Turista espacial duas vezes

Apaixonou-se pelos computadores quando teve de trabalhar um velho 'Ural II' da era soviética, em Budapeste, sua terra natal. Fugiu para os Estados Unidos, inventou os programas Word e Excel. Está agora, de novo, na ISS.
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Richard Dawkins, famoso biólogo da evolução, e seu amigo, definiu Charles Simonyi como uma mistura de "homem da Renascença, de playboy do mundo científico, piloto de testes do intelecto e de alguém que orbita a mente e o planeta". E é bem possível que Dawkins não esteja longe da verdade sobre este homem que há 60 anos nasceu em Budapeste, na Hungria, e teve um percurso de vida que é tudo menos banal. Até na sua mais recente proeza, o inventor dos programas Word e Excell aposta na excepção: a de ser o único turista espacial que repetiu a aventura em órbita. Pelas duas viagens - a segunda está a decorrer -, o multimilionário, com riqueza avaliada em mil milhões de dólares, pagou 55 milhões de dólares: 20 milhões pelo primeiro bilhete, em 2007, e cerca de 35 milhões pelo último.

Simonyi começou a trabalhar com um computador aos 15 anos, quando eles eram máquinas raras que ocupavam salas inteiras e faziam barulhos esquisitos. Filho de um físico, o jovem Károly (mudou o nome para Charles quando se naturalizou nos Estados Unidos) foi contratado por um antigo aluno do pai para fazer o turno da noite na vigilância do computador do gabinete central de estatísticas, em Budapeste. O computador era um antiquado Ural II da era soviética. De cada vez que o ligavam, rebentava um tubo de vácuo da maquinaria, por isso era mantido sempre em funcionamento. O jovem Simonyi era o vigilante da noite e, embora a máquina não tivesse qualquer capacidade para fornecer dados em tempo real, como o próprio Simonyi contou mais tarde, aquele foi um amor à primeira vista. "Adorei o computador, embora ele fosse inútil para a tarefa", disse Simonyi, em 2007, a Scott Rosenberg, na publicação do MIT, Tecnhology Review.

Com esse velho Ural II da Idade da Pedra, de novo nas suas palavras, Simonyi iniciou-se na programação e passava as noites a inventar formas de gerar colunas de dados em que todas as somas davam resultados iguais.
Em 1965, aos 17 anos, ganhou um estágio numa empresa dinamarquesa de computadores. No final, deveria ter regressado a Budapeste, para ingressar na universidade. Mas, encorajado pelo próprio pai, decidiu fugir para os Estados Unidos. Recomendado por um programador dinamarquês com o qual havia trabalhado, ingressou na Universidade de Berkeley. Aí iniciou o caminho que o levou mais tarde à Microsoft, e ao lado de Bill Gates, de quem é hoje amigo, inventou um dos programas que revolucionaram a nossa forma de trabalhar - o Word.

Inventivo, visionário, ousado, Simonyi, que Bill Gates já considerou o melhor de todos os programadores, deixou a Microsoft em 2002 para fundar a sua própria empresa, a Intentional Software, cujo nome é toda uma declaração de intenções. A ideia é desenvolver programas com sistemas automáticos que gerem o programa final. Uma espécie de metaprogramação.
A sua vida pessoal também não é exactamente linear. Após namorar 15 anos com Martha Stewart, uma personalidade da televisão americana, apaixonou-se pela sueca Lisa Persdotter, de 28 anos, com quem se casou em Novembro, em Gotemburgo, na Suécia. Quando partiu para o espaço, há dias, Lisa estava lá, para dizer adeus.

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