Os chineses celebram já no domingo, dia 22, a chegada do Ano do Coelho, animal associado à longevidade, à paz e à prosperidade, pelo que a expectativa é de que os próximos 12 meses sejam de esperança. Serão também tempos de desafios, pois há novidades recentes preocupantes, como um crescimento económico de apenas 3% em 2022, o que, se ignorarmos o primeiro ano da pandemia de covid-19, é o pior resultado da China desde que, no final da década de 1970, Deng Xiaoping assumiu a liderança e, sem ostensivamente questionar o legado de Mao Tsé-tung, lançou uma série de reformas económicas que transformaram o país e o mundo..Há explicações várias para o fraco desempenho da economia chinesa e alguns são externos, como a guerra na Ucrânia, que veio destabilizar os circuitos comerciais e financeiros mundiais. Mas também há problemas internos, como uma política de tolerância zero com a covid-19, que fechou o país ao mundo e só há semanas começou a ser revista de forma muito radical, gerando agora grande número de infeções e de mortes numa altura em que em outros países, que sofreram muito com o vírus em 2020 e 2021, a pandemia começa a ser finalmente algo do passado..Habituámo-nos a olhar para os números oriundos da China com admiração, como se décadas de crescimento acima dos 10% fossem para se eternizar, uma duplicação do PIB a cada sete anos, que permitiu ao país ser agora a segunda maior economia, só atrás dos Estados Unidos. Mas um dia esse ritmo teria de abrandar e taxas de 6% começaram a ser vistas com bons olhos pelos governantes de Pequim, um objetivo, porém, falhado em 2022 e que deixa dúvidas para 2023, pois a perturbação global causada pela invasão russa da Ucrânia e a retaliação ocidental (sobretudo económica, via sanções) continua..Não está em causa o desenvolvimento espetacular da China nas últimas quatro décadas, mesmo com desigualdades sociais grandes e um fosso ainda entre litoral e províncias do interior. Mas Xi Jinping precisa de manter a população numa crescente prosperidade para justificar a conciliação entre comunismo e capitalismo junto dos 1400 milhões de chineses, que não conhecem alternativa ao sistema autoritário encabeçado pelo PC chinês..Antecipando uma desaceleração da economia, logo desde início dos seus mandatos o secretário-geral do partido e presidente da República, Xi Jinping, procurou travar outra ameaça ao prestígio do regime, a corrupção, o que aconteceu com algum sucesso, servindo também para consolidar o poder do líder..Um novo desafio é o demográfico. Em 1980 foi lançada a política de filho único, que travou a explosão da população, não deixando que o crescimento económico fosse absorvido por cada vez mais bocas para alimentar pelas famílias. Traumática para muitos chineses, habituados à ideia de família numerosa, o controlo dos nascimentos deu porém um grande impulso à economia, pois favoreceu a existência de uma grande percentagem de população ativa tendo em conta o baixo número de idosos (consequências das guerras da primeira metade do século XX e de algumas experiências falhadas de Mao) e de crianças. Agora, é o envelhecimento da população que preocupa e o fim da política de filho único, em 2015, não teve grande efeito de recuperação. Soube-se, entretanto, que em 2022 a população chinesa diminuiu em quase um milhão de pessoas, o que confirma a previsão da ONU de que, este ano, a Índia ultrapassará a China para se tornar o país mais populoso. É toda uma nova era..A quebra demográfica chinesa é reflexo do seu sucesso, pois a quebra da natalidade afeta sobretudo os países mais ricos. Basta pensar que ainda há dois dias o Le Monde fazia manchete com 2022 ter sido para a França o pior ano em termos de natalidade desde a Segunda Guerra Mundial e, mesmo assim, com 1,8 filhos em média por mulher, o país é mais fecundo da Europa. Também em termos de esperança média de vida os chineses já estão a par de vários europeus, se bem que o impacto da covid-19 pode vir a ser duro, como aconteceu com os Estados Unidos..Um Ano do Coelho, pois, de alguma esperança e de muitos desafios para a China. O resto do mundo não deixará de sentir o impacto. É a única certeza..Diretor adjunto do Diário de Notícia