Ao longo de 37 anos, a vida, interrompida ontem, de A Capital nunca foi fácil. Foi o primeiro jornal fundado por uma cooperativa de jornalistas, oito anos antes de O Jornal. Nacionalizado após a revolução, foi o primeiro título a ser privatizado pelo Estado, em 1988. Ao entrar, com O Comércio do Porto, na esfera Prensa Ibérica, foi um dos primeiros jornais portugueses detido por capitais espanhóis..E se, por um lado, antecipou tendências, por outro, A Capital foi o último dos três grandes vespertinos de Lisboa a desaparecer. O jornal só passou a matutino com a entrada na Prensa Ibérica. Mas o seu código genético transporta a marca de um tempo esgotado. Mário Crespo visitou-o, enquanto primeiro director de A Capital da era Balsemão "Fascinava-me aquela ideia de trabalhar num prédio do Bairro Alto, com uma rotativa em baixo", contou o jornalista ao DN. Lisboa era impensável sem osvespertinos, os jornais da tarde. E a concorrência era feroz, entre o Diário de Lisboa e o Diário Popular. A 21 de Fevereiro de 1968, A Capital torna-se uma nova carta desse baralho.."O jornal nasce de uma cisão no Diário de Lisboa. Ruella Ramos quis renovar o jornal e os directores. Norberto Lopes e Mário Neves, demitiram-se", contou ao DN Daniel Ricardo, hoje jornalista da Visão. A alguns quarteirões de distância da sede do Lisboa, A Capital instalava-se na Travessa do Poço da Cidade. "Fundada por dez profissionais, A Capital podia considerar-se uma sociedade de redactores, uma espécie de cooperativa, como até então nunca existira nenhuma entre nós", escreveu Norberto Lopes, em 1981..O primeiro número vendeu 30 mil exemplares. Mas o arranque não foi fácil. "O regime não gostava do jornal e, em 1972, Marcelo Caetano decidiu que deveria ser uma Época da tarde. Os directores saem e Manuel José Homem de Mello fica incumbido de domesticar o jornal, o que nunca conseguiu", diz Daniel Ricardo..O diário conhece o período mais estável após a revolução. "Nunca tivemos a preocupação de ser um grande jornal de referência. Mas este jornal foi uma escola para muita gente", diz Áppio Sottomayor, que esteve na redacção de 1969 até ontem. A sua coluna sobre Lisboa, O Poço da Cidade, era uma referência incontornável. "As primeiras milnem foram assinadas", diz. "O jornal tinha um espírito, um certo orgulho em ser de A Capital que esmoreceu, mas regressou com a geração actual", afirma. ."O jornalismo de A Capital era.muito bom e deve-se aos três chefes, o Áppio Sottomayor, o João Vaz o José Sarabando. Às oito da manhã estava tudo a escrever", lembra Mário Crespo. Some-se a estes o nome de Rudolfo Iriarte e obtém-se o núcleo duro que formatou a identidade de um jornal que privilegiava a notícia pura e dura, a proximidade com o leitor e o culto do esforço, num diário feito em contra-relógio permanente. O então estreante João Gobern entrou nessa escola em inícios de 80 "No meu primeiro dia escrevi sobre gastronomia, um concurso hípico e fiz um perfil do António Oliveira." Os espectáculos eram um pilar do jornal: "Dávamos tudo o que os matutinos só iam dar no dia seguinte. Trabalhava-se muito à noite", lembra o jornalista..A venda do título à Sojornal marca o fim deste período. Rudolfo Iriarte era candidato à compra e foi derrotado. Abre-se uma brecha no núcleo duro. O jornalista não voltou sequer a falar sobre A Capital, regra que não quebrou para o DN..Áppio Sottomayor diz que o declínio do título tem início "quando o jornal começou a politizar-se", afastando-se do modelo popular que sempre dera frutos. O consulado de Helena Sanches Osório, nos anos 90, é marcado pelas tensões com os históricos, como José Sarabando. Mas o mundo à volta mudara já não havia outros vespertinos, a Imprensa diária estava muito mais forte. António Matos e, depois, a Prensa Ibérica assumem o título, mas os números continuaram a piorar até ao primeiro trimestre de 2005 (ver pág. 38). Luís Osório, o último director, enjeita responsabilidades "O que fiz foi estancar a descida nas vendas e recuperar notoriedade para o jornal. O aumento das vendas estava previsto numa segunda fase, para a qual não tive meios", afirma. .A vida interrompida de A Capital continua com jornalistas na redacção que não aceitam a hora do fecho.