Trump é zero a geopolítica

Publicado a
Atualizado a

Os europeus contribuem pouco para a NATO, os sul-coreanos e os japoneses poupam à custa do guarda-chuva nuclear americano, os sauditas têm de começar a usar as tropas ou os Estados Unidos vão deixar de lhes comprar petróleo. Numa entrevista ao The New York Times sobre política externa, Donald Trump deixou bem claro que acha que a América está a dar demasiado ao mundo. E deixa entender que ou os aliados passam a pagar a sério para contar com a proteção dos Estados Unidos ou vira--lhes as costas.

Em termos de tradição americana, o favorito à nomeação republicana para as presidenciais não está a inovar. O isolacionismo foi uma marca das administrações americanas durante quase todo o século XIX e depois nas décadas de 1920 e 1930, a ponto de os Estados Unidos não terem feito parte da Sociedade das Nações, a antecessora da ONU. Mas um presidente isolacionista é algo que a América não conhece há 90 anos. Mesmo com diferenças de motivação - basta pensar num Jimmy Carter campeão dos direitos humanos ou num George W. Bush promotor da democracia pela força -, os presidentes habituaram-se à ideia de que a pequena república agrária entretanto transformada em superpotência não se podia dar ao luxo de viver isolada como os Pais Fundadores chegaram a sonhar.

Trump peca também por ser injusto com os Aliados. Um caso óbvio é o da Coreia do Sul, país que ainda há pouco decidiu um forte aumento das despesas militares para assumir mais responsabilidades se a agressão norte-coreana acontecer. E o Japão, que todos os anos desde a chegada ao poder de Shinzo Abe reforça o orçamento militar, também só não gasta mais porque tem um artigo pacifista inscrito na Constituição que os americanos impuseram no fim da II Guerra Mundial. E, já agora, apelar à elevação do Japão a potência nuclear é desistir da política de não proliferação, atiçar a Coreia do Norte e, por arrasto, pôr a China em tensão.

Quanto aos sauditas, o problema não é gastarem em armas (gastam e muito, apesar da quebra das receitas petrolíferas), é mesmo se traz vantagens para a América estes armarem-se em polícias do Médio Oriente. E quanto à NATO, sim, a austeridade europeia fez cair os orçamentos de Defesa mas os Estados Unidos, apesar do ressurgimento russo, também há muito que vão reduzindo a presença militar na Europa, como provam as Lajes.

Pior do que tudo é a incoerência de Trump ao dizer que a América foi "grande" no início do século XX e nos anos 50. Ora, Teddy Roosevelt e Dwight Eisenhower foram tudo menos isolacionistas. O primeiro celebrizou-se pela política da cenoura e do bastão que fez das Caraíbas um lago americano, enquanto o segundo como presidente teve de lidar com a Guerra Fria, quando os Estados Unidos acabavam a Guerra da Coreia para logo se envolverem no Vietname.

Diário de Notícias
www.dn.pt