A quela velhinha faiscante de vida, cinco réis de gente cheios de alma, espirituosa como um garoto de rua, alegre como um dia de sol"..Assim recordava o Diário Popular do dia 22 de novembro de 1945 a atriz Adelina Abranches, que morrera em Lisboa no dia anterior. Começara a carreira teatral aos 5 anos, levada pela mãe por sugestão de um vizinho que era porteiro no Teatro D. Maria. Contribuía assim para sustentar a numerosa família - eram oito irmãos - ganhando seis vinténs..A atriz teve uma longuíssima carreira - ao todo, 74 anos de trabalho. Atravessou os reinados de D. Luís e D. Carlos e o curto tempo de D. Manuel II, entristeceu-se com o fim da monarquia, casou-se, teve dois filhos que seguiram a profissão da mãe, divorciou-se e reconheceu nas memórias que não possuía "aquela dose de paciência que faz da mulher portuguesa o anjo do lar". Trabalhou sobretudo em teatro, incluindo na companhia que criou com a filha Aura, mas também em cinema e na rádio. Cinco réis de gente, diz a notícia que preenche um lugar de destaque na primeira página do jornal..O Diário Popular (1942-1991) tinha nascido três anos antes, juntando-se aos outros grandes vespertinos então existentes - o Diário de Lisboa (1921-1990) e o República (1911-1976). Só em 1968 chegou A Capital, que foi o último a morrer - em 2005. Ao longo de décadas, conviveram nas bancas quatro jornais que saíam à tarde e que atingiram tiragens de 150 mil exemplares..Mas estamos em 1945 e o Diário Popular, visado pela Comissão de Censura, anuncia-se como "o jornal da tarde de maior tiragem e expansão". Naquele 22 de novembro, tem na primeira página, em destaque, a fotografia sorridente de Adelina Abranches. Do lado esquerdo e mais abaixo, outra foto: uma rapariga loira tenta mergulhar um pé num balde. Diz a legenda: "Eis como, no meio das ruínas de Berlim, esta jovem se lava, pois não tem outro processo para obter um mínimo de indispensável higiene." Ao lado, uma notícia sobre a segunda audiência do julgamento de Nuremberga. Por baixo, uma reportagem sobre Salzburgo - "entre soldados americanos, raparigas bonitas e homens rancorosos"..Também na primeira página, arranca um texto sobre a "imensa e maravilhosa extensão" dos areais moçambicanos de João Belo (Xai Xai), de uma série sobre as "Terras do Império". Num anúncio, o jornal revela que vai publicar as memórias de Leon Blum, dirigente socialista francês, escritas quando esteve preso em Chazeron e em Bourassol, às ordens de Pétain, antes de ser entregue aos nazis..A manchete do DP está reservada a uma entrevista extraordinária que vai ter continuação no dia seguinte. O repórter Fernando Teixeira envia de Paris o relato de um prisioneiro português do campo de concentração de Dachau. O jornalista conta que se cruzaram por acaso e começaram a conversar por serem ambos portugueses. José Agostinho das Neves foi o primeiro a fazer perguntas, "atabalhoadas, doidas, a esmo": "Como está Lisboa?", "Ainda há esplanadas na Avenida?", "Quem trabalha no Nacional?", "Que livros publicou o Ferreira de Castro?".Está com saudades de Lisboa, este homem que foi um dos 32 mil sobreviventes do campo de extermínio de Dachau, perto de Munique, libertados pela 42.ª Divisão de Infantaria do Exército dos Estados Unidos. O que ele conta ao repórter é o horror. Da prisão, da lenta e caótica viagem de comboio até ao campo -sob bombardeamentos dos Aliados, das mortes, das doenças, da fome. Da desumanização: "Fechados nos vagões, comendo só uma vez ao dia - um pedaço de pão coberto de bolor e uma rodela de salsicha - e não tendo mais que meio decilitro de água por 24 horas, fomos caindo doentes a pouco e pouco. A fome, a sede e o calor mudavam as expressões. Loucos ou moribundos? Como a desgraça faz dos homens feras sem coração! Se nos visse, se visse como nos batíamos por um pedaço de pão a mais que sobejasse da boca de um doente! Depois as salsichas acabaram e foram substituídas por um tomate cru para cada vagão. Faz ideia do que seja dividir por 100 homens um tomate cru? Pois ninguém ficava sem o seu quinhão. E que ficasse! Era uma questão que nunca mais acabava - e ódios surdos e lutas e insultos.".Há um momento em que os dois homens têm um ataque de riso, diante da montra de um alfarrabista onde está exposto um livro "carcomido pelo uso": Viagens de turismo na Alemanha..O sobrevivente diz que em Dachau conheceu oito portugueses, vindos de diferentes pontos da Europa. "Só regressei eu e outro." Estes são alguns dos que, por razões variadas, foram apanhados nas redes nazis e que são o foco de uma investigação do Instituto de História Contemporânea da FCSH da Universidade Nova de Lisboa. Amanhã, haverá um pouco de José Agostinho das Neves na placa que o ministro dos Negócios Estrangeiros vai colocar no campo de concentração de Mauthausen, perto de Linz (Áustria).