transversal às sucessivas governações do país. Perante esse facto, há maioritariamente dois cursos de ação vigentes: gritar ou insultar o Primeiro-Ministro, como o fazem os "líderes da oposição", seja o oficial ou o oficioso; ou o caminho do silêncio porque o tema é realmente complexo e não se pode falar do que não se sabe, como acontece nos extremos mais à direita..Qualquer uma dessas ações é um enorme "pisa papéis" que pretende esmagar o tema, condenando-o à ausência de soluções..Este é o momento da moderação e diálogo; é a hora de chamar apenas adultos para o interior da sala de debate. Só dessa forma se fomentará um entendimento que subsista e consiga resolver este gigante desafio social..As pessoas não querem saber de quem ordenou a construção da casa. Querem sim saber de quem assinou o diploma e o votou. No final, o que mais importará é a entrega da a chave para um teto com mais dignidade, ou seja, uma casa Portuguesa, com certeza.