Foi uma surpresa. O produto interno bruto (PIB) de Portugal cresceu 1,6% no terceiro trimestre deste ano (0,8% em relação aos três meses anteriores), superando largamente as expectativas. O consumo privado deu um forte impulso, traduzido em números recorde do crédito a particulares. Mas o maior contributo veio do turismo - deu o efeito "surpresa" que as exportações precisavam para despontar. Governo aplaudiu os números; Marcelo mostra cautela..Todos os analistas, da Católica ao ISEG, antecipavam um crescimento homólogo entre 1% e 1,3% no último trimestre, o que poderia dificultar o cumprimento da meta de 1,2% traçada por António Costa para 2016. Agora, realça, Filipe Garcia, do IMF, está "novamente em aberto a possibilidade de Portugal crescer acima de 1%"..Mas porque erraram as previsões? No caso da IMF, a expectativa apontava para um crescimento em cadeia entre 0,1% e 0,3% que, afinal, acabaria por se fixar em 0,8%. "O que posso especular, porque só podemos especular, é que foi um trimestre em que o turismo, que já esperávamos vir a ter uma boa prestação, tenha sido mesmo muito bom e admito que as exportações tenham conseguido um destaque maior com muito menos importações." Há ainda um outro fator: a refinaria de Sines, que nos primeiros meses do ano esteve parada, voltou à operação, impulsionando as exportações.."Indubitavelmente são boas notícias, mas é preciso perceber se esta subida tem significado, se é relevante, se é repetível, se é sustentada e equilibrada entre as variáveis que compõem o PIB", lembra Rui Bárbara, gestor de ativos do Banco Carregosa ao Dinheiro Vivo..A estimativa rápida do Instituto Nacional de Estatística ainda não detalha o comportamento de todas as variáveis. Mas o INE destaca a "aceleração do consumo privado", assente sobretudo na aquisição de bens não duradouros e serviços, e o avanço mais expressivo das exportações em comparação com as importações. Para conhecer o comportamento de outros indicadores, como o investimento, por exemplo, só no dia 30 deste mês com a divulgação final dos dados.."É incerto se o investimento vai ou não acompanhar a tendência global mais positiva. Diria que possivelmente ainda não, dada a leitura da alguns indicadores parcelares. Mas é positivo que as exportações continuem gradualmente a ganhar tração, dada a dimensão da economia portuguesa. Mais tarde, à medida que esta evolução permita o esgotamento da capacidade produtiva instalada, esta trajetória dará lugar à retoma do investimento", considera Paula Carvalho, economista-chefe do BPI, que se mostrou positivamente surpreendida. "Para nós foi uma surpresa, [o avanço] foi bastante positivo e significa que não será necessário crescer tanto no último trimestre do ano para o governo atingir os objetivos orçamentais para este ano. Este cenário não é isento de ses, dado que os riscos globais no próximo ano - brexit e política económica de Trump, por exemplo - são significativos. São sobretudo de natureza política e o seu impacto na atividade económica é incerto.".Com este crescimento de 0,8% em relação ao segundo trimestre deste ano, em que as exportações são o grande motor, em detrimento do consumo privado, que até cai, Portugal é o país da zona euro que mais cresce. Apenas a Bulgária teve um crescimento igual ao de Portugal. Espanha, Holanda e Eslováquia surgem perto, com um crescimento de 0,7%. A Alemanha desacelerou..O governo aplaudiu os resultados. Em Bruxelas, Augusto Santos Silva diz que recebeu os números do INE com um "enorme sorriso" e, por cá, José Vieira da Silva, ministro do Trabalho e da Segurança Social, arrisca já o desenho para o fecho do ano: "Coloca-nos muito provavelmente acima da última estimativa do governo e claramente acima das estimativas das organizações internacionais. Ora, isso tem um papel absolutamente decisivo para o nosso futuro de curto prazo e para o futuro de médio/longo prazo", afirmou..Marcelo Rebelo de Sousa é mais cauteloso: "Eu tinha dito uns tempos atrás que havia razões para esperar uma boa execução orçamental e porventura sinais em matéria de economia. Vamos ver é se se mantém até ao fim do ano", concluiu o Presidente da República.