Tusk e Kaczynski: dois atores na sombra das eleições polacas

38 milhões de eleitores polacos são hoje chamados às urnas neste país da UE. Partido nacionalista de direita pode vencer escrutínio após sete anos de domínio dos liberais
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Num debate televisivo em 2007, Donald Tusk dirigiu um tiro certeiro contra o seu principal rival, acusando Jaroslaw Kazcynski de um dia lhe ter apontado uma pistola num elevador e de lhe ter dito: "Matar-te para mim seria canja." O primeiro venceu as eleições legislativas desse mesmo ano, o segundo desmentiu o incidente, embora tenha admitido mais tarde que costumava andar com uma arma por uma questão de proteção pessoal no início da década de 1990. Figuras marcantes da política polaca dos últimos anos, Tusk e Kaczysnki representam dois partidos, o Plataforma Cívica e o Lei e Justiça, que simbolizam duas visões bastante distintas para um mesmo país. Apesar de nenhum deles ser candidato a primeiro-ministro nas legislativas de hoje na Polónia, são ambos atores na sombra, influenciando tanto quanto possível.

Jaroslaw Kaczynski e o seu partido Lei de Justiça, PiS, representam uma visão que coloca o ênfase na identidade nacional, no catolicismo e no conservadorismo social, com uma inclinação para a intervenção do Estado no apoio às famílias com necessidades e às pequenas e médias empresas que atravessam dificuldades. Idosos, pessoas mais pobres ou de cidades mais pequenas da Polónia estão entre os eleitores do PiS, que apresenta como candidata a primeira-ministra Beata Szydlo. Donald Tusk, do Plataforma Cívica (PO), representa uma visão de um país mais pró-União Europeia, mais virado para o mundo dos negócios e do investimento estrangeiro, mais liberal nos valores sociais e com uma carga menos religiosa.

A vantagem de Kaczynski

Pelo cargo que ocupa desde 2014, a presidência do Conselho Europeu, Tusk está impedido de fazer declarações públicas sobre as eleições. Algo em que o rival leva vantagem. (a defesa das ideias do PO cabe por isso à cabeça de lista e atual primeira-ministra Ewa Kopacz). "É minha obrigação para com a minha mãe e para com o meu irmão mudar a Polónia com todas as minhas forças, para consertar tudo o que está mal aqui. É o meu dever para com a Polónia", declarou Kaczynski ao semanário 'wSieci'. Apelidado de autocrata xenófobo pelos seus maiores críticos, o político de 66 anos é, para Rafal Chwedoruk, politólogo da Universidade de Varsóvia, citado pela Reuters, "alguém completamente inafundável. É um político que sobrevive há 20 anos". Jaroslaw é irmão gémeo de Lech, o presidente polaco que morreu num acidente de avião no aeroporto russo de Smolensk em 2010.

Na altura da tragédia, a forte ligação de Jaroslaw Kaczysnki à família tornou-se bastante evidente. A mãe, Jadwiga Kaczynska, encontra-se hospitalizada com um problema pulmonar e durante seis semanas ele poupou-a à notícia da morte do filho. E, para isso, montou um esquema digno do filme de Wolfgang Becker Adeus, Lenine! Todos os dias quando ia ver a mãe, Kacyznski trocava a roupa preta do luto por fato e gravata, contou à Reuters Michal Krzymowski, jornalista da edição polaca da revista 'Newsweek' que escreveu um livro sobre o ex-primeiro-ministro. Para contornar as perguntas da mãe sobre a ausência de Lech, Jaroslaw chegou a falsificar edições do jornal polaco Rzeczpospolita, no qual se escrevia sobre uma suposta visita à América Latina, de barco por causa da erupção do vulcão islandês. Kaczynska, que viria a morrer em 2013, saberia depois de toda a verdade.

As últimas sondagens para as eleições de hoje dão o PiS à frente nas intenções de voto com 37%, ficando a PO em segundo com 23%. A confirmar-se esta tendência, os nacionalistas de direita roubariam o poder ao centro-direita liberal, que governa a Polónia desde 2007. "A Plataforma Cívica está aqui para construir um dique e travar aqueles que querem transformar a Polónia num museu europeu do fanatismo", disse Ewa Kopacz, que ficou na chefia do governo e do partido depois de Tusk, de 58 anos, ter rumado ao Conselho Europeu. No debate televisivo da semana passada a delfim de Tusk declarou que é preciso conseguir distinguir "entre refugiados e imigrantes", enquanto a sua rival Beata Szylo argumentou que "a solução da UE está errada e os polacos têm razão em sentir receio".

O lado de Tusk

A ida de Tusk para Bruxelas, bem como a sua decisão - obrigação - em manter-se discreto, terá contribuído para o declínio do PO. Tal como o escândalo das escutas em que vários governantes aparecem a fazer afirmações grosseiras à mesa de um restaurante, o chamado caso do Waitergate. Nem o facto de a economia polaca ter tido uma expansão considerável em 10 anos parece convencer já muitos dos 38 milhões de eleitores que hoje votam. "Ewa nunca desiludiu Tusk, sempre lhe foi leal. Quando ele está cá encontram-se, trocando impressões", disse fonte do partido à Reuters. Em declarações à mesma agência, o politólogo Rafal Chwedoruk, constata: "Claro que as candidatas hoje são Ewa e Beata mas a verdade é que quando dizemos Kopacz pensamos em Tusk e quando dizemos Szydlo pensamos em Kaczynski. Ainda vivemos na sombra destes dois líderes políticos." Quanto à inimizade entre ambos, Kaczysnski fez questão de cumprimentar Tusk quando este foi para o Conselho. E na altura declarou: "Disse-lhe para não acreditar que o odeio."

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