É claro que já todos ouvimos falar em sobremesas de ir às lágrimas, mas nunca eu tinha testemunhado um acontecimento em que essa visão se materializasse. Ainda que nesta noite não tenha sido exatamente o doce que pôs a sala de olhos rasos de água mas antes a sua criadora, pouco mais do que uma miúda mas dona de um talento absolutamente extraordinário..A coisa já se sucedia há um bocado: a cada novo prato, quem o assinava aparecia para explicar o que tínhamos pela frente e receber aplausos da plateia entusiasmada - a parte melhor deste tipo de espetáculo, em que é a comida a estrela, é que a audiência participa da forma mais deliciosa, provando e saboreando, fazendo despertar sensações físicas e emocionais nunca imaginadas. Mas quando veio a primeira sobremesa, a agitação da sala era palpável. O enigmático nome À Descoberta da Ásia a desvendar-se num crème brûlée de chá matcha com bolo de sementes de sésamo negro e gelado de molho de soja. E os convidados dessa noite a soltar exclamações de puro prazer a cada colherada. "UAU! It"s amazing! What flavour and texture... I"ve never tasted something so delicious... Extraordinary!".E quando a culpada por aquele êxtase coletivo entrou na sala para explicar o que estávamos a sentir e apresentar a sobremesa que se seguia, uma torta de azeite recheada de azeitonas caramelizadas com gelado de azeite português, a casa quase veio abaixo, com perto de uma centena de empresários, jornalistas, gastrónomos, influentes críticos de comida e vinhos, bloggers e até o mayor de San Jose a aplaudir de pé. Uma reação que deixou Jéssica, acabada de fazer 24 anos, de nó na garganta e metade da sala de lágrimas nos olhos, entre a empatia pelo que a jovem chef estava a sentir e verdadeira emoção por alguém conseguir criar algo tão extraordinário como aquelas sobremesas..Não é que os oito pratos servidos ao longo daquela noite no restaurante português Adega, que em menos de um ano de existência conseguiu conquistar a primeira estrela Michelin da cidade de San Jose, Califórnia, fossem banais (ver ao lado). Cada um dos outros quatro chefs presentes - o anfitrião David Costa, companheiro de Jéssica Carreira, George Mendes, do Aldea, em Nova Iorque, Alexandre Silva, do Loco, em Lisboa, e Pedro Lemos, do restaurante a que deu o seu nome, no Porto - preparou receitas que surpreenderam e deliciaram os convidados. Mas Jéssica trouxe realmente algo de único àquela noite do San Jose"s Michelin All-Star Experience, que se concretizou numa série de jantares gourmet solidários (parte dos fundos foi doada à organização No Kid Hungry, que combate a fome entre crianças no estado da Califórnia) naquele restaurante em pleno bairro Little Portugal, a minutos de Silicon Valley..[artigo:8653284].Assinatura 100% portuguesa."Quando nos lembrámos de fazer isto, só com chefs portugueses, e perguntámos ao Guia Michelin se podíamos usar a marca, eles surpreenderam-se", conta David Costa, explicando que ideia semelhante estava coincidentemente para ter lugar noutros restaurantes distinguidos. Aprovado o evento, rapidamente o turismo da cidade subiu a bordo - o potencial de ter cinco chefs Michelin ali ao virar da esquina não é nada desprezível -, com o próprio mayor de San Jose, Sam Liccardo, a agradecer o que os jovens chefs portugueses estão a fazer por San Jose..O que não é de estranhar, tendo em conta a qualidade dos profissionais que aceitaram o convite de David e Jéssica, assinando pratos que provocavam verdadeiras explosões de sabor a cada garfada, como a caldeirada de peixes e mariscos frescos de Pedro Lemos. Ou que despertavam sensações surpreendentes, como o carabineiro com tangerina (em pedaços granizados que adicionavam uma frescura extraordinária ao produto) de Alexandre Silva. Ou simplesmente nos transportavam para a beira-mar, como o atum servido no seu dashi (caldo) apresentado por George Mendes..E porque David Costa - que fez o pleno com a sopa de couve-flor, o abalone, caviar e pastel de bacalhau que deixou um formigueiro palpável na sala, o ovo com trufa preta, a salada de orelha de porco e o borrego - não é pessoa de deixar nada ao acaso, para empratar cada proposta foram escolhidos pratos Vista Alegre adaptados aos sabores que iam acolher..[artigo:5760620].Numa casa portuguesa não podiam faltar bons vinhos e isso mesmo garantiu Carlos Carreira, alentejano que emigrou para os Estados Unidos há mais de 30 anos e que, com a mulher, Fernanda (filha de emigrantes açorianos em San Jose), teve uma empresa de importação vinícola (vendeu em 2010). O cuidado na escolha de cada marca, ano de colheita e temperatura para potenciar os sabores e ingredientes de cada um dos pratos apresentados resultou num casamento perfeito que deixou de boca aberta até o representante da Wine Enthusiast - revista especializada que já atribuíra ao Adega o epíteto de um dos mais entusiasmantes restaurantes de vinhos dos Estados Unidos. Perante a parede de vidro recheada de garrafas que divide o espaço do restaurante, o conceituado jornalista de vinhos Nils Bernstein afirmou mesmo: "É uma seleção realmente extraordinária, provavelmente a maior coleção de vinhos portugueses que existe fora do país. E que ajudou a fazer deste evento um jantar incrível.".Quem observasse a cozinha na véspera do evento nem desconfiava o turbilhão que por ali iria passar. Entre piadas e conversa descontraída, os chefs iam preparando o que podia ser antecipado com toda a calma. Da cozinha saíam gargalhadas e ofertas de uma mãozinha para ajudar numa ou outra tarefa mais morosa. Nada que ver com os pesadelos cinematográficos que nos chegam aos ecrãs, nem uma ponta de competição. Naturalmente, era entre amigos que se trabalhava, ainda que viessem de sítios tão distintos - a uni-los, a paixão pela comida..Essa sensação confirmou-se depois de todos os convidados deixarem o Adega e os chefs, despida a jaleca, convidarem os quatro jornalistas portugueses presentes para se juntarem a eles, a Fernanda e a Carlos para comemorar o sucesso do jantar num bar tipicamente americano - com jukebox, snoocker e um sino estridente a anunciar que a partir das 02.00 não se serve mais nada em terras do Tio Sam..Como tudo começou.Quando se mudaram para San Jose, mal Carlos - um alentejano emigrado para os Estados Unidos para se formar em Stanford - e Fernanda (quase mais americana do que portuguesa) podiam imaginar o que os esperava quando a única filha, nascida e criada nos Estados Unidos, decidiu que queria vir para Portugal aplicar o que aprendera no curso recém-tirado na academia Cordon Bleu, em Los Angeles. A ideia era conhecer melhor as suas raízes, sobretudo as que lhe despertavam memórias gastronómicas dos tempos passados com a avó, mas também a cultura, a forma de ser, os hábitos. Entre o choque e "algum receio" de que esta não fosse a escolha certa, Carlos e Fernanda aceitaram a opção da filha e logo tiveram de voltar a encaixar a ideia de que o estágio de três meses se tornaria um afastamento de três anos em que passou pelo Alma de Henrique Sá Pessoa, pelo DOP de Rui Paula e pelo Eleven, onde já se torna chefe de pastelaria. É nessa aventura que conhece David e em breve os dois decidem rumar aos Estados Unidos e abrir o Adega..Os pais e o companheiro tentaram dissuadi-la de abrir portas no bairro outrora recheado de portugueses mas que ainda mantém o nome de Little Portugal, "mas a Jéssica não tinha a menor dúvida de que era ali que queria instalar o Adega, por isso acabámos por ceder". Concretizado o sonho em dezembro de 2015, dez meses depois estavam a receber a primeira estrela Michelin, tornando-se uma imagem de marca da própria cidade de San Jose. Na ementa, brilham os pratos portugueses - caldo-verde, arroz de pato, polvo à lagareiro, ovos conventuais, mas também pombo fumado, tournedó de veado e outras opções mais elaboradas, como cabe a um restaurante Michelin - sem pretensões, tal como o ambiente da casa deixa intuir, com a sua parede de azulejo e as mesas simples de madeira maciça. Os clientes que todas as noites enchem a sala são maioritariamente americanos que descobrem todos os dias porque Portugal está na moda. E o resto é história..A jornalista viajou a convite da cidade de San Jose