"Um Japão forte precisa que a sua educação seja mais rebelde e criativa"

Professor na Universidade de Tama veio ao ISCTE falar sobre o conceito Sociedade 5.0 e do seu contributo para um crescimento sustentável. Noburu Konno diz que jovens têm de ser menos conformistas e abrir-se mais ao mundo para o país voltar a ter uma economia dinâmica.
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Toyota, Sony ou Honda para nós na Europa são marcas míticas, mas muitas vezes começaram por ser obra do espírito empresarial de uma pessoa e até devem o nome a essa pessoa. Os fundadores destas empresas são o exemplo do espírito empreendedor dos japoneses?
Sim. Os exemplos que deu são empresas excecionais. A Sony e a Honda foram criadas logo depois da II Guerra Mundial, isso quer dizer que os fundadores viram como dar a volta à destruição em redor. Eles tinham um espírito empreendedor, foram feitos para pensar e agir, e era uma época em que ninguém lhes podia cortar as pernas. Na Sony, Masaru Ibuka e Akio Morita, juntos mas cada um à sua maneira, são o típico empreendedor japonês. E mais ainda Soichiro Honda, filho de um ferreiro. O caso de Kiichiro Toyoda foi diferente, criou uma empresa a partir de outras suas.

Pode explicar de maneira um pouco diferente? A Toyota não é o produto de um homem?
Não. A Toyota é uma empresa muito antiga. A família começou por ter uma empresa têxtil, o que quer dizer que tinham um bom sistema de fazer as coisas na indústria têxtil e usaram esse conceito de negócios aplicando-o em outras indústrias. Foi assim que nasceu o ramo automóvel, o mais famoso hoje. Beneficiou muito da tradição e dos ativos de conhecimento nas comunidades.

O pós-Segunda Guerra Mundial foi um período de grande mudança para o Japão, capaz de emergir da derrota ao fim de alguns anos como grande potência económica . Mas a Revolução Meiji, no século XIX, foi também uma era de grande transformação, pois mudou não apenas politicamente, mas também economicamente, o Japão?
Claro. A Revolução Meiji fez o país mudar para um modelo mais europeu, ou americano, de produção. Introduziram-se muitas tecnologias e sistemas ocidentais no início da Era Meiji. A liderança política tentou tornar o Japão um país ocidental durante os meados da Era Meiji mas depois voltou-se a uma espécie de tradição japonesa, que mitigou o efeito das transformações e a cultura tradicional recuperou, sobretudo no período Taisho que era um modelo muito japonês de cultura, mas isso não durou muito, porque a seguir veio o primeiro período da Era Showa, que foi a época da turbulência, da militarização, da Segunda Guerra Mundial. Depois de 1945, um segundo período da Era Showa foi de democracia e de desenvolvimento económico.

Para entender como o Japão se tornou bem-sucedido, a educação é uma grande parte da fórmula?
Até agora, sim.

E vemos essa tradição de educação até antes da Revolução Meiji, nos 200 anos em que o Japão esteve fechado ao mundo depois do contacto entre meados dos séculos XVI e XVII com os portugueses?
Não, não. Antes da Revolução Meiji as pessoas eram provavelmente mais relaxadas, de uma certa forma. Porque durante o período Edo não havia fortes setores industriais, era tudo mais orgânico, por isso algumas pessoas ainda gostam desse tipo de período. Sem grandes manufaturas, sem revolução industrial, eram comunidades sustentáveis. Mas depois da Revolução Meiji as ideias ocidentais vieram e o Japão transitou para o mundo moderno. Para estar no mundo moderno tinha de fazer coisas como investir na educação, ter umas forças armadas fortes e criar indústria através do governo. Portanto, a perceção dos japoneses como muito obedientes é depois da Revolução Meiji.

Mas continua a achar que a educação é uma das forças do Japão?
Sim e não nestes dias, porque nós somos demasiado obedientes, o que nos impede de criarmos novas ideias. Precisamos que a educação seja mais rebelde e criativa, mais independente e autónoma.

Vê nesse conformismo da sociedade uma das razões por que o crescimento económico nas últimas décadas tem estado muito aquém do que antes ocorria, basta lembrar que na década de 1960 houve vários anos acima dos 10%?
Sim. O que aconteceu foi que os japoneses tinham-se tornado uma população engenhosa depois da Revolução Meiji e isto foi bom para a manufatura, para as forças armadas também, mas estas perderam a Segunda Guerra Mundial. Havia um monte de recursos não usados, pessoas, quando a guerra terminou. Então esses recursos foram libertados quando empresas como a Sony e a Honda apareceram. Antes da guerra, o treino era de forma ordeira, pedia-se às pessoas para serem obedientes, e esta lógica de obediência funcionou realmente depois de 1945, talvez durante uns 20 anos. O que aconteceu depois da bolha económica ter rebentado no início da década de 1990 foi que o Japão fixou-se na mesma teoria vencedora, que já não era apropriada para as mudanças na sociedade. Portanto esta obediência tornou-se a fraqueza, o que chamamos a isto é sobreadaptação ao sucesso passado. Portanto, quando a internet surgiu e o mundo mudou, o poder económico do Japão estava a diminuir, diminuir, diminuir, o que chamamos de três décadas perdidas.

Pensa que será importante liderança política para mudar esta disposição, ou terá de acontecer a partir da sociedade?
Liderança política claro que é importante, mas os governantes não exercem esse poder por causa da situação complicada do sistema político japonês, a relação de segurança com os Estados Unidos, por que o que o Japão aprendeu foi que sem gastar muito dinheiro em despesas militares e investindo esse dinheiro em inovação tecnológica isso era também um fator de sucesso. Mas agora temos de gastar mais nas forças armadas e por aí fora e isso implica que o sistema, mesmo que não esteja a colapsar, não está a funcionar bem. É um período de transição complicado, diria.

Vê a história económica do Japão como um modelo para Coreia do Sul, Taiwan e Sudeste Asiático?
Sim. Em parte, principalmente para os países do sudeste asiático, os japoneses foram um modelo. Todos viam o Japão como uma espécie de pioneiro até 1995. A prosperidade atual da Ásia Oriental foi originada pelo Japão mas o Japão é o país que está menos a lucrar com isso.

Inclui a China nos seguidores do modelo económico japonês, mesmo sendo um país comunista?
A China não acreditou no modelo japonês, mas teve o sentido crítico, de certa forma, de analisar e tirar a melhor parte do sucesso japonês. Por exemplo, no caso dos eletrodomésticos de linha branca, como as máquinas de lavar, analisaram a organização das empresas japonesas e adaptaram o que aprenderam à sua própria revolução na organização das empresas. Agora lideram esta área a nível mundial.

Vi recentemente o número de patentes por país e o Japão ainda é o número três, a seguir à China e aos Estados Unidos, mas com a Coreia do Sul muito perto. Este número de patentes científicas japonesas quer dizer que a criatividade ainda acontece nas universidades e nas empresas, mesmo com esta tradição de obediência?
O Japão está a mudar de obediência para desobediência, os negócios estão a mudar, acho que os jovens japoneses não se vão tornar só desobedientes, mas mais criativos e poderão contribuir para a mudança da sociedade. Mas o ponto é que todo o sistema japonês está ameaçado. Dizem que geração Z no Japão são 17%, e isto é apenas metade da média mundial.

Estamos a falar do problema do envelhecimento da população. Como é possível o Japão contrariar este problema?
É o problema mais crítico, ainda não existe solução. Os governos tentam introduzir IA e robôs e por aí fora, e também criar condições para trabalhadores estrangeiros virem, mas neste último caso ainda sem sucesso. O ideal mesmo é abrir o país. Não apenas aceitando estrangeiros, mas indo para fora e depois regressando, para que esta interação com outros países seja fortalecida. Essa é a melhor maneira, senão, se o Japão se mantém igual e começa apenas a dizer às pessoas para começarem a vir, não chega. Temos de ir para fora e interagir.

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